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Brasil

Patriotismo em sala de aula: por que Brasil e França querem impor símbolos nacionais nas escolas?

media Governo do Brasil quer utilizar símbolos nacionais para incentivar patriotismo nas escolas. Wikimedia Commons

Bandeiras hasteadas em todas as salas de aula ou o hino nacional sendo entoado pelos alunos, França e Brasil parecem preocupados atualmente em incentivar o patriotismo entre seus estudantes. Coincidência ou não, em ambos os países, boa parte da opinião pública contesta essas iniciativas, consideradas ufanistas e exageradas. Afinal, o que há de controverso na intenção dos governos de incentivar o amor à pátria?

No início desta semana, o Ministério da Educação do Brasil (MEC) enviou um e-mail para as escolas públicas e privadas do país pedindo que os alunos fossem filmados cantando o hino nacional - uma gravação que deveria ser posteriormente enviada ao governo. Além disso, uma carta do ministro brasileiro, Ricardo Vélez Rodríguez, com o slogan do governo Bolsonaro, “Brasil acima de tudo. Deus acima de todos”, também deveria ser lida nos estabelecimentos de ensino brasileiros.

Devido à imensa repercussão da medida, na terça-feira (26), o ministro voltou atrás na decisão. Segundo ele, antes de executar a ordem, as escolas devem obter a autorização dos pais e responsáveis para filmar