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Primeira feira de Arte Digital da França interpela colecionadores

Primeira feira de Arte Digital da França interpela colecionadores
 
Obra "Télescope Intérieur" do artista carioca Eduardo Kac, realizada em parceria com o astronauta francês Thomas Pesquet. Divulgação/http://www.variation.paris/

Abriu as portas no dia 15 de novembro em Paris a quarta edição de Variation - ArtJaws Media Art Fair, primeira feira francesa de arte contemporânea dedicada aos artistas que utilizam ou fazem referência a novas mídias eletrônicas em suas obras. Criada em 2014, a feira é uma vitrine para o mercado de arte e se dedica à contaminação das mídias artísticas pelo digital, segundo sua fundadora, Anne-Cécile Worms, uma das papisas do circuito parisiense e mundial nas áreas de cultura e inovação.

Anne-Cécile Worms, fundadora do Variation - ArtJaws Media Art Fair, explicou o espírito do evento durante o vernissage de abertura da feira na Cité Internationale des Artes, no coração da capital francesa. Segundo ela, trata-se de um "evento dedicado a todos os artistas que utilizam as novas tecnologias e que são com frequência sub-representados no mercado da arte. Então o objetivo desta exposição é mostrar que são artistas contemporâneos e que, mesmo se seus trabalhos utilizam novas tecnologias, sua obra se dirige a colecionadores, sejam grandes colecionadores ou 'primo' colecionadores, ou seja, gente que nunca comprou arte antes."

"Percebemos que o mercado evolui e mesmo se mega eventos como a Fiac representam muito pouco os artistas que utilizam novas tecnologias, começamos a ver colecionadores que compram este tipo de trabalho. Em Basel há todo um espaço dedicado aos artistas art-tec, como eu os chamo", completa Worms.

Chaves de leitura para um "novo mundo"

O curador da feira, Dominique Molon, dá a diretiva para a quarta edição de Variation: "Nós tentamos oferecer chaves de leitura para o mundo onde vivemos, quer dizer, o mundo completamente digital, com obras que são mais ou menos inspiradas neste universo.  Mas, além do digital, conseguimos abordar o mundo em sua complexidade, através de obras culturais, ou de procedimentos que são digitais, tecnológicos".

"A novidade deste ano foi ter incluído peças históricas reevocadas aqui pela documentação do que aconteceu no fim dos anos 60, a época onde aconteceu o primeiro impulso desse encontro entre artes e tecnologia que produziu consequências. Não é à toa que o começo da aventura da Internet aconteceu no fim dos anos 60."

Desde sua criação, Variation já apresentou cerca de 180 artistas e mais de 300 obras ilustrando práticas diversas da arte contemporânea como vídeo, o o mapping, as instalações interativas, a estéreolitografia, o glitch ou ainda o 3D. Este ano, o evento ganha o nome ArtJaws em seu título, uma referência à plataforma online que visa a facilitar o trâmite entre artistas, marchands e colecionadores.

Carioca realizou trabalho com astronauta francês

Para sua quarta edição, que fica em cartaz até o dia 25 de novembro, o curador Dominique Moulon selecionou cerca de 40 nomes internacionais, entre artistas iniciantes ou consagrados no circuito da chamada Art Tec.

Entre eles, o artista Eduardo Kac, artista americano-brasileiro, nascido no Rio de Janeiro, que desenvolveu um trabalho - "Telescópio Interior" - realizada em colaboração com o astronauta francês Thomas Pesquet, que se encontrava no espaço por ocasião da missão "Proxima" da Agência Espacial Europeia (ESA), lançada em novembro de 2016.

Feito a partir de materiais já disponíveis no estação espacial, o trabalho é um instrumento de observação e reflexão poética, que "nos leva a repensar nossa relação com o mundo e nosso lugar no universo".

"In memory of me", obra do artista francês Stéphane Simon. Divulgação/http://www.variation.paris/

Diversidade de linguagens e destaque para seção histórica

No primeiro andar do pavilhão da Cité Internationale des Arts, em Paris, uma série de obras coabitam na feira. Entre eles, um trabalho do artista plástico francês Stéphane Simon, uma escultura feita à partir de impressão 3D chamada "In memory of me", onde uma estátua reproduz o gesto de uma prática que todos os internautas do mundo conhecem bem: o selfie. Outro nome presente, Nicholas Schöffer, húngaro precursor da "arte cibernética", morto em 1992, ficou famoso por ligar arte e tecnologia fornecendo à suas esculturas cérebros eletrônicos como Chronos X, obra presente em Variations em 2017.

No último andar da exposição, o destaque vai para a seção histórica, que recupera em detalhes importantes o primeiro boom das novas tecnologias dentro do universo artístico, com destaque para a exposição A Origem do Mundo Digital, com grandes nomes como John Cage, Lucinda Childs, Robert Whitman, Robert Rauschenberg e Deborah Hay.

Do passado para o presente, e o futuro, vamos ouvir a jovem artista chilena Javiera Tejerina Risso, que participa desta edição de Variation.

"Meu trabalho se chama “To record water during days em Honolulu”. É uma instalação cinética, conectada a uma bóia na baía de Honolulu, no Havaí, que promove esse movimento que vemos aqui, é um jeito de reproduzir aqui e agora o que acontece em outro lugar, ou seja, o movimento do mar de Honolulu e suas ondas paradisíacas", conta a artista chilena.

"É importante para mim estar aqui, porque é uma espécie de vitrine parisiense das artes ligadas às novas tecnologias na França, um espaço que permite apresentar meu trabalho como profissional a um público bastante grande", finaliza Risso.

A feira Variation - ArtJaws Media Art Fair, que fica em cartaz até 25 de novembro, abre excepcionalmente este ano a Bienal "Némo, Arcadi", considerada a mostra mais importante de Arte Digital da França, que trará, a partir de 9 de dezembro, a exposição "Les Faits du Hasard", "Fatos do Acaso", em português, na capital francesa. 


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