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Brasil

Brasileiros relatam casos de discriminação em universidades portuguesas

media O carioca Leonardo Alves faz pós-graduação em Direitos humanos na Universidade de Lisboa e sente um clima de rejeição aos brasileiros em Portugal. Arquivo Pessoal

A imagem de uma caixa contendo pedras com o anúncio de que elas seriam gratuitas se fossem arremessadas contra os “zucas”, como os brasileiros são conhecidos em Portugal, chocou muita gente quando retransmitida nas redes sociais. O episódio aconteceu na segunda-feira (29), na Universidade de Lisboa.

Por Paloma Varón e Andréia Gomes Durão

Professor em Literatura Portuguesa, o paulista Leonardo de Barros, que fez partes do mestrado e do doutorado em Portugal, disse não ter se surpreendido com o episódio.

“Me recusei a acreditar. Mas é fato e, no fim das contas, não sei por que me espantei. Nas oportunidades que tive de viver em Portugal, era impossível não respirar uma violência, quando não explícita, insinuada em microssituações cotidianas. É por isso que digo e repito: como doutor justamente em Literatura Portuguesa, é mais que óbvia minha admiração pela cultura do país, mas não dá, NÃO DÁ - e disso depende inclusive a qualidade do profissional que sou/quero ser - pra nós, brasileiros, pensarmos Portugal ainda na chave de uma certa romantização - seja da paisagem, da história, do que for”, desabafou Barros no Facebook.

Reprodução Tweet
Estudante brasileiro denuncia preconceito na Universidade de Lisboa Reprodução Tweet

Barros ficou um ano e três meses em Portugal. O suficiente, segundo ele, para sentir o preconceito. “As situações de discriminação poderiam ser bastante sutis, muitas vezes disfarçadas como demonstração de carinho, na forma em que seu sotaque vira piada, na forma como você facilmente é tratado por ‘brasileiro’, simplesmente”, disse ele à RFI.

De acordo com ele, no atendimento comercial, existe uma tendência à infantilização, “como quando o rapaz do banco me instruiu a colocar o cartão no caixa eletrônico e me mostrou onde deveria colocá-lo”, ou a uma extrema rudeza, “como quando, nos correios, a mulher disse estar cansada de explicar tudo para quem não sabe nada”. “Algumas situações são mais violentas e explícitas.”

"Certa vez, o motorista do ônibus me disse para "falar direito", quando ele perguntou se eu ia para Lisboa e eu respondi 'isso', ao que ele replico 'Isso o quê? É sim ou não'", relata mais um episódio.

Como muitas vítimas de preconceito, Barros teve vergonha em comentar com amigos o preconceito que sentia na pele: "Uma vez, na biblioteca da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, eu dizia a uma menina: ‘Você se importa se eu sentar aqui?’, e o rapaz ao lado chiou por silêncio e disse baixinho: ‘Essa gente não sabe falar baixo’. São coisas que tive até vergonha de contar para as pessoas próximas nos termos que exatamente aconteceram, como se fosse motivo de vergonha para mim tê-las ouvido.

Leonardo de Barros é doutor em Literatura Portuguesa
O paulista Leonardo de Barros, doutor em Literatura Portuguesa, também foi vítima de preconceito durante a sua temporada de estudos em Portugal Arquivo Pessoal

"Ambiente de microviolências"

“Adoro a paisagem do país, admiro muita coisa da cultura portuguesa - sobretudo a literatura, a poesia -, mas é um pouco cansativo você respirar esse ambiente de microviolências diariamente, você ser submetido com muita frequência a broncas e chamadas de atenção que não se aplicam tanto a qualquer pessoa”, lamenta Barros.

O carioca Leonardo Alves, estudante de pós-graduação em Direitos Humanos na Universidade de Lisboa, sente na pele a realidade dos estudantes brasileiros nas universidades portuguesas. Durante o mestrado, Alves relata ter sido vítima de preconceito diversas vezes e, ainda mais grave, por parte de professores da instituição.

“Eu queria interagir durante as aulas e, ao tentar responder às perguntas feitas pelos professores, eles me impediam, argumentando que seria melhor que um (aluno) português respondesse”, conta.

O estudante relata que situações como essas são recorrentes no ambiente acadêmico, seja por parte de professores, seja por parte de alunos, que se organizam em posturas de exclusão e discriminação aos colegas vindos do Brasil. Atmosfera de hostilidade que, em sua opinião, se agrava com a escalada da migração de brasileiros para Portugal.  “Muitas vezes as ofensas vêm em forma de piadas, para manter o preconceito mais velado”, revela o estudante.

O clima de rejeição aos brasileiros, de acordo com Alves, se estende ao mercado de trabalho, em que candidatos a oportunidades de emprego são excluídos em função da nacionalidade estrangeira. “Eu participava de uma entrevista, que foi interrompida assim que confirmei que sou brasileiro. Cortaram imediatamente a conversa e nunca mais entraram em contato”, lembra Alves.

 

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