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Brasil

Para diretor do Mediapart, caso da jornalista Constança Rezende foi instrumentalizado pela extrema-direita no Brasil

media O fundador e diretor do Mediapart, Edwy Plenel. REUTERS/Benoit Tessier

O caso inflamou as redes sociais no Brasil e teve forte repercussão na mídia francesa. Uma coluna assinada pelo cineasta belga-marroquino Jawad Rhalib no site de notícias francês Mediapart acusou a repórter brasileira Constança Rezende de querer arruinar e provocar a destituição de Jair Bolsonaro. Depois do assunto ir parar no Twitter do presidente brasileiro, o fundador e diretor do Mediapart, Edwy Plenel, saiu em defesa da jornalista, em entrevista exclusiva à RFI.

“É uma mentira”, afirma Plenel sobre o suposto complô contra Bolsonaro que o cineasta belga-marroquino atribui à Constança Rezende, repórter do jornal O Estado de S. Paulo. “Esse post veiculou uma notícia falsa e ele foi instrumentalizado contra o livre trabalho dos jornalistas, contra o trabalho necessário de investigação dos jornalistas, pela direita e a extrema-direita atualmente no poder no Brasil”, reitera o fundador e diretor do Mediapart.

Foi na seção de blogs do Mediapart que Jawad Rhalib, que afirma que é jornalista, publicou em 6 de março a coluna “Aonde vai a imprensa?”. No material, ele declara que, intrigado pela forma como a mídia do Brasil denuncia escândalos e irregularidades relacionados ao governo Bolsonaro, resolveu realizar uma investigação sobre as verdadeiras motivações dos jornalistas brasileiros.

Assim, encarregou “uma de suas fontes” de trabalhar sobre o assunto. No texto, Rhalib explica que o estudante a quem conferiu a missão – cujo nome jamais é revelado – já pesquisava sobre o tema para seu trabalho final em "uma famosa universidade britânica".

Para defender a tese de que a mídia brasileira “não se interessa aos fatos reais, mas utiliza somente histórias negativas, frequentemente inventadas, sobre a família do presidente Bolsonaro”, Rhalib divulga no mesmo post - em formato de texto e áudio - uma entrevista que o estudante anônimo realizou com Constança Rezende.

Na conversa com o universitário, a jornalista do Estado de S. Paulo explica, em um inglês truncado e hesitante, que está trabalhando em uma reportagem que pode comprometer Flávio Bolsonaro. Constança Rezende jamais indica – como é acusada pelo cineasta – que tem a intenção de arruinar o presidente brasileiro ou que quer provocar seu impeachment.

Reprodução do post no Brasil

No domingo (10), o site Terça Livre, simpatizante de Bolsonaro, publicou que Rhalib “fez uma grave denúncia sobre o caso envolvendo o Senador Flávio Bolsonaro (PSL) e seu assessor Fabrício Queiroz, em seu blog Mediapart“. O título da matéria chega a indicar que Constança Rezende teria a intenção de “arruinar Flávio Bolsonaro e o governo”.

Na segunda-feira (11), foi a vez de Jair Bolsonaro atacar a repórter do Estadão. Em sua conta no Twitter, além de repetir as informações do Terça Livre, o presidente divulgou trechos da entrevista de Constanza Rezende, editados e distorcidos com efeitos sonoros. “Querem derrubar o Governo, com chantagens, desinformações e vazamentos“, tuitou Bolsonaro.

Verdadeiras motivações de Jawad Rhalib

O fundador e diretor do Mediapart, Edwy Plenel, afirma que só ficou a par da polêmica em torno do post de Jawad Rhalib com a forte repercussão do tuíte de Jair Bolsonaro sobre a repórter brasileira. À RFI, o célebre jornalista francês disse que conhece o posicionamento neoconservador do cineasta sobre questões do Oriente Médio, mas ignora quais seriam suas verdadeiras motivações com texto.

“Não sei porque esse cineasta, que nunca trabalhou sobre o Brasil, e que trabalhou apenas sobre o mundo árabe muçulmano e a região do Magreb, de repente postou essa manipulação em seu blog no Mediapart”, diz.

Edwy Plenel também explica que é impossível ter controle de todo o conteúdo publicado nos espaços de opinião do site, já que os 150 mil assinantes podem ter um blog. Segundo ele, há mais de dois mil blogs ativos no Mediapart. A equipe só interfere nas publicações quando há uma denúncia de desrespeito das regras de participação, como a difusão de notícias falsas ou informações consideradas discriminatórias, racistas, sexistas ou que incitem o ódio. Por isso, a equipe do Mediapart decidiu apagar o post do documentarista.

