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Brasil

Corte de verbas na universidade é uma coisa infantil, diz professor da UnB

media Professor de Ciência Política da UnB atribui o corte de orçamento feito pelo MEC como uma retaliação à presença de Haddad na universidade. Reprodução Facebook

“Estamos todos ainda estupefatos, porque vai além da imaginação um governo tão primário e tão agressivo contra a universidade quanto este”. Esta foi a reação de Luis Felipe Miguel professor de Ciência Política da Universidade de Brasília (UnB) ao tomar conhecimento de que o Ministério da Educação (MEC) tinha bloqueado 30% do orçamento de três universidades federais brasileiras.

As instituições atingidas pelo bloqueio de verbas foram a UnB, a Universidade Federal da Bahia (UFBA) e a Universidade Federal Fluminense (UFF). “Fica claro que o Estado brasileiro está sendo usado como instrumento de perseguição política e isso é absolutamente ilegal”, afirma Miguel.

O reitor da UFBA, João Carlos Salles, conta como ficou sabendo dos cortes: “Nós tivemos registro deste bloqueio pelo SIAF (sistema de contas), não temos nenhuma informação, nenhum comunicado do MEC acerca da motivação do bloqueio. Pela imprensa, foram colocadas algumas informações que registrariam supostas declarações do ministro [da Educação, Abraham Weintraub], mencionando razões da balbúrdia na universidade e fraco desempenho da nossa instituição. As duas supostas motivações não são pertinentes”.

"Lugar de debates"

“Primeiro, a universidade é um lugar de produção do conhecimento, de eventos, sim, de mobilização, de debates, de seminários que se voltam a questões relevantes para a sociedade, lugar de liberdade de expressão, lugar de relação com a sociedade, com os movimentos sociais certamente, com os diversos setores da sociedade”, esclarece o reitor.

“Segundo, a nossa gestão, em continuidade às gestões anteriores, tem melhorado os seus índices sobre indicadores de qualidade da graduação, da pós-graduação, o peso das nossas pesquisas. Não podemos aceitar, acreditar que a motivação seja esta. Vamos indagar ao MEC, para saber qual é a justificativa e, a depender dos esclarecimentos, tomar as medidas cabíveis”, completa.

João Carlos Salles, reitor da UFBA
Reitor da UFBA, João carlos Salles disse estar estupefato com o bloqueio de 30% do orçamento da universidade Arquivo Pessoal

Salles disse que está em contato com os reitores das outras duas universidades atingidas – “todos estupefatos com esta decisão” – para tentar esclarecer e reverter este bloqueio.

Lado positivo

“Quero registrar um lado positivo disso tudo: temos recebido diversas manifestações de autoridades, intelectuais, parlamentares, das nossas comunidades. Manifestações de solidariedade, de pessoas preocupadas em reverter esta situação”, conta.

Segundo Salles, os impactos não são imediatos porque o orçamento é anual, haverá prejuízo na previsão e execução de contratos já feitos, se o bloqueio se mantiver.

“Não podemos acreditar que um gestor público é motivado por um tipo qualquer de punição. Um gestor vem ao socorro das universidades se houver problemas e não faria punições a uma universidade ou outra. O que causa estranheza neste bloqueio é que ele não é linear, para todas as universidades.  Ele discrimina algumas universidades e faz um bloqueio nestas universidades. Isso, sim, causa surpresa”, conclui.

Sem surpresas

Para Luis Felipe Miguel, professor de Ciência Política da UnB, o bloqueio do orçamento não foi uma surpresa.

“Não dá para dizer que seja uma surpresa, porque a gente tem, infelizmente, um governo que está em guerra contra a educação e a ciência no Brasil. O governo Bolsonaro nunca foi capaz de apresentar qualquer tipo de projeto para a educação brasileira e transformou o Ministério da Educação na ponta de lança de uma agitação ideológica, afirmando que a educação brasileira é tomada por pessoas de esquerda, é perdulária, doutrina os estudantes, desqualificando todo o trabalho de formação, de pesquisa que é feito nas universidades”, analisa.

