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Descartar mandante do crime seria insulto, diz viúva de Marielle Franco

Descartar mandante do crime seria insulto, diz viúva de Marielle Franco
 
A arquiteta Mônica Benício, viúva de Marielle Franco, cujo assassinato completa um ano, falou com exclusividade à RFI nesta terça-feira, 12 de março de 2019. Divulgação

Mônica Benício desfaz uma mala enquanto faz outra, emendando viagens na sua luta por justiça para Marielle Franco. A viúva da ex-vereadora carioca, cujo assassinato completa um ano nesta quinta-feira (14), viajou nesta terça (12) para os Estados Unidos. O motivo é nobre: ela passará o aniversário da morte de sua companheira ao lado da icônica ativista negra Angela Davis, numa mesa de debates na prestigiosa Universidade de Princetown, em Nova Jérsei. “Seria muito difícil emocionalmente estar nesse momento no Rio de Janeiro ou nos atos. Achei que seria uma boa homenagem da minha parte estar ao lado da mulher que sempre inspirou a luta de Marielle”, afirmou Mônica em entrevista exclusiva à RFI. Ela falou ainda sobre a prisão de dois suspeitos do crime contra Marielle nessa terça-feira, e fez um balanço desse ano sem sua mulher, que floresce, no entanto, como ícone de resistência no imaginário de jovens ativistas.

RFI:Hoje foram capturados dois suspeitos do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. Um deles, apontado como o autor dos disparos, é Ronnie Lessa, policial reformado com passagens pelo Bope e pela Polícia Civil do Rio. O outro, Élcio Vieira de Queiroz, é um ex-policial militar. A promotoria chegou a provar e o Ministério Público divulgou que Lessa era “obcecado” por militantes de esquerda. Você se surpreendeu com o perfil dos suspeitos?

Mônica Benício: Desde o início o crime se configurava como um crime político, com participação de agentes do Estado, com envolvimento da milícia, e nada disso me surpreendia, enquanto revelação. Agora, sinceramente: o que mais me surpreende é alguém cogitar a possibilidade do assassinato de Marielle ser por motivação de ódio. Essa ideia é estapafúrdia e não faz o menor sentido. Isso, inclusive, é mais um atentado à memória de Marielle, um insulto ao povo brasileiro. Todas as linhas devem ser investigadas, mas que não descartem a possibilidade de um mandante, porque obviamente foi um crime político e a gente precisa saber quem foi que mandou matar a Marielle e quais os interesses envolvidos.

RFI: A grande expectativa é descobrir não apenas quem matou, mas quem mandou matar. A imprensa brasileira divulgou nesta terça-feira que Ronnie Lessa mora no mesmo condomínio que Jair Bolsonaro e chegou a ser homenageado na Alerj, a Assembleia Legislativa do Rio. Você acha que essa ligação pode ser feita?

MB: Digo desde o início que o mais importante desta investigação é o comprometimento com a verdade. Eu sempre me preocupei, desde o início que, devido à repercussão, e conhecendo a política do Rio de Janeiro e do Brasil, que eles pudessem entregar qualquer resultado, para silenciar a repercussão, inclusive mundial sobre a execução da Marielle. Então acho importante a gente não especular ou ficar levantando hipóteses em cima de possíveis conexões. Mas todas as linhas devem ser investigadas. Se foi uma coincidência ou não esse fato [do presidente Jair Bolsonaro ter uma casa no mesmo condomínio que o ex-policial, acusado de ter feito os disparos], que seja investigado também. O meu compromisso é com a verdade e até agora nada os vincula dessa forma. Exceto que, a família, o clã que está no poder já fez sim homenagens a milicianos, temos dados sobre isso. É preciso ter cautela para que a gente não vire um grande espetáculo midiático, isso não é o meu objetivo. O objetivo é saber quem foi que matou a minha companheira, quem é que puxou o gatilho, quem dirigia o carro. Fizemos essa etapa de hoje com essa demora de um ano, num crime político de repercussão mundial. Foi um passo necessário, importante, que bom que aconteceu, espero que não demore mais um ano para chegarmos ao nome do mandante, mas precisamos ter comprometimento com a verdade desses fatos.

RFI: Você tem esperança que os culpados sejam punidos ao final do processo?

MB: Meu projeto é de justiça, não é de vingança. Espero que as autoridades brasileiras consigam me acalentar nesse sentido. Porque se eu ainda me levanto por justiça, para lutar por justiça pela Marielle e pelo Anderson, é sem dúvida nenhuma porque eu ainda acredito nas nossas autoridades competentes e na Justiça brasileira. Espero que eles tenham compromisso e responsabilidade com a nossa democracia. A luta é incessante e não vejo outro caminho para o Estado brasileiro senão responder quem é que mandou matar Marielle, uma vez que a gente passa vergonha internacional aos olhos do mundo e passa atestado de incompetência por não conseguir solucionar esse crime.

RFI: Alguns amigos seus e de Marielle, como o ex-deputado federal Jean Wyllys e a filósofa e escritora Marcia Tiburi, decidiram recentemente deixar o Brasil devido às ameaças de morte e assédio que, segundo eles, inviabilizava a vida no país. Você também sofre ameaças?

MB: É lamentável que a gente tenha chegado a esse momento político, onde as pessoas tenham que se exilar, ficar longe de sua família e de seus amigos pelo simples fato de quererem continuar vivos. Eu sofro ameaças, sobretudo através de xingamentos nas ruas e nas redes sociais. Tenho uma medida cautelar fornecida pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos, a OEA, estou dentro do programa de proteção e não tenho a menor pretensão de sair do meu país. Eu entendo a postura de cada um deles, acho legítimo, acho o medo legítimo, mas a noite do 14 de março [de 2018, quando Marielle Franco foi executada] me tirou todo e qualquer motivo para ter medo.

RFI: Você virou uma espécie de símbolo do ativismo brasileira, com muitas bandeiras. O movimento feminista aprecia sua presença, assim como o movimento de direitos humanos, e a comunidade LGBT. Você incorporou essas lutas? Pretende de alguma forma continuar sendo uma liderança do ativismo brasileiro? Há ainda espaço no Brasil para essa militância ou a repressão tomou conta?

MB: Acho que existe uma repressão muito grande, mas também é preciso olhar para a potência da nossa resistência. A execução da Marielle tinha todos os motivos para ter nos deixado acuado e nos ter feito dar um passo atrás. E não foi o que acontecue, muito pelo contrário. Nós avançamos. O movimento feminista avança. O movimento LGBT avança. Todas as pautas que Marielle encarnava enquanto defensora dos direitos humanos deram um passo à frente. A gente teve mulheres negras sendo democraticamente eleitas e ocupando espaços de poder, mulheres que se tornam essa campanha que chamam de Marielle-semente, Marielle-presente. Temos que considerar os avanços positivos. É óbvio que a gente tem uma onda de conservadorismo muito forte, mas também temos uma resistência muito forte. O movimento feminista hoje não tem a menor intenção de facilitar o retrocesso para esse governo.


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