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Cultura

“Os Deuses Malditos”: paralelo entre a ascensão do nazismo e a Europa atual

media A adaptação do filme “Os Deuses Malditos” (1969) do italiano Luchino Visconti será encenada no Palácio dos Papas do 6 ao 11 de julho. © Christophe Raynaud de Lage/Festival d'Avignon

O diretor belga Ivo Van Hove apresenta no festival de teatro francês uma versão sublime e amedrontadora do célebre filme de Luchino Visconti, de 1969, que relata o processo de aliança, na década de 30, de uma família de industriais alemães com os nazistas. O espetáculo faz referências claras ao ressurgimento de autoritarismos e ao radicalismo islâmico que ameaçam a Europa.

Ivo Van Hove, um dos diretores mais solicitados da cena europeia, parte do roteiro do filme “Os Deuses Malditos”, obra-prima cinematográfica, e cria uma peça ultra contemporânea com recursos sofisticados de imagens de vídeo e um elenco excepcional, formado pelos artistas da Comédie-Française, ausente desse evento teatral desde 1993. A peça, elogiada pela critica, surpreendeu os espectadores, e promete ser um dos maiores eventos desta edição do Festival.

Cena final lembra atentados terroristas

Como o italiano Luchino Visconti nos anos 60, o diretor belga parte da decadência e da depravação da aristocrática família Von Essenbeck de industriais alemães, para criar esta peça que relata minuciosamente o “contágio do mal”, o processo lento de ligação entre o capitalismo e o nazismo na Alemanha da década de 30. Mas Van Hove concentra deliberadamente a sua versão teatral no paralelo à situação atual da Europa, com uma cena final perturbadora do massacre dos personagens, que, para muitos lembra a chacina cometida pelos terroristas recentemente em Paris ou Bruxelas.

O jovem ator Christophe Montenez (esquerda) interpreta a personagem de Martin na peça "Les Damnés". ANNE-CHRISTINE POUJOULAT / AFP

O diretor insiste que não fez uma peça sobre o nazismo e sim sobre a perda possível de valores de qualquer sociedade. Como é também o argumento central do filme de Visconti. “Essa aliança entre a indústria siderúrgica alemã dos anos 30 e o regime nazista me lembra a atitude de meu país, a Bélgica, ou a França, Estados Unidos e outros países industrializados que vendem bilhões de euros em armamentos a países cuja conduta moral e política são condenáveis”- diz Van Hove no programa de apresentação da peça.

Mas uma das questões mais importantes abordadas nesse espetáculo, segundo ele, é a evolução de um dos personagens centrais, o jovem Martin Von Essenbeck, imortalizado no cinema pelo ator alemão Helmut Berger, interpretado nessa montagem com virtuosismo pelo francês Christophe Montenez. No início, Martin é um personagem apolítico e aos poucos vai desenvolvendo, por várias razões, um sentimento de ódio que acaba o transformando em um nazista, em um assassino. “Como não pensar” – acrescenta Van Hove – “nesses jovens que cometem massacres nas discotecas americanas ou nas salas de shows parisienses porque são instrumentalizados por uma ideologia?”.

Vídeos mostram intimidade do “ritual do mal”

Ivo Van Hove, que dirige a trupe Toneelgrope de Amsterdam, transita atualmente por teatros em Berlim, Londres ou Nova York, onde assinou no final de 2015 a direção de “Lazarus”, último espetáculo de David Bowie na Broadway. Para descrever o que ele chama de “ritual do mal”, ele explora, ao mesmo tempo, recursos da tragédia grega – como os coros que anunciam a passagem dos personagens para a morte – mas também os vídeos que funcionam como lupas de cenas eróticas ou violentas.

Para isso, ele contou com a participação do videasta americano Tal Yarden que criou um sistema de câmeras em movimento constante, que captam momentos muito íntimos dos personagens, e os projetam em telas gigantes, contribuindo para a dramaticidade e intensidade da peça. Esses vídeos são entremeados de algumas imagens de arquivos históricos, como o incêndio do Reichstag (o parlamento alemão) ou cenas do campo de Dachau em 1933, o primeiro campo de concentração para prisioneiros políticos, construído em 1933 e que serviu de modelo de treinamento para a os nazistas.

Quanto à ilustração sonora, que também tem um papel importante nessa adaptação do filme de Visconti, Van Hove optou por alternar músicas de compositores considerados “degenerados” pelos nazistas, como Stravinski e Shoenberg, com outras “empoderadas” pelos nazistas, como Strauss, Beethoven ou Wagner, que proporcionam uma tensão impressionante em algumas cenas.

Ivo Van Hove já havia conquistado o público de Avignon com recentes montagens como as “Tragédias Romanas” de Shakespeare, em 2008, ou “The Fountainhead”, adaptação do romance de Ayn Road, em 2014. Com essa versão teatral de “Os Deuses Malditos” (“Les Damnés”, em francês), resultado de uma minuciosa reflexão cênica e de uma ousadia bem contemporânea, o diretor belga está próximo de uma verdadeira consagração em um dos festivais de teatro mais importantes do mundo.

“Les Damnés” de Ivo Van Hove, fica em cartaz no Festival de Avignon até 16 de julho próximo.

 
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