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“Somos massacrados pela música comercial da pior qualidade”, diz trombonista Raul de Souza

“Somos massacrados pela música comercial da pior qualidade”, diz trombonista Raul de Souza
 
O trombonista Raul de Souza nos estúdios da RFI em Paris RFI

Considerado um dos maiores instrumentistas brasileiros de todos os tempos, o trombonista carioca Raul de Souza está de novo na estrada para divulgar seu mais recente álbum, “Blue Voyage” (Selo Sesc), com uma agenda de shows pela Europa.

No álbum, o 20° da carreira, lançado em 2018 no Brasil, Raul de Souza traz uma seleção de oito faixas compostas e arranjadas por ele a partir de experiências em lugares que o inspiraram.  

O músico gosta de dar nome de cidades e até bairros às suas canções: “Vila Mariana”, “Night in Bangalore”, “Bolero em Chamonix”, “Primavera em Paris”, estão entre as oito faixas, incluindo a que dá nome ao disco, “Blue Voyage”, em referência à sua cor preferida.  

Para Raul, azul é a cor que traduz a sonoridade de seu instrumento, mas também uma homenagem ao céu, já que diz passar boa parte do tempo entre as nuvens, devido às constantes viagens.

Dividindo seu tempo principalmente entre Brasil e França, em 2019 Raul de Souza completa 85 anos de idade e 65 de carreira, exibindo com esse novo trabalho a mesma vitalidade e virtuosidade que marcam sua extensa carreira.

Na entrevista à RFI, Raul lembrou que entrou na música aos 16 anos, contrariando a vontade do pai que preferia vê-lo na formação para pastor evangélico.

Ele começou com a tuba, mas se interessou rapidamente pelo trombone. Na década de 50, no Rio de Janeiro, integrou uma pequena banda de choro para animar festas de aniversário e casamento.

"Medo" de Pixinguinha

Nas suas lembranças, permanece vivo na memória o encontro com Pixinguinha, que o viu tocar e o incentivou. “Eu era garoto, olhava Pixinguinha com medo, mas ele me dizia para continuar tocando porque estava gostando. Naquela época, os músicos não davam bola para quem estava começando, tinha que ser muito bom, mostrar seu valor”, recorda.

Pixinguinha passou o endereço de duas gravadoras no centro do Rio de Janeiro e pediu para procurá-lo, mas ao chegar no local, Raul constatou que o mestre do choro não frequentava os estúdios há pelo menos 20 anos. “Fiquei chateado, tinha sido a primeira vez que botava terno e ia para a cidade sozinho, sem meu pai”, lembra Raul.

Desolado, foi a um bar pedir um refrigerante e encontrou Nelson Cavaquinho, que o aconselhou a se inscrever em um programa de calouros na Rádio Nacional. A atração era apresentada por Ary Barroso, que o convenceu a trocar seu verdadeiro nome, João José Pereira de Souza, por Raul. 

Em 1955, gravou o primeiro álbum instrumental do Brasil ao lado de Sivuca, Altamiro Carrilho e Baden Powell. O grupo foi fundado, lembra, “para poder dar livre expressão às suas improvisações, o que nem sempre era aceito na época”. Com a “Turma de Gafieira”, gravou dois discos. Nove anos depois, conta, contribuiu com Sérgio Mendes para a criação da Bossa Rio, com quem fez turnê até pela Europa.

Carreira internacional decolou nos EUA

A partir da década de 1970, Raul alçou novos voos e consolidou sua carreira internacional ao se instalar nos Estados Unidos, onde conheceu um dos maiores trombonistas da história, Jay Jay Johnson, que aceitou criar os arranjos de “Colors”, seu primeiro disco gravado no país. “Foi minha maior glória. O disco abriu as portas para mim nos Estados Unidos”, lembra. No país, tocou ainda com grandes nomes do jazz, como Sonny Rollins, George Duke, Freddie Hubbard e Cannonball Adderley.

Depois de uma longa temporada americana, voltou ao Brasil onde aumentou sua lista de parceiros e dividiu palcos e gravações com João Donatto, Zimbo Trio, Tom Jobim, entre outros.

Em “Blue Voyage”, Raul de Souza apresentaça o que considera ser um resumo de “música moderna brasileira com uma roupagem nova de harmonias e melodias”.

Apesar de já ter sido considerado um dos maiores trombonistas do mundo pelas revistas especializadas Rolling Stones e Billboard, Raul de Souza confessa que o momento para os instrumentistas no Brasil está “muito difícil”.

“Para entender nossa música é preciso ter uma cultura musical, mas estamos sendo massacrados pela música comercial da pior qualidade”, afirma. “Está complicadíssimo. Minha música só toca no rádio quando vou dar entrevistas”, destaca.

Futuros projetos

A constatação não impede o artista, que tem uma das carreiras mais longevas da música brasileira, de continuar otimista com seus projetos. Raul de Souza diz ter álbuns prontos para serem lançados, um de baladas e outro em homenagem a Tom Jobim.

“São dois Cd’s que estão no ar, já gravados, só à espera de um produtor para a distribuição”. Enquanto espera, continua produzindo e criando. Entre seus futuros projetos estão a formação de um duo e outro com piano e clarinete. “Está escrito. Só preciso agora encontrar um tempo para gravar”, diz o trombonista.

 


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