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Erradicar o vírus zika é impossível, diz pesquisadora do Instituto Pasteur

Erradicar o vírus zika é impossível, diz pesquisadora do Instituto Pasteur
 
O mosquito Aedes aegypti é responsável pelo zika, mas também pela dengue e pela doença tropical do chikungunya. Rafael Neddermeyer

Diante do aumento dos casos de microcefalia no Brasil associados ao zika, as autoridades públicas e os cientistas se mobilizam para combater a epidemia e promover avanços nas pesquisas sobre o vírus transmitido pelo mosquito do tipo aedes, o mesmo que provoca a dengue e a chikungunya.

Até o dia 16 de janeiro, já foram registrados no país 3.893 casos de microcefalia, doença que provoca um crescimento anormal da caixa craniana. Pernambuco, o primeiro estado brasileiro a identificar o surto, já registra quase 1.306 casos, o maior número até agora desde que as estatísticas começaram a ser feitas.

Desde novembro, o estado obriga a notificação de mulheres grávidas que apresentem exantema, ou seja,  manchas avermelhadas na pele que possam indicar os riscos de microcefalia no feto. “Estamos recebendo notificação das gestantes com exantema durante o exame pré-natal ou quando elas procuram os médicos com esse sintoma. O estado garante o exame para identificar o zika, mas também a dengue a chikungunya”, afirma Patrícia Ismael, Diretora Geral de Ações Estratégias em Vigilância em Saúde.

O governo pernambucano faz campanha para as grávidas consultarem os médicos logo que aparecem os sintomas de exantema. "A maior incidência da doença é quando as mulheres grávidas estão com as manchas. Se passar o exantema, a gente pode não ter mais como detectar se elas tiveram dengue, chikungunya ou zika", diz. Segundo Patrícia, depois é dfeito um segundo ultrassom entre a 32ª e 35ª semana de gestação para confirmar o risco de uma microcefalia intra-uterina.

Pequisas em curso sobre vírus e microcefalia

Enquanto as autoridades públicas buscam respostas para frear a epidemia, pesquisadores se mobilizam para entender melhor o vírus e o processo de transmissão. O agente vetor do zika é o mesmo da dengue e da chikungunya.

Na semana passada, um grupo de pesquisadores do centro médicosda Fiocruz em Curitiba anunciou ter identificado o vírus na placenta de uma mulher que teve um aborto espontâneo, o que comprovaria que o vírus pode atingir o feto. Até então, os médicos haviam apenas encontrado o vírus zika no líquido aminiótico de duas mulheres grávidas.

O Instituto Pasteur, em Paris e na sua unidade na Guiana Francesa, também realiza pesquisas para melhor entender o funcionamento do mosquito e a relação do zika com a microcefalia. Um primeiro passo já foi dado com o sequenciamento do mosquito vetor, o aedes aegypti.

No entanto, ainda é preciso realizar mais investigações sobre a relação entre o vírus e os casos de microcefalia. Em entrevista à RFI Brasil, Anna Bella Failloux, diretora responsável da Unidade arbovírus e Insetos vetores do Instituto Pasteur afirma que o estágio atual da pesquisa sobre esse assunto não permite estabelecer um vínculo concreto.

“Atualmente, investigamos como o vírus, mesmo com uma carga viral muito alta, pode afetar o desenvolvimento do bebê, particularmente em relação ao cérebro. Não sabemos exatamente como acontece, mas existe uma correlação no fato de que a mãe esteja infectada no início da gravidez e os sintomas dramáticos do zika. Mas ainda não há ainda resultados concretos de pesquisas e investigações para identificar as causas. Estamos trabalhando para entender como ocorre essa transmissão”, afirma.

Atualmente o Instituto Pasteur desenvolve dois métodos alternativos de pesquisa em laboratório com mosquitos para entender a transmissão vetorial. Como uma espécie de mosquito em um dado local é capaz, depois de ter sugado sangue contendo o vírus seja capaz de transmitir a uma outra pessoa através da saliva da fêmea que vai injetar nesta pessoa. É preciso entender esse mecanismo para propor soluções”, diz.

“Mosquitos incompetentes”

Segundo Anna-Bella Failloux, uma das linhas de investigação está associada com empresas que desenvolveram mosquitos transgênicos. Elas criaram novso tipos para serem dispersados na natureza com o objetivo de se acoplar com os mosquitos existentes, chamados de “selvagens”. A ideia é provocar uma descendência que não será viável para a transmissão do vírus. “Despejando mosquitos transgênicos na natureza, a tendência é diminuir a densidade desses mosquitos”, afirma.

A segunda possibilidade é desenvolver e “largar” na natureza mosquitos considerados “incompetentes” para transmitir o vírus. A quantidade de mosquitos não iria diminuir, mas eles seriam incapazes de propagar o zika.