Miguel tem uma suspeita do motivo real deste bloqueio: “No caso da UnB, foi claramente porque o candidato derrotado na eleição presidencial, Fernando Haddad, esteve num evento promovido pelo Centro Acadêmico [da UnB] semana passada. Ele esteve neste evento e foi recebido por uma multidão de estudantes.

Não foi um evento oficial da universidade – e não que a universidade não pudesse convidar um político, que também é professor, por sinal, para um evento oficial  –, mas era um evento de um órgão de representação estudantil”.

“Foi um grande evento na universidade, havia milhares de pessoas e em seguida a verba da universidade foi cortada. É uma coisa infantil, mas infelizmente este infantilismo é a marca deste governo”, opina.

Luis Felipe Miguel, professor da UnB
Luis Felipe Miguel, professor de Ciência Política da UnB, defende a abertura da universidade como forma de resistência. Arquivo Pessoal

Curso sobre o golpe

Carlos Zacarias, professor de História da UFBA, sugeriu que o fato de Luis Felipe Miguel ter criado o curso ““O Golpe de 2016 e o futuro da democracia no Brasil”, que foi replicado na UFBA e em outras universidades, teria sido o estopim da escolha do ministro Weintraub.

Miguel responde: “Eu acho que este pode ter sido um dos aspectos, mas não foi só isso. A UnB fica aqui em Brasília, do lado do Poder, e portanto as nossas ações acabam sendo mais visíveis. Nós temos uma reitora que tem uma posição firme em favor da democracia e da autonomia universitária – e isso incomoda.
Então houve aquele episódio da disciplina, mas em vários momentos a UnB sofre pressões por ter esta visibilidade, por estar aqui perto do centro do poder”, afirma.

“Eu acho que o gatilho foi esta visita do Fernando Haddad na semana passada. Porque, na verdade, deve incomodar o fato de que nem o ministro nem o presidente da República têm condições hoje de entrar em um campus de qualquer universidade brasileira. Está sendo feito um processo de destruição do ensino público superior no Brasil”, lamenta, citando que as universidades atingidas têm desempenho acadêmico acima da média.

“Na semana passada, por exemplo, este mesmo ministro falou que os cursos de Filosofia e Sociologia tinham de ser fechados porque não davam retorno à sociedade. É um governo que não tem o menor respeito seja pelo conhecimento seja pelo princípio constitucional, no Brasil, da autonomia universitária”, se inquieta.

Reação da comunidade acadêmica

“Eu acho que já passou da hora de a universidade brasileira dar uma resposta forte a isso”, incita.

Luis Felipe Miguel propõe, como solução, não uma greve na universidade, mas a abertura da mesma como forma de resistência política: “Ampliar aulas públicas, transferir suas atividades para espaços fora dos campi, reforçar para a sociedade que o nosso trabalho às vezes pode ser inviabilizado, mas ele tem um papel fundamental para o desenvolvimento do país”.

Para ele, o ideal seria “uma atividade que ao mesmo tempo aumentasse a nossa coesão interna e por outro lado aumentasse o nosso diálogo com a sociedade. Porque isso é outra coisa que incomoda o atual ministro da Educação”.

O professor de Ciência Política faz uma defesa do diálogo com a sociedade como forma de resistência: “Um dos exemplos que o ministro deu de bagunça que estaria acontecendo na universidade é a presença de Sem Terra no campus. A UnB e várias outras universidades têm convênios com assentamentos de trabalhadores rurais sem terras, a gente tem diálogo com movimentos sociais e isso faz parte da universidade”.

“Eles querem nos intimidar para que a gente rompa com isso, mas eu acho, pelo contrário, que este é o momento de a gente fortalecer o nosso diálogo com a sociedade, de mostrar para a sociedade o nosso papel, se a gente quer construir um Brasil menos injusto e menos autoritário”, finaliza.

 
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