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“Materiais têm potência e personalidade”, diz Artur Lescher em Paris

“Materiais têm potência e personalidade”, diz Artur Lescher em Paris
 
O artista plástico brasileiro Artur Lescher. Divulgação

Ele é uma das grandes figuras da arte abstrata latino-americana e expõe pela primeira vez na França, no Palais d'Iéna, em Paris, no contexto da FIAC, a Feira Internacional de Arte Contemporânea que acontece até o dia 22 de outubro na capital francesa. O RFI Convida conversou nesta sexta-feira (13) com o artista brasileiro Artur Lescher.

“A palavra ‘escultor’ não define muito o que se faz hoje em artes mesmo no trabalho que é tridimensional, que envolve a construção de coisas, a modelagem”, explica Lescher. “Eu acho que o campo da escultura já cresceu tanto que é difícil falar nisso como na época de Rodin. No sentido de esculpir, que é de retirar da matéria, ou de trabalhar retirando matéria para dar forma às coisas. O meu trabalho é mais uma construção, mas é uma construção tridimensional mesmo, eu gosto muito de relacionar materiais e fazer com que esses materiais evoquem algum sentido, alguma narrativa”, detalha o artista brasileiro, revelado com apenas 25 anos pela Bienal de São Paulo, em 1987.

“Gosto muito de escutar os materiais e ver qual a potência que eles têm. Parto do princípio que todo material tem uma potência e até chego a pensar que eles têm uma personalidade. Eu não acho que é à tôa que a matéria mercúrio se chame mercúrio e que isso tenha a ver com o personagem da mitologia grega, que tem uma personalidade bastante específica. Quando a gente pensa um metal, que é líquido, rápido, que ele é reflexivo, todas essas qualidades estão presentes no material. A partir desta ideia, eu penso os trabalhos com essa potência. Quando escolho materiais, tento perceber qual a vontade, a vocação deles”, explica o artista.

A primeira individual na França: "Porticus"

“[A exposição] ‘Porticus’ foi curada pelo Matthieu Poirier, esse título foi dado por ele. Ele propôs uma relação do meu trabalho com o arquiteto Auguste Perret. Há muitos pontos em comum, por exemplo a questão da engenharia, que me interessa também. Artista, pelo menos no Brasil, gosta mais de falar de arquitetura do que de engenharia. Mas engenharia é uma palavra e um tema que gosto muito, engenharia é o pensamento para construir as coisas, que é exatamente perceber a ideia que está por trás das coisas. Perret é um arquiteto do início do século passado. O prédio que ele fez, o Palais d’Iéna, é de 1936. Você percebe que tem uma pesquisa muito grande de materiais. Mesmo o uso do concreto armado, que era uma grande novidade. Ele consegue estabelecer relações de um material muito barato e pobre com metais, mármore e o próprio desenho, como ele estrutura esses materiais, como ele arranja isso”, detalha Lescher.

No quesito influências, Artur afirma que sempre gostou muito do construtivismo russo. “Prefiro sinceramente falar que a minha grande influência vem de lá. Acho que o construtivismo russo também foi uma grande influência para os concretos e os neoconcretos brasileiros. Existe uma linha que passa por aí. Ás vezes me pego fazendo trabalhos que têm muito a ver com Willys de Castro, por exemplo, um artista que gosto muito, do concretismo paulista. Mas não é que eu ‘sigo’ essas pessoas. Uma vez me disseram, e eu acho que é verdade, que influência não é o que você escolhe, mas é aquilo que você percebe que você tem”, finaliza o artista, cuja primeira exposição individual na França, “Porticus”, fica em cartaz até 25 de outubro no Palais de l’Iéna, na capital francesa.

(Para ouvir a entrevista completa com o artista brasileiro Artur Lescher, basta clicar na foto deste artigo)


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