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Carnaval 2018: o samba cai de boca na política em pleno ano eleitoral

Carnaval 2018: o samba cai de boca na política em pleno ano eleitoral
 
Penúltimo ensaio da Beija-Flor antes do desfile oficial de 2018. GRES.BeijaFlordeNilopolisOficial/E. Hollanda

"Pecado é não pular o Carnaval", provoca a Estação Primeira de Mangueira, numa referência ao prefeito do Rio de Janeiro e pastor evangélico, Marcelo Crivella. "Desobedecer para pacificar", canta a Mocidade Independente de Padre Miguel. "Liberte o cativeiro social", pede o coro do Paraíso do Tuiutí. "Salve a imigração", sauda a Portela.

Em São Paulo, a Império da Casa Verde usa a Revolução Francesa para falar do caos na política brasileira, com guilhotina e tudo. Será que o brasileiro decidiu levar a revolta para o Sambódromo? A RFI Brasil conversou com o antropólogo Roberto DaMatta, autor do livro "Carnavais, Malandros e Heróis", e com o presidente da Portela, Luiz Carlos Magalhães, para entender o fenômeno.

O Brasil como um "monstro Frankstein", carente "de amor e de ternura". "Troca um pedaço de pão por um pedaço de céu." "Ganância veste terno e gravata, onde a esperança sucumbiu." O samba-enredo da Escola de Samba Beija-Flor de Nilópolis arrancou aplausos antes mesmo do Carnaval, e deverá ser um destaques do panteão carioca em 2018. A escola de samba manda um recado ao prefeito do Rio, Marcelo Crivella, pastor evangélico que cortou grande parte das verbas destinadas ao evento. A política, aliás, nem sempre esteve tão presente na avenida, como nos conta o presidente da Portela, Luiz Carlos Magalhães.

"A tradição de enredos críticos é de algumas escolas", explica Magalhães. "Por exemplo, uma tradição da Caprichosos de Pilares, uma escola que passa hoje por enormes dificuldades, não se sabe nem se ela vai desfilar... E a São Clemente, que é uma escola mais crítica, mais irônica. As outras não têm muito esse perfil, trazem mais enredos culturais. Esse ano é que houve essa mudança de rumo", afirma.

Para o presidente da Portela, "o povo ficou mais informado, com todo esse malefício dos escândalos". "Ele ficou mais politizado, se decepcionou com os políticos que elegeu. Isso de alguma forma deve ter um efeito muito grande, assim nós esperamos, nas eleições [de 2018]", continua. "No campo das marchinhas, quase inexistentes hoje, é onde a crítica é muito mais direta", afirma Magalhães.

Carnaval como espelho invertido da sociedade brasileira

"O Carnaval de certa forma revela o fundo da sociedade brasileira", analisa o antropólogo Roberto DaMatta. "Ele inverte, traz o fundo do poço para cima, como virar uma bolsa de cabeça para baixo ou uma roupa do avesso. Numa sociedade brasileira, onde tudo é proibido, uma sociedade que teve também reis, imperadores, que teve uma aristocracia pesadíssima com escravidão negra, uma sociedade que é patronal, familística, e que, como em quase todas as sociedades tradicionais (como no caso romano ou na França pré-revolução Francesa), estavam inscritos na dinâmica destas sociedades determinados momentos orgiásticos, onde se podia fazer tudo", diz DaMatta.

"Evidentemente está acontecendo uma mudança, é popular. E popular no Brasil não tem a ver com cidadania, como no caso francês – foi o povo quem fez a Revolução Francesa", afirma. "Acho que nos últimos anos a ênfase na escola de samba diminuiu, e acho que vai diminuir mais, por causa do problema com a política, o populismo. [...] Não haverá mais dinheiro para distribuir para a escola de samba, e esse carnaval que aparece nos blocos, um carnaval atomizado como sempre foi – várias coisas acontecendo ao mesmo tempo – tiram a centralidade das escolas de samba, o que é uma mudança razoável", diz o antropólogo.

O carnaval brasileiro começa nesta sexta-feira (9) e vai até a terça-feira (13).


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