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Polêmica sobre apropriação cultural marca nova criação do Théâtre du Soleil

Polêmica sobre apropriação cultural marca nova criação do Théâtre du Soleil
 
Cena de "Kanata", em cartaz em Paris. ©Michèle Laurent

“Kanata – Episódio 1 – A controvérsia” é a mais nova criação em cartaz do mítico Théâtre du Soleil, criado há mais de 50 anos por Ariane Mnouchkine. E pela primeira vez, a líder da trupe internacional cede a direção para uma outra pessoa. No caso, Robert Lepage, um dos grandes nomes do teatro canadense. Uma polêmica com o tema da apropriação cultural quase cancelou o projeto.

A palavra “kanata”, do vocabulário dos nativos iroqueses, significa assentamento, cidade ou região e acabou sendo adotado para dar nome ao Canadá.  

Em duas horas e meia, o espetáculo condensa mais de cem anos da exploração e abuso sofrido pelos nativos, citando, através de personagens fictícios os casos de crianças afastadas dos pais, a assimilação forçada imposta pelo Estado e pela Igreja, a discriminação e os problemas de drogas.

Nirupama Nityanandan Repetições novembro de 2018, a Cartoucherie ©Michele Laurent

Em julho de 2018, em plena preparação de Kanata, um grupo de artistas e intelectuais indígenas do Canadá desencadeia uma grande polêmica, ao acusar o espetáculo de apropriação cultural, diante da falta de atores nativos. Um coprodutor financeiro se desliga do projeto na sequência, levando ao cancelamento do projeto.

Mas Ariane Mnouchkine e Robert Lepage não se dão por vencidos e passam a dialogar com os representantes dos nativos canadenses. A questão da apropriação cultural se torna um debate público. Na peça, uma personagem se pergunta: “É preciso ser judeu para falar de judeu? Ser negro para falar de negro?”.  

Shaghayegh Beheshti Repetições novembro de 2018, a Cartoucherie ©Michèle Laurent

"Não há fronteiras para a cultura"

“Não se pode falar em apropriação de algo que não é e nunca foi uma propriedade física ou intelectual”, declarou Mnouchkine. “Ou seja, as culturas não são propriedades de ninguém. Não há limites de demarcação para as culturas, justamente porque elas não têm fronteiras conhecidas no espaço geográfico e muito menos no tempo”, acrescenta a criadora do Théâtre du Soleil.

“A própria existência do espetáculo é uma resposta à pergunta sobre o direito de um artista se colocar no lugar do outro”, explica a paulista Aline Borsari, que participa da trupe há dez anos. Ela defende o direito de solidarizar, de expressar, de denunciar, de transmitir informações de uma cultura a outra. “Somos mais de 20 nacionalidades no Théâtre du Soleil, de culturas muito variadas, pessoas que se encontraram aqui e criam juntas”, acrescenta.

Trabalho de grupo

A criação coletiva é o forte do mítico grupo, que tem sede no Bois de Vincennes, um bosque no leste de Paris. “Já trabalhei na oficina, fazendo os cenários, no bar, na cozinha, servindo o público, no ateliê de figurinos”, conta Aline Borsari. “Temos funções múltiplas, não é só subir em cena, tudo é feito em conjunto, passo a passo”.

“Kanata – Episódio 1 – A controvérsia” fica em cartaz em Paris até 17 de fevereiro.

Kanata, repetição novembro 2017, Cartoucherie ©David Leclerc

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