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“Muitas pessoas achavam que mulheres só eram capazes de pintar florzinhas ou eram as namoradas dos grafiteiros”, diz street artist Panmela Castro

“Muitas pessoas achavam que mulheres só eram capazes de pintar florzinhas ou eram as namoradas dos grafiteiros”, diz street artist Panmela Castro
 
A street artist carioca Panmela Castro, diante de seu grafitti, no Museu Stedelijk, em Amsterdã. Daniella Franco/RFI

Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o RFI Convida conversou com a street artist Panmela Castro: ativista, empreendedora cultural e promotora de arte urbana. A brasileira foi a artista escolhida pelo festival feminista holandês Mama Cash para ilustrar a fachada do Museu Stedelijk, em Amsterdã, um dos espaços mais importantes de arte moderna na Europa.

Daniella Franco, enviada especial a Amsterdã

O trabalho da artista urbana Panmela Castro se concentra na representação do corpo e da estética da mulher, sem rótulos. Para a carioca, recusar certos conceitos impostos pela sociedade é uma forma até mesmo de combater a violência contra a mulher.

“Nem toda a mulher é feminina. Eu mesma tenho muitas características que são consideradas masculinas. Quando falamos da nossa emancipação, é justamente para aceitar quem somos. Muitas vezes, a violência contra a mulher acontece porque pessoas não aceitam a forma como queremos ser: consideram que aquilo não é ser mulher. Temos quer pensar que ser mulher pode ser qualquer coisa que a gente realmente queira ser”, afirma.

Para ilustrar a fachada do Museu Stedelijk, em Amsterdã, Panmela Castro elaborou um grafitti dentro da ideia da “dororidade”, conceito criado pela professora e feminista brasileira Vilma Piedade.

“A pintura é a imagem de duas mulheres ligadas pelos cabelos e pelas ideias, falando sobre a união política delas, como a sororidade. Mas aqui eu uso a ‘dororidade’, conceito da Vilma Piedade que fala sobre esse apoio mútuo e união das mulheres, mas a partir da dor que se sofre pelo machismo e pelo racismo”, explica.

Homenagem à Marielle Franco

A ilustração da fachada do Museu Stedelijk também é uma homenagem à vereadora carioca Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018 no Rio de Janeiro. Para encerrar a pintura - acompanhada por dezenas de frequentadores do espaço e participantes do festival feminista Mama Cash - a street artist escolheu a frase: “um ano sem respostas”.

“O objetivo é falar sobre a investigação da morte de Marielle Franco, que no dia 14 de março completa um ano. Então, estamos celebrando o 8 de Março, mas também pedindo respostas sobre essa mulher importante no Brasil, que defendeu nossos direitos e nossa liberdade”, diz.

Uma luta que Panmela também encarna e vive em seu dia a dia de artista. “Nascer mulher nesse mundo é um ato político. São tantas barreiras a serem enfrentadas que muitas de nós não conseguimos identificar sempre que somos vítimas de machismo e preconceito. Por exemplo, no grafitti, quando eu comecei, muitas pessoas achavam que mulher só era capaz de pintar florzinhas ou eram as namoradas dos grafiteiros.”

Com o intuito de combater esses preconceitos, a carioca criou a Rede Nami, uma ONG que milita pelo fim da violência contra a mulher e fomenta o protagonismo feminino nas artes. “Quem não quer apertar uma lata de spray? Eu uso essa ferramenta e essa metodologia para atrair as mulheres. Quando elas chegam, a gente pinta e faz grafitti sim. Porém, antes, a gente fala sobre os nossos direitos.”

Para Panmela Castro, as mulheres merecem “os melhores muros” do mundo. “Eu sempre gritei bem alto e falei que queria o melhor muro para mim. E hoje estou aqui na Europa, pintando no Museu Stedelijk, mostrando para todo mundo que nós, mulheres, merecemos sim ocupar os melhores espaços e os espaços de poder”, salienta.

Intervenção da artista carioca Panmela Castro no museu Stedelijk, em Amsterdã. Daniella Franco/RFI

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