Ouvir Baixar Podcast
  • 08h57 - 09h00 GMT
    Flash de notícias 21/11 08h57 GMT
  • 08h36 - 08h57 GMT
    Programa 21/11 08h36 GMT
  • 08h30 - 08h36 GMT
    Jornal 21/11 08h30 GMT
  • 14h27 - 14h30 GMT
    Flash de notícias 20/11 14h27 GMT
  • 14h06 - 14h27 GMT
    Programa 20/11 14h06 GMT
  • 14h00 - 14h06 GMT
    Jornal 20/11 14h00 GMT
  • 08h33 - 08h57 GMT
    Programa 19/11 08h33 GMT
  • 08h30 - 08h33 GMT
    Jornal 19/11 08h30 GMT
Para poder acessar todos os conteúdos multimídia, você deve instalar o plugin Flash no seu navegador. Para se conectar, você deve ativar os cookies nas configurações do navegador. O site da RFI é compatível com os seguintes navegadores: Internet Explorer 8 e +, Firefox 10 e +, Safari 3 e +, Chrome 17 e +.
Cultura

Carlinhos Brown é uma das principais atrações de festival de verão de NY

media Carlinhos Brown se apresenta neste sábado, 15 de julho em Nova York, e concedeu uma entrevista exclusiva à RFI. RFI/Eduardo Graça

Carlinhos Brown, um dos artistas brasileiros mais reconhecidos no exterior, é uma das principais atrações este ano do celebrado Festival do Lincoln Center, ponto alto do calendário cultural nova-yorkino, que vai de 10 a 30 de julho. O baiano de 54 anos reuniu para o show no David Geffen Hall, neste sábado (15), músicas de quase todos os seus 12 discos solo, lançados entre 1996 e 2015, além de composições suas que foram sucessos dos Tribalistas, de Ivete Sangalo, Marisa Monte, Paralamas do Sucesso e, claro, da Timbalada.

Por Eduardo Graça, correspondente da RFI em NY

Carlinhos Brown deu uma entrevista exclusiva a Eduardo Graça, correspondente da RFI em Nova York, em um café em TriBeCa, na parte sul da ilha de Manhattan. Na conversa, falou que muitas vezes se sente um estrangeiro na cena musical nacional, mas também refletiu sobre o paradoxo de ser criticado, com seus famosos cocares, como um artista “excessivamente brasileiro”.

O músico baiano tratou também da sobrevivência da cultura em meio à crise política brasileira, de sua experiência no “The Voice” e no “The Voice Kids”, na TV Globo. “Não é porque sou reconhecido na rua por conta dos programas que deixei de ser favelado. Minhas inflexões sociais são as mesmas!”, garante. Brown também fala de sua preocupação com os ataques a manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras no país, especialmente no Rio de Janeiro, tema presente em seu novo disco, “Deus Mestiço”, que será lançado no ano que vem. Confira abaixo os principais trechos do bate-papo:

RFI - O festival do Lincoln Center é um dos eventos mais importantes de Nova York. Você se sente, de alguma forma, representando o Brasil quando participa de um evento como este?

Carlinhos - Não. A representatividade não vem do indivíduo, mas da aceitação pela coletividade. Embora eu seja muito conhecido no Brasil, sinto que minha música, no Brasil, é estrangeira. Por exemplo, “Magalenha”, música que fiz com Sergio Mendes, que todo mês recebe dez versões remixes de DJ’s do mundo inteiro e que viram sempre número um, muito pouca gente conhece no Brasil. Quando Claudia Leitte cantou essa música, vi uma crítica na internet: “Carlinhos Brown está imitando o Gustavo Lima com tchê tchê rê tchê”. As pessoas nem imaginam que esta música ganhou um Grammy. E compus com um craque, que é o Sergio Mendes, que já havia percebido algo lá atrás: as onomatopeias brasileiras ajudam a quebrar essa barreira linguística do português. Pense no ô aria raiô obá obá obá do (Jorge) Benjor, que fez isso e explodiu mundo afora com o Sergio (“Mais que nada”). Foi o que fiz em “Magalenha” com o djêi djêi djêi”

RFI - O que você acha que isso revela do brasileiro? Somos mais ignorantes musicalmente por não perceber essas nuances? Temos preconceitos muito arraigados, achamos que a música tem de ser assim ou assado?