“O Instituto Pasteur propõe essa segunda opção porque eliminar totalmente esse mosquito, erradicá-lo, criaria um ‘vazio ecológico’ que poderia ser ocupado por outro mosquito. Esse novo mosquito poderá ser ainda mais perigoso do que o mosquito erradicado”, afirma. “É por isso que defendemos essa alternativa porque vai evitar a colonização desse ‘vazio ecológico’ e substituir uma espécie pela mesma, mas incapaz de transmitir o vírus”, garante Failloux.

Pesquisador coleta larvas de mosquitos Aedes aegypti em um laboratório do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo, em 08 de janeiro de 2016 em São Paulo, Brasil. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA

O Brasil já efetua testes com mosquitos transgênicos como o desenvolvido pela empresa Oxitec e de outros consórcios que utilizam uma bactéria capaz de limitar a transmissão do vírus da dengue. Segundo failloux, o governo brasileiro autorizou o uso de testes com o objetivo de encontrar métodos para tentar combater essas doenças e patologias ligadas aos vírus diante das consequências graves para a economia.

“Estamos no começo das pesquisas. Ainda não há muitas pessoas trabalhando sobre o zika. Porque só ouvimos falar dele em 2007 quando apareceu no Pacífico e em 2015 quando surgiu no Brasil. Nosso conhecimento sobre esse vírus ainda é mínimo. Vai ser preciso um certo tempo para os pesquisadores entenderem e trabalharem com esse vírus”, garante.

Erradicar o vírus da zika é impossível

Segundo Anna-Bella Failoux, a direção do Instituto Pasteur em Paris demonstra disposição em envolver as 18 unidades de pesquisa do departamento de virologia para contribuir para frear a expansão da epidemia. O Instituto Pasteur realiza investigações em parceira com o Instituto Osvaldo Cruz no Brasil, Instituto Pasteur da Guiana Francesa e da Guadalupe, da Nova Caledônia e um instituto de Dakar, no Senagal, onde também existe um foco importante de epidemia ligada ao mosquito do tipo aedes.

O vírus não é mortal, mas complicações neurológicas foram identificadas na Polinésia Francesa, foco de uma epidemia com casos desenvolvidos da síndrome de Guillan-Barré e sintomas como paralisia e dificuldade de controle dos músculos respiratórios.

Mas 70% dos casos são assintomáticos, ou seja, a pessoa não desenvolve sintomas. Ela tem o vírus, está infectada, mas não desenvolve os sintomas típicos do zika: Febre, dores de cabeça, e dores nas articulações. Em geral, o vírus não é mortal e é benigno.

Para melhor entender a cadeia de transmissão, pesquisadores precisam ainda identificar se os humanos podem transmitir o vírus para o mosquito. “A questão que nos colocamos é: uma pessoa que aloja o vírus é capaz de estar na origem da contaminação do mosquito que a pica? Para isso, é preciso fazer testes com pessoas assintomáticas, retirar seu sangue, dar ao mosquito para saber se esse mosquito é capaz de transmitir. Temos que começar a fazer esse tipo de estudo”, defende a diretora do Instituto Pasteur.

“É preciso identificar as pessoas contaminadas, retirar o sangue, isolar o vírus e transmitir ao mosquito. Mas para isso, é preciso fazer em laboratórios do tipo 3, de alta segurança, para poder manipular o vírus, o mosquito e fazer os testes de transmissão”, explica.

O mosquito se reproduz em áreas tropicais mas também em zonas temperadas. Na Europa, o aedes albopictus, mesmo vetor de doenças do aedes egypti, está presente em 21 países e em várias regiões do sul da França. A única coisa que pode pará-lo é a temperatura.

“A erradicação desse mosquito é impossível. O aedes aegypti e o aedes albopictus são duas espécies invasivas porque eles apresentam ovos que têm uma casca impermeável e permite ao ovo sobreviver. Isso quer dizer, se eu colocar um ovo em cima de uma mesa e depois de seis meses, abrir a casca, a larva vai sair. O que está dentro do ovo ainda vai estar vivo. É assim que esse mosquito vai invadir o mundo. Esse ovo não será morto por inseticidas. Os inseticidas vão matar os adultos, mas não os ovos e por esse motivo por isso nunca poderemos falar de erradicação deste mosquito”, afirma.

Por enquanto, não há sequer uma previsão mínima de quando uma vacina poderá surgir a partir das pesquisas. “Acredito que equipes poderão se interessar em desenvolver vacinas. Mas isso vai depender essencialmente de recursos. Desenvolver uma vacina custa caro e leva tempo. Se for necessário desenvolver uma vacina será necessário fazê-lo, custe o que custar”, afirma Failloux.

“Vai depender de vontade política. A ciência está ligada à vontade política. Se essa vontade existe, não sei. Até agora não ouvi falar sobre o interesse no desenvolvimento de uma vacina”, completou.
 


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