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Jovem de favela do Rio se espanta com racismo na África do Sul

Jovem de favela do Rio se espanta com racismo na África do Sul Jéssica se surpreendeu com as diferenças no sistema de transporte de Durban, na África do Sul. Arquivo pessoal

A carioca Jéssica Santos Victorino, de 28 anos, saiu do morro da Cachoeira Grande para cursar um mestrado em filogenia molecular e biogeografia marinha na Universidade de KwaZulu-Natal, em Durban, na África do Sul. A jovem conversou com a RFI e falou dos desafios de se estudar no exterior e das diferenças culturais encontradas fora do Brasil.

Kinha Costa, correspondente da RFI em Joanesburgo

“Eu sempre quis estudar em outro país, aí meu namorado, que já estava estudando na África do Sul, me deu a ideia de tentar o mestrado e acabou dando certo”, conta Jéssica. O mestrado dura dois anos. O primeiro ano é grátis e o segundo custa em torno de R$ 5 mil, os dois semestres.

Jéssica optou por estender, por mais um semestre, o seu tempo na universidade, para poder escrever uma dissertação de boa qualidade, publicar artigos para enriquecer o seu currículo e galgar melhores posições no futuro, como profissional. "Eu pesquiso a relação entre as espécies de pepinos do mar e uso DNA para fazer isso. Eu também pesquiso o padrão de distribuição dessas espécies na costa sul-africana. O exemplo prático disso é a identificação de áreas que precisam ser preservadas. Por ser uma fonte de alimento muito nutritiva os pepinos do mar têm sido muito explorados em países asiáticos e já existem espécies com risco de extinção", explica a mestranda.

Para Jéssica, a experiência cientifica e pessoal na África do Sul é enriquecedora: "Estou amando entender a genética por trás das coisas. Existem muitas utilidades nesse tipo de pesquisa. Sem contar as viagens de campo que eu tive que fazer para coletar amostras. E aí, tive oportunidade de conhecer as praias mais lindas do país, e um pouco dos outros estados, que são muito diferentes do estado de Kwazulu-Natal, que é o estado onde eu moro. Começando pelo idioma. Em cada estado que eu passei, eu escutei uma língua diferente", ressalta a pesquisadora.

Estudos no Brasil

O futuro de pesquisadora de Jéssica começou a ser delineado em 2010, quando ela conseguiu entrar em uma das instituições mais conceituadas do Brasil, a Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - para cursar Biologia. Moradora da Comunidade Cachoeira Grande, na Zona Norte do Rio de Janeiro, ela passou incontáveis horas em ônibus e vans para chegar à UFRJ, na Zona Sul do Rio, durante seis anos.

A entrada na universidade produziu questionamentos sobre o processo histórico de discriminação e segregação dos negros no Brasil. Em pouco tempo, a jovem percebeu o quanto esse racismo estava fortemente presente nas estruturas da universidade.

A diferença entre sua comunidade e a universidade foi o seu primeiro choque: a suntuosidade do prédio, as salas, a biblioteca e os laboratórios pareciam saídos de uma caixinha mágica. Muito diferentes da subida para o morro, com esgotos a céu aberto, ruas sem pavimentação, casas de pau a pique e, até, de alvenaria encravadas nas encostas, sem reboco, sem pintura, incompletas. Expondo as feridas de uma sociedade de vala social profunda.

Os primeiros anos na universidade foram difíceis, mas, no quarto ano começaram os estágios e ela também conseguiu uma bolsa de Pesquisa Científica, com uma chocante constatação: “Eu ainda era uma estudante e ganhava mais do que a minha mãe! ”.

Jéssica é a filha do meio de uma família de seis. O pai terminou o Ensino Secundário há poucos anos, atualmente, vive de trabalhos temporários. A mãe trabalha como copeira no hospital militar do bairro.

Quando entrou na universidade, da jovem estava de olho no Projeto Ciência Sem Fronteiras. Queria estudar fora do Brasil, mas quando se graduou, em 2016, o projeto tinha acabado. No entanto, o sonho só tinha aumentado.