Carlinhos - Não acho que seja uma ignorância, não. Acho que é falta de curiosidade ou medo de não entender, de não se entender. Pelo fato de eu morar na Bahia, muita gente me vê pela ótica do Carnaval e não se interessa em ir além disso. Quem me ajuda é a Marisa (Monte), a Vanessa da Matta, os Paralamas do Sucesso, com “Uma brasileira”, e tal. Isso não me ofende, mas sinto que as pessoas não conhecem minha música. E aí considero, sim, minha música ainda mais estrangeira. Ela vem de uma escola rítmica - Jackson do Pandeiro, Luiz Gonzaga, terreiros de Candomblé, samba. Mas também outra melódica, com Ary Barroso, Tom Jobim, e não vou dizer que Roberto Carlos não esteja ali pelo meio, Sergio Reis também. Sou semianalfabeto, formado pela cultura brasileira, e quando boto aquele cocar, aquela coisa toda, as pessoas se assustam. Meu Deus, eu estou representando ali uma força que vem dos caboclos, dos índios que se juntaram com os negros contra a escravidão!

RFI - E aí, para determinado público, fica exageradamente brasileiro, não?

Carlinhos - Exatamente, fica brasileiro demais. Sinto muita dificuldade no mercado de São Paulo, por exemplo, porque sou muito brasileiro e São Paulo é muito cosmopolita. Mas aí o que me assusta é que o que faço vai pro mundo, volta requentado e aí, então, nego consome. Dou risada: quaquaraquaquá. O que posso dizer? Eu me aceito assim. Mas por isso não me sinto representante da cultura brasileira quando me apresento fora, como agora em NY. Mas, com todo respeito e autenticidade, da cultura baiana, sim! A ideia de que a música baiana é uma expressão regionalista, aliás, se perdeu. Se você não consumir Bahia, Pernambuco, e não entender aquilo, uma pena, mas o mundo entendeu. Vejo forró pé-de-serra, o tradicional, nos quatro cantos do mundo.

Carlinhos Brown conversou com a RFI em um café de TriBeCa, na parte sul da ilha de Manhattan. RFI/Eduardo Graça

RFI - As músicas classificadas como regionais não precisam mais do aval dos grandes centros, do Rio, de São Paulo, para explodir mundo afora?

Carlinhos - Não se precisa mais do mercado nem das cabeças do Rio, de São Paulo, e, olha, nem mais da americana. Não precisamos que a “América” diga sim para nos aceitarmos. Não mais. O que precisamos fazer é o contrário, as novas gerações sacaram isso muito claramente. As fronteiras entre o que é “mainstream”, “outsider”, e “garagem” não só não existem mais como eram anteriormente, mas, ainda mais importante, não interessam. Claro que o Brasil, hoje, vive uma fase de modismos na música, pois encontramos ali uma fuga no entretenimento. Então, nesta fuga, se empurra o que vem. E acabamos confundindo moda com algo autêntico, como a Anitta.

RFI - A Anitta é mais do que moda passageira...

Carlinhos - Ela é mais do que moda, ela é contemporânea. Quando o Brasil se espelha com o mundo a gente ainda estranha, né?

RFI - Nos últimos três, quatro anos, a imagem do Brasil no exterior passou a carregar uma conotação mais negativa, por conta da corrupção e das crises política e econômica. Isto afeta a percepção da cultura brasileira no exterior ou as pessoas conseguem separam as coisas?

Carlinhos - Elas separam. O comportamento é diferente de qualquer ação política, de qualquer demanda que venha do discurso, da palavra. Nosso comportamento cultural está inabalável. Sobretudo porque, e isso não sou só eu que acho, o mundo também, a grande chance do Brasil está no povo. O povo brasileiro é um preservador cultural, sobretudo no nordeste, de tal forma que a gente diz: “meu Deus, isso tudo existe mesmo?” Olha o que são as quadrilhas! Gente, o que está acontecendo no movimento de quadrilhas em Fortaleza é algo de expressão mundial, surrealista, de beleza ímpar. Veja Parintins, como se conseguiu reordenar um “carnaval fora do carnaval”, que ninguém imagina, com aquela beleza. E aí o pessoal fala, “nossa, mas lembra o Rio”. Sim, eles aprenderam com o Rio, mas o Rio, extremamente inteligente...

RFI - Quando você fala do Rio, está pensando nas escolas de samba...

Carlinhos - É. Isso. A Liga das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), que contrata mão-de-obra do Garantido e do Caprichoso. Isso é o intercâmbio. Ah, se o Brasil funcionasse como funciona a sua cultura. Hoje nossa cultura é mais dependente da política do que eu gostaria. Há uma tentativa de se fazer com que o acesso à cultura passe pela política, quando ela precisa de liberar disso. Temos um ministério da Cultura que não dá a dimensão da produção nacional. Há nele uma série de engendramentos que não condizem com nossas necessidades. A Lei Rouanet, por exemplo, foi um grande avanço, mas nunca se explicou à população que aquilo não é dinheiro do Estado em nossas mãos.

RFI - E alimenta a imagem, comum nas redes sociais, do artista que vive das tetas do governo...

Carlinhos - E não é verdade! E tem muita gente que é aprovado, mas não consegue captar. E o projeto é abortado. O que eu acho, no nosso caso, que deveríamos fazer, era fortalecer a Ordem dos Músicos. Não pode ser uma organização só para a gente pagar mensalidade e tirar a carteira profissional. Tínhamos de ser mais atuantes, desenvolver mecanismos de estudo para os instrumentistas, que deveriam receber muito mais. O mercado de música no Brasil tem muito mais entretenimento do que profissionalismo. O fato de eu ter ascendido como pessoa, como músico, não me dá soberba, não me faz me sentir ser maior. O fato de hoje eu trabalhar numa emissora de tevê (a TV Globo, nos programas The Voice Brail e The Voice Kids) que me dá voz, que faz com que as pessoas saibam quem eu sou na rua, não muda a realidade de eu continuar a ser o favelado. Eu continuo tendo as mesmas inflexões sociais que tinha anteriormente. Você acha que muita gente não tem preconceito quando eu grito “Ajaiô” (saudação usada comumente entre os membros do afoxé Filhos de Gandhi)? Tem! Muita gente tem tanto preconceito que nem vai ao meu show.

RFI - Como você, cujas raízes musicais, inclusive, passam, como já mencionado, pelo candomblé, vê as seguidas denúncias de discriminação a manifestações culturais e religiosas afro-brasileiras no Rio, inclusive contra a própria administração municipal?

Carlinhos - Com preocupação. Parte da família de meu pai tem esta ligação muito próxima com os terreiros e eu, como já disse, tenho entre minhas raízes musicais o candomblé. Já na família da minha mãe, temos ligações com os evangélicos. E uma das discussões, quando eu era criança em casa, é se eu seria um babalaorixá ou um pastor. Meu avô materno queria que eu estudasse para ser pastor. Eu escolhi Deus, como uma doutrina ampla, não como um pensamento, uma doutrina específica. Se você for um homem conflituoso, que busca o caminho por um único caminho, seja babalaorixá ou pastor, não chegará a Deus. Deus é a diversidade. Ele criou a arara com vários tons, folhas de árvores de todas as cores. Quer que eu diga qual seria uma das grandes soluções para o Rio de Janeiro? Subir em um otá (pedra de seixo ou solo que em tradições afro-brasileiras contém, através de ritos sagrados, o axé de determinado orixá), lugares prontos para oferendas espirituais, e nunca vi uma cidade com mais otás do que o Rio. O Rio é onde o primeiro movimento ecumênico mundial se deu, com a criação da umbanda. Precisamos utilizar todas as vertentes que Deus deu ao homem, mas não em busca de salvação, e sim de cura.

RFI - Ao pensar na história do Rio, o que você parece dizer é que não há mais nada anticarioca do que intolerância religiosa...

Carlinhos - Não se pode aceitar intolerância religiosa onde se colocou o ecumenismo na prática. O mundo está atrás desta coesão que nós já conquistamos lá atrás. Meu próximo disco, por isso mesmo, se chamará “Deus Mestiço”. Eu começo, na primeira faixa, com esta frase: “Nós não temos como explicar este amor por Yemanjá, é melhor refletir e parar de inferir o âmago invisível. Não precisa entender o aqui, nossa fé vem do existir, do atabaque batido, meu axé, meu abrigo de alma visível. As águas têm querer, babá. Como a terra tem o ori, o obi e o orixá. De dadá balé, para nós Cristo é Oxalá. Aleluia, aleluia, Jesus.” Sim, nós gritamos aleluia a Jesus! Nós acreditamos em aleluia como alegria, não como uma onomatopeia pífia de start de fé. A espiritualidade brasileira tem muitas línguas, além do português. Há o tupi-guarani, há o abaquá, o ijexá, o bambara, o iorubá. Pensei nisso tudo recentemente quando me apresentei no Marrocos.

RFI - Por que a conexão com o Marrocos?

Carlinhos - Estava em Essaouira (antiga Mogador) e comecei a cantar em iorubá, em bambara, e todo mundo respondia. E pensei: “opa! Esta música milenar foi parar no Brasil. Cantei minha música “Ashansu”, para Obaluiaê, e todo mundo entendeu. Cantei paranauê, paranauê, e eles entendiam, sentiam na escala modal, como fazemos no nordeste do Brasil. Sou apaixonado pela música árabe, mas só descobri lá, agora, um ritmo chamado caracatu que é um primo do nosso maracatu. A mistura da escravidão com os caboclinhos indígenas e a música holandesa estava ali na minha cara. E os organizadores do evento no Marrocos, no fim, me disseram: nunca houve uma mistura tão grande, Carlinhos, você foi incrível. Para voltarmos ao início da nossa conversa, eu retruquei na hora: “Desculpem, incrível é o Brasil”. Foi uma vitória da cultura brasileira.

RFI - Então vou provocar você com o outro lado da moeda: e o The Voice Brasil? É, também uma vitória da cultura brasileira?

Carlinhos - O trabalho com os novos cantores só me reforça esta certeza da vitória cultural brasileira. Mas vamos além. O belcanto italiano que formatou, junto com as igrejas, e o melisma hipnótico hindu e árabe, esta maravilha que é a música soul americana, o Rhythm & Blues, é uma senhora mistura. E se espalhou pelo mundo. O The Voice constata que este tipo de canto está no Brasil. João Gilberto trouxe uma suavidade que cabia muito no estilo da Bossa Nova. Provou ser possível trazer emoção, em português, em uma voz, entre aspas, pequena. Hoje voltamos ao dó de peito de Francisco Alves, Dalva de Oliveira, Cauby Peixoto, Agostinho dos Santos, Djavan. Você junta isso com uma tradição de composição, que passa por Tom Jobim e Chico Buarque, e o conchavo com a música mundial apresentado no Brasil hoje é originalíssimo, sim senhor.

RFI - Não há a preocupação de se cair na mera tradução de uma fórmula do pop contemporâneo americano mais quadrado?

Carlinhos - Há a preocupação do artista brasileiro chegar cantando uma canção de Rihanna, no tom dela, do jeito dela, porque aquilo é moda. E aí qual o papel de Lulu (Santos), Claudinha (Leitte), Michel (Teló), eu e quem estiver na mesa? Desafiar o jovem e trazê-lo para a tradição da música brasileira. Já damos um choque com um acompanhamento de banda brasileira, o suingue é outro. Nós não estamos ali para vetar ninguém, mas para repensar, requalificar, a música brasileira, através de novos possíveis futuros protagonistas. Pode cantar Rihanna, mas com sotaque brasileiro. Já aconteceu várias vezes da pessoa chegar lá com cover. Lulu é o primeiro a dizer: “cadê a originalidade?” Não é que não gostamos da Rihanna, mas já tem uma, né? E o programa tem nome e sobrenome, é The Voice Brasil. Por mais que façamos leituras de música do mundo inteiro, fincamos o pé na releitura brasileira.

RFI - É a mesma coisa com o The Voice Kids?

Carlinhos - Não! Para mim, ali há algo mais próximo de uma relação espiritual. As crianças às vezes chegam nervosas, tem a família ali por trás, um monte de fatores, mas quando elas entram no palco, é uma loucura. Elas encantam de uma forma e se transformam, cara. São anjos cantores. Presenciar aquilo é uma sorte enorme. É pensar em Michael Jackson criança, em Nikka Costa, em Jordi. E um atrás do outro, sem pretensão de explosão imediata. Ali, diferente do The Voice também, elas podem errar à vontade, acertam como e quando querem. São almas sem vícios que quando cantam, por exemplo, uma música do Roberto Carlos, fazem RC chorar em casa. Ela oferece melodias e notas que irão confrontar nossas vivencias. As pessoas cantam dor e amor em conexão com suas experiências muito próprias de dor e amor. As crianças, não. Elas cantam com a memória sonora do que entendem ser dor e amor, é quando a melodia se apropria de algo muito maior que nos apaixona.

Sobre o mesmo assunto
 
O tempo de conexão expirou.