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Ciências

Abortivo Cytotec será retirado do mercado francês

media Maior risco do uso de Cytotec é o de superdosagem na indução ao parto. André Borges/ Agência Brasília

A Agência Francesa do Medicamento anunciou hoje que o laboratório americano Pfizer vai retirar do mercado, a partir de março de 2018, o Cytotec, medicamento contra úlceras do estômago. O remédio também é utilizado para realizar abortos ou acelerar partos no fim da gestação. Porém, segundo as autoridades sanitárias da França, o uso representa um grave risco à saúde das mulheres e dos bebês.

No Brasil, o Cytotec foi vendido durante muitos anos de forma ilegal pela internet. Atualmente, a utilização do remédio é feita apenas por hospitais autorizados no país.

“O laboratório Pfizer France nos informou a sua decisão de retirar do mercado francês o seu produto Cytotec, utlizado em larga escala na ginecologia, fora das recomendações para as quais é previsto”, afirmou à AFP a Dra. Christelle Ratignier-Carbonneil, diretora-geral-adjunta da Agência Nacional do Medicamento francesa. “O Cytotec está no mercado desde 1987 e é muito pouco utilizado pela gastroenterologia, mas majoritariamente em ginecologia”, comentou.

Ratignier-Carbonneil acrescentou que, até março de 2018, os laboratórios que comercializam o Gymiso e o Misoone, cuja molécula é a mesma do Cytotec, poderão aumentar a produção a fim de “garantir o acesso à interrupção voluntária da gravidez” na França. Em 2015, pelo menos 128 mil abortos foram realizados no país, onde a prática é autorizada desde 1975.

O Cytotec costuma ser prescrito por via oral e contem misoprostol, molécula que pertence à família das prostaglandinas. “O misoprostol é um ótimo produto, com uma ação confirmada”, observa o ginecologista e obstetra Thierry Harvey, que destaca o uso recomendado para casos de abortos espontâneos, entre outros.

Risco de superdosagem no fim da gestação

A polêmica sobre o produto gira em torno da utilização vaginal do Cytotec, para induzir ao parto de bebês em boa saúde e cuja gestação já chegou ao termo. Nesses casos, há riscos graves para a saúde da mulher e do filho, segundo a associação Timéo, que milita pela proibição do medicamento.

O maior risco do uso não previsto do remédio é a superdosagem – para a indução ao parto, é necessário apenas um oitavo de comprido. O problema é chegar-se a essa dose com precisão, afirma o Dr. Harvey, já que o comprimido tem 200 microgramas e menos de um centímetro.

O ginecologista indica que o uso do Cytotec se generalizou por causa do baixo custo do produto, de cerca de € 0,30. A superdosagem pode ocasionar contrações fortes demais na gestante e uma má oxigenação do bebê. Desde 2013, a Agência do Medicamento já havia advertido sobre os riscos graves para a mãe e a criança, como ruptura do útero e hemorragia.

Os produtos à base de prostaglandinas específicos para a indução do parto, em gel, custam bem mais caro do que o Cytotec. “Precisamos de genéricos do produto, de misoprostol, que sejam baratos como o Cytotec e tenham diferentes dosagens”, resumiu o Dr. Harvey.  

Filho com sequelas e briga na justiça

“Meu filho ficou entre a vida e a morte vários dias, tive o útero despedaçado e não poderei mais ter filhos. É inacreditável que mulheres sejam obrigadas a passar por isso por causa de razões financeiras”, protesta Aurélie Joux, fundadora da associação Timéo. O filho dela, que deu nome à entidade, “nasceu de uma superdosagem de Cytotec” em novembro de 2010.

“Para economizar, os hospitais preferem usar o Cytotec, que não custa nada. É um escândalo”, disse a mãe, que afirma não ter sido informada sobre quais medicamentos seriam usados para a indução do parto, realizada três dias após o termo da gestação.

Em 2016, Joux ganhou, em primeira instância, um processo contra o Hospital de Poissy, onde foi realizado o parto, pelos danos causados ao seu filho, que teve sérias sequelas. A seguradora do hospital, Sham, recorreu da sentença.

O laboratório dinamarquês Azanta já pediu autorização para comercializar uma dose de 25 microgramas do medicamento. A solicitação está sendo analisada pela agência francesa e pode ser formalizada em 2018, indicou Ratignier-Carbonneil.

Com informações da AFP

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