Construindo o Mestrado

De posse do Diploma de Bióloga, foi visitar o namorado - um francês, que fez mestrado e doutorado no Brasil e que viveu na comunidade Vidigal e no Complexo da Penha - que fazia pós-doutorado na Universidade de Kwazulu-Natal, em Durban, na África do Sul. Jéssica deu entrada ao processo de solicitação de mestrado na mesma universidade. O resultado demorou quase um ano, mas, ela foi aceita. Em 2017, foi estudar em Durban.

Conseguiu um empréstimo com o namorado para pagar as despesas da solicitação e comprar a passagem. Ao chegar à África do Sul, ela imediatamente solicitou ao governo sul-africano uma bolsa de mestrado integral. Dos 4% do orçamento destinado a estudantes de outros continentes, ela foi premiada e recebeu quase R$ 35 mil para cursar o seu segundo ano.

Choques culturais

Jéssica adora praia, mas teve que se adaptar às diferenças culturais entre Brasil e África do Sul: “As meninas aqui vão à praia como se fossem para a academia. Cobrem os bumbuns mas os seios nem tanto. Já vi muitas sem top, de boa, nos chuveiros da orla. Tô fora! ”. O machismo também a assusta muito, a abordagem nas ruas é muito agressiva. “Tem sido sufocante. Sempre que estou sozinha, sou assediada e parece que ninguém vê problema nisso. Na rua, um cara colocou a mão cheia no meu peito. Eu queria acabar com ele! ” Apesar de ser faixa marrom em Jiu Jitsu, ela seguiu o seu caminho, pois estava sozinha e o homem estava acompanhado de várias pessoas.

O racismo sempre esteve presente na vida de Jéssica, mas na África do Sul ela se sente mais oprimida, apesar de ser uma garota negra e morar em um bairro de negros. “Adoro morar no centro da cidade porque lembra a animação do morro, onde eu morava, mas tem hora que quero sair correndo daqui”. Todas as lojas dessa parte da cidade têm autoridade para revistar os fregueses, o que não acontece em bairros dos brancos. Outro motivo de insatisfação são as regras do prédio onde mora: as visitas têm hora de chegar e de irem embora. Para receber visita é necessário pedir autorização ao síndico. Para a visita dormir tem que pagar um adicional de R$ 25 por pessoas, por noite. “Acho que são resquícios do apartheid. O sistema morre de medo de ter muitas pessoas pretas juntas”.

Jéssica explica que por morar num bairro onde há pouquíssimos brancos, ela não sofre o racismo tradicional. "Mas vejo o racismo estrutural, uma diferença de tratamento que pessoas dão e recebem de acordo com a cor da pele. Mas é claro que o racismo e o machismo não são exclusividades da África do Sul", acrescenta ela.

Usar o transporte público também tem suas especificidades: as vans não indicam claramente seus destinos e param em qualquer lugar. Basta o passageiro fazer um sinal, dizendo para onde deseja ir. “Não tem cobrador. Quem senta ao lado do motorista, cobra, recebe e passa o troco. O passageiro que está lá atrás paga e o dinheiro vai passando de mão em mão até chegar ao cobrador improvisado. O troco sempre chega a última pessoa e todo mundo paga. Depois de dois anos, sento na frente e passo o troco numa boa, mas acho que não funcionaria no Brasil”.

Igual mas diferente

Jessica foi a poucas favelas, apesar de saber que existem muitas na cidade, mas o que viu não é muito diferente da sua Cachoeira Grande.

Não falava inglês. Aprendeu lendo, ouvindo, falando e cometendo erros. Seu orientador, que mais parece um pai, sofre com seu nível, mas hoje ela constata que seus erros gramaticais são poucos, falta-lhe vocabulário, mas isso o orientador corrige.

Apesar de o seu namorado estar terminando o pós-doutorado e ter boas chances de trabalhar no país, Jessica voltará para o Brasil. Se vai ou não morar na favela, não importa, porque sabe que a favela precisa dela. “Quero ajudar outros jovens a construírem futuros. O Brasil vive um caos político-econômico-sócio-educacional. Não acho que seja o momento de abandonar o país, muito pelo contrário: é hora de juntar forças”, finaliza Jéssica.


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