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Autora brasileira fala de machismo no mundo dos quadrinhos

Autora brasileira fala de machismo no mundo dos quadrinhos
 
A autora de quadrinhos de humor Fabiane Langona faz humor em um universo tradicionalmente masculino. Divulgação

A 43a edição do Festival Internacional de Histórias em Quadrinhos de Angoulême abriu suas portas nesta quinta-feira (28), reunindo, como de costume, os principais autores e editores do setor. No entanto, esse ano o evento foi alvo de uma polêmica antes de mesmo de sua inauguração, por causa da falta de mulheres entre os autores selecionados para a competição oficial.

Enviado especial a Angoulême

No início de janeiro, quando organizadores do festival anunciaram os nomes dos 30 finalistas para o Grande Prêmio dos quadrinhos 2016, os fãs do gênero literário se depararam com uma seleção composta apenas por homens. No entanto, o episódio revelou uma disparidade que faz parte da história do evento, pois desde que foi criado, em 1974, apenas uma mulher, a francesa Florence Cestac, foi premiada nas competições de Angoulême.

Mas desta vez a polêmica ganhou repercussão nacional, e o Coletivo de Mulheres Quadrinistas contra o Sexismo (Collectif des créatrices de bande dessinée contre le sexisme, em francês), formado por autoras francesas, reagiu pedindo um boicote ao evento. Diante da revolta, os organizadores reagiram e tentaram, na última hora, incluir mulheres na competição.

Foi assim que a ilustradora francesa Claire Wendling foi inserida na lista e ficou entre os três finalistas do Grande Prêmio. No entanto, quem conquistou a honraria, entregue na abertura do festival, foi um homem, o desenhista belga Hermann.

Apenas 12% dos quadrinistas na França são mulheres

Mesmo se as escolas de Belas Artes da França são povoadas por uma maioria de alunas, apenas cerca 12% dos autores de histórias em quadrinhos do país são mulheres. A situação não é muito diferente no Brasil, mesmo se o panorama começa a mudar. “Claro que o número de autoras é muito menor, mas há muitas cartunistas produzindo”, comenta autora de quadrinhos de humor Fabiane Langona, que está em Angoulême participando da programação paralela. A brasileira, que assina seus trabalhos com o pseudônimo de Chiquinha, co-organiza a exposição Vague Brésilienne, que apresenta o trabalho de mais de 20 autores brasileiros na capital dos quadrinhos.

“Inocentemente, na minha cabeça de autora, sempre pensei que essa questão já estava resolvida, mas a cada novo evento a história se repete”, diz Fabiane, sobre a polêmica da seleção dos finalistas de Angoulême. “Mas o mais absurdo foi a declaração do porta-voz do festival, alegando que nos últimos cem anos não houve nenhuma mulher que produzisse algo substancial, capaz de ser mencionado em uma lista de homenageados”, reclama a autora.

“Há uma nova geração de mulheres quadrinistas, inclusive no Brasil”, pondera. Segundo ela, a internet ajudou na visibilidade desses talentos. “As pessoas estão fazendo suas próprias publicações, atuando sem depender de jornais e revistas”, comenta a autora, que defende a importância dos quadrinhos independentes para mudar esse contexto.

Fabiane, conhecida pela ironia de seu traço, diz lutar contra um duplo preconceito : “No começo, eu me sentia muito isolada, não apenas no meio das histórias em quadrinhos, mas principalmente no mundo do humor, que é visto como algo muito ‘pesado’ ou ‘agressivo’. As pessoas não vêem como um meio no qual as mulheres possam atuar, já que são seres ‘delicados, meigos e sensíveis’”, ironiza.

A polêmica sobre o aborto se tornou um verdadeiro personagem, o "Abortinho", no universo de Chiquinha. Chiqsland Corporation


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