“Nossa moderação é à posteriori porque respeitamos profundamente a liberdade de expressão, até por parte de pessoas que não pensam como nós. Não somos censores. Essa é uma plataforma de blogs para debate público em torno do nosso jornal. Assumimos o que publicamos como jornalistas, mas não somos responsáveis dos conteúdos na parte de blogs do Mediapart”, salienta.

Post de Rhalib “não é jornalístico”

Para Plenel, não há dúvidas que o texto assinado por Jawad Rhalib não é jornalístico, bem como o trabalho de investigação que diz ter realizado para escrever seu post. “Eu não acho que esse senhor seja um jornalista. Não é porque ele se declara jornalista que ele é jornalista. Ele é conhecido apenas como um cineasta, documentarista, que tem uma produtora na Bélgica”, diz.

Em um novo post publicado na terça-feira, intitulado de “Sejamos Claros”, Jawad Rhalib se justificou sobre a polêmica envolvendo Constança Rezende. No texto, o cineasta explica que não conhece a repórter pessoalmente, "mas sua fúria contra o presidente brasileiro” chamou sua atenção.

O belga-marroquino também reclama de ter sido injustamente acusado pela imprensa brasileira de ter publicado mentiras, mas não faz menção às traduções imprecisas da entrevista com Constança e às informações incorretas que divulgou sobre a jornalista. O cineasta escreveu, por exemplo, que a repórter “foi a primeira a ter publicado artigos sobre Flávio Bolsonaro”, o que foi desmentido pelo jornal O Estado de S. Paulo.

No mesmo texto, Jawad Rhalib ratifica todo o conteúdo publicado, sem nenhuma ressalva. "Em minha opinião, eu só informei o público. Sou tão livre quanto Constança Rezende publicando minha investigação baseada em fatos reais e verificados, assim como as provas materiais, como as gravações de som", escreve.

Segundo Edwy Plenel, o documentarista não está em posição de confirmar nenhuma informação “porque o que ele publica é uma opinião”. “Uma notícia tem enquadramento, é verificada e com fontes. Então, o que ele afirma é falso. As gravações que ele obteve não estão em condições de se enquadrar na prática correta do jornalismo. Ele tira conclusões erradas. Ele se apoia em traduções incorretas. Claro, ele tem direito de ter opiniões, até mesmo irracionais: isso é problema dele. Mas, mais uma vez, o que ele fez não é jornalismo”, sublinha.

Além de o primeiro artigo do documentarista ter sido tirado do ar (apenas uma versão em formato .pdf pode ser acessada), Jawad Rhalib também foi alertado pelo Mediapart. Segundo Plenel, caso insistir na veiculação de mais informações falsas, terá seu blog permanentemente suspenso da plataforma.

Apoio de Mediapart a jornalistas brasileiros

Na segunda-feira, o Mediapart publicou um tweet em português, no qual presta solidariedade à Constança Rezende e indica que as informações publicadas no post de 6 de março de Jawad Rhalib “são falsas”. Na terça-feira, um texto em nome de toda a redação do site expressou apoio aos jornalistas brasileiros “perante as mentiras de Bolsonaro”. O artigo ganhou uma versão em português nesta quarta-feira (13).

No texto, o Mediapart explica que o post do documentarista belga-marroquino “foi usado pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, para tentar descreditar as investigações sobre sua equipe de governo”. “Somos ainda mais solidários com as investigações dos jornalistas brasileiros, considerando que as afirmações deste artigo são falsas”.

Em entrevista à RFI, Edwy Plenel também expressou solidariedade à Constança Rezende, afirmando que sua entrevista foi manipulada e mal traduzida com o objetivo de acusá-la de um complô. “Ela fez apenas seu trabalho de jornalista. É legítimo investigar sobre casos de corrupção, de falta de moral pública e de princípios democráticos”, avalia.

Para o diretor e fundador do Mediapart, o caso envolvendo o cineasta Jawad Rhalib e a repórter do Estadão demonstra que “o principal veiculador de fake news não é o povo: são os poderosos”. Edwy Plenel cita como exemplo as notícias falsas divulgadas pelo presidente americano, Donald Trump, pelo primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. “Tenho a impressão que no Brasil, atualmente, o primeiro difusor de fake news é o senhor Bolsonaro”, conclui.

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