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Cultura

Atriz brasileira fala de seus 26 anos vivendo a magia do Théâtre du Soleil

media A atriz Juliana Carneiro da Cunha fala do mítico Théâtre du Soleil. Foto: Patricia Moribe

O mítico Théâtre du Soleil, companhia criada pela francesa Ariane Mnouchikne em 1964, está com peça nova em cartaz: “Une Chambre en Inde” (Um quarto na Índia). Depois de mergulhar em criações oníricas e grandes clássicos – o último foi “Macbeth”, de Shakespeare –, o tom agora é de comédia e o cenário é a Índia hoje, em tempos de terrorismo e diversidade cultural.

“Une Chambre en Inde” fala sobre a assistente de um diretor de teatro, que se vê de repente, em algum lugar da Índia, em um quarto de hotel, abandonada pelo patrão, que enlouquece e some. O quarto vira uma janela para o mundo, com muita fantasia e a realidade de se viver em tempos de atentados. No palco, atores da tradição Theroo Khutu, do sul da Índia, fazem parte do enredo.

O espetáculo é encenado na Cartoucherie, antigo depósito de munição na floresta de Vincennes, a oeste de Paris, onde fica a sede do Théâtre du Soleil. Antes da peça, o público vira voyeur, espiando os atores através de recortes na cortina já quase transparente ou pelos vãos das escadas. No intervalo, os atores ajudam a servir bebidas e refeições.

Quem fala a respeito da criação da peça e do funcionamento da trupe é a brasileira Juliana Carneiro da Cunha, que entrou no grupo em 1990. A atriz e bailarina, companheira de Ariane há 27 anos, não participa desta última produção, mas acompanhou todo o processo e os ensaios.

Como surgiu "Une Chambre en Inde"?

Foi um percurso estranho. Ariane queria fazer um espetáculo sobre o escritor britânico George Orwell, que viveu na Birmânia. E fomos para lá, nos passos do Orwell, indo para todos os lugares onde ele havia estado. Ela disse: “fiz todo o dever de casa, fiz tudo o que me propus, mas não estou tendo nenhuma visão, nenhuma inspiração, nenhuma voz”.

Um dia encontramos pessoas do governo indiano que queriam que ela fosse para lá, com a escola nômade. Estávamos em Bancoc, Tailândia, e ela resolveu aceitar. Por acaso, na Índia, era época do festival de Theru Koothu [teatro tamul rural e popular], que vem do Kathakali, que é mais elitista. Então fomos para as montanhas. O festival tem 18 noites de Theru Koothu que varam a madrugada e só param quando o dia começa a raiar. Como os espetáculos são à luz de tochas, para mim, os espetáculos acabavam porque os raios de sol chegavam e brigavam com as chamas. Depois falaram que era só a minha imaginação (risos). Eu tinha certeza que era isso, mas eu é que inventei. Era muito bonito, muito lindo e ela se apaixonou por isso.

Então ela me disse que não ia ser mais o Orwell. Ela voltou para lá com a assistente, atriz e diretora Hélène Cinque, que é como uma filha para a Ariane. Ela acompanhava, desde os três anos de idade, a mãe, a atriz Joséphine Derenne, primeira companheira da Ariane. Lá elas encontraram um mestre, que apresentou a elas o sobrinho. No Theru Koothu tudo se passa de pai para filho, mas esse mestre só teve filhas. Então o sobrinho veio para a França, trouxe o grupo e montaram essa peça belíssima. Eles ensaiavam, dançavam, cantavam, tudo em tamul. Foram nove meses de ensaios.

Cena de "Une Chambre en Inde". Théâtre du Soleil, Cartoucherie 2016 © Michèle Laurent

Ela sempre trabalha assim, com propostas. Ela faz uma proposta e a gente faz uma outra. Ou seja, tudo é possível. Tudo é filmado. Ariane vai fazendo uma seleção, costurando a peça. E a gente se perguntando como é que ela ia colocar o Theru Koothu no meio disso. Acabou virando comédia, às vezes ela ria sozinha e a gente não entendia. Mas ela sempre vê adiante, então a seguimos com confiança.

Você não participa deste último espetáculo, por quê?

Eu pedi para me afastar, porque já estou com uma certa idade, vou fazer 68 (19/01), e é um trabalho de muita exigência física e moral, psicológica. Eu queria fazer coisas mais leves, mais engraçadas, com menos compromisso de tempo, porque aqui, quando a gente começa a ensaiar, é quase um ano, como foi o caso desta peça. E depois, graças aos deuses do teatro, ficamos em cartaz dois anos, às vezes, mais. Então é um compromisso de três anos.

Pensei “então eu vou estar com 70 anos quando a peça terminar, como é que vou estar fisicamente?”. A gente começa a pensar no quanto resta de vida, de vida com energia. Quero ficar mais com meus netos, quero ter mais prazer, eu trabalhei muito a vida inteira. Mas trabalhei com prazer, pois o teatro é uma das profissões mais prazerosas que se pode imaginar. A gente fica sempre na infância, brincando. Ariane entendeu que eu estava precisando desse período, ela também deve estar se questionando, afinal ela tem dez anos a mais que eu.

Pode acontecer de eu estar na próxima peça, quem sabe? Mas isso a gente só vai saber daqui a dois anos ou mais. Eu tenho um tempo pela frente. Ultimamente eu fiz televisão, cinema, fui para o Rio de Janeiro, Minas, Recife. Passei três meses fazendo a novela “Liberdade, Liberdade”, eu adorei. Foi muito difícil no começo, é um ritmo louco, a gente chega com o texto na ponta da língua, ensaia uma vez, depois uma segunda com as câmeras e grava. E a gente aqui no teatro fica oito meses ensaiando.

É um ritmo totalmente diferente, mas é ótimo, porque me joga de novo no desafio, no precipício do medo. Depois fiz cinema também, este ano faço uma outra participação pequena num filme.

Quando é que você decidiu que seria artista?

Eu comecei muito menininha, com quatro anos. Eu fazia aula de dança, porque na época se colocava as meninas na aula de dança para serem graciosas, trabalhar o corpo etc. Com sete anos eu já encontrei a minha mestra, Maria Duschenes, que morava no mesmo bairro, no Sumaré, em São Paulo, perto da TV Tupi. Eu ia e voltava sozinha e fazia todas as aulas – das crianças, dos jovens, dos adultos. Minha mãe telefonava para perguntar se precisava mandar os lençóis para eu dormir lá. Logo eu percebi que aquele era o meu mundo.

Cheguei à Europa aos 17 anos, passei pela Volkwangschule, onde Pina Bausch se formou, depois veio o Mudra, de Maurice Béjart, com o conceito de “teatro total”, misturando dança, teatro, música, yoga, dança clássica, moderna, espanhola, indiana, circo etc.

Meu primeiro papel no palco foi em “Bodas de Sangue”, no papel da noiva. Fiz ainda uma segunda peça antes de ficar grávida e aí surgiu a vontade de voltar para o Brasil, ficar perto dos pais, onde meus dois filhos nasceram. Fiquei um tempo no Brasil, dançando, pois ninguém me considerava como uma atriz, até que o Celso Nunes me chamou para fazer “As lágrimas amargas de Petra von Kant” [com Fernanda Montenegro, em cartaz durante dois anos]. Foi uma transição, pois era um personagem sem texto.

Depois disso comecei a fazer teatro, televisão e cinema. Quando as crianças tinham oito, nove anos, resolvemos voltar para a Europa. Sempre com o desejo de se aprofundar, de viajar, de se aventurar. Voltei de novo para a dança profissional, entrei na companhia da Maguy Marin, emagreci dez quilos, é uma disciplina muito puxada.

Como foi a sua entrada no Théâtre du Soleil?

Em 1990, eu vim fazer um estágio no Théâtre du Soleil, no mês de maio. Em agosto, a Ariane me chamou para fazer um teste para uma personagem, porque eles não estavam achando alguém para fazer a Clitemnestra. Fiz três dias de testes e daí a Ariane anunciou: “Estou muito feliz, achamos a nossa Clitemnestra”. Entrei na trupe no dia 27 de agosto de 1990. E no dia 29 de novembro do mesmo ano eu me declarei a Ariane. E estamos juntas desde então, nos casamos no ano passado.

As pessoas tem medo de se aproximar de Ariane e me perguntam como consigo. Eu sou calma, eu digo que “passo entre as gotas” (risos). Minha mãe me disse: “minha filha, eu entendo que você se apaixone por essa mulher, mas estou preocupada, será que você vai ter saúde para acompanhá-la?” Ariane tem essa dedicação total ao teatro, é uma pessoa muito amorosa, dedicada, solidária, humana, honesta e íntegra. Agora tem os netos, ela é apaixonada por eles, quer inclusive trocar o carro, que é pequeno demais, por causa das crianças.

Como funciona a trupe como cooperativa?

Quando eu cheguei, a participação dos atores na cozinha era muito forte. Por exemplo, dois atores eram escolhidos no começo do dia. Como eram muitas nacionalidades, a ideia era que se fizesse a comida do país de origem. Então os atores eram bastante ativos na cozinha. Hoje em dia, conforme as coisas foram evoluindo, nós temos uma equipe própria de cozinha e os atores são chamados quando há, por exemplo, muitas cebolas a serem descascadas, cenouras para serem cortadas. Mas não há mais a responsabilidade de fazer a refeição do começo ao final, isso fica a cargo do cozinheiro e sua equipe.

Os atores chegam para limpar tudo, as salas e os banheiros. E cada vez mais temos voluntários – jovens diretores, atores – que em troca de assistir aos ensaios, fazem algum tipo de trabalho. Muitos acabam ficando, ganhando um salário. Ariane tem sempre a preocupação de dar trabalho, às vezes um cargo é dividido por dois para que duas pessoas possam receber. Somos cem hoje. Quando eu cheguei, eram 65 pessoas envolvidas.

Há algum projeto do Théâtre du Soleil no Brasil?

O Théâtre du Soleil ficou conhecido no mundo inteiro, também pelos estágios no exterior e isso atrai muitos estrangeiros. Agora temos as escolas nômades, nós viajamos com o teatro. Fomos para o Chile, Suécia, Inglaterra e Índia. E este ano, se Deus quiser, vamos para o Brasil!

No Chile foi o maior evento, durou um mês. Teve 300 participantes, sendo que dois mil se candidataram. Os outros tiveram sessenta, cem participantes e duraram duas semanas.

 

Público é voyeur no Théâtre du Soleil. Foto: Patricia Moribe

Em 2009, a representação da peça “Ephémères” rendeu uma crítica cheia de elogios para o trabalho de Ariane Mnouchkine, destacando o trabalho “caloroso” e “cheio de nuances” de Juliana Carneiro da Cunha. “Você sabe que depois veio um agente me ver e me deixou um cartão? E não é que eu perdi o cartão? Vai saber onde eu poderia estar hoje”, diz a atriz em meio a boas risadas.

“Chambre en Inde”, uma criação coletiva do Théâtre du Soleil, tem direção de Ariane Mnouchkine. A música é de Jean-Jacques Lemêtre, que se apresenta ao vivo e está na companhia desde 1978.

 

 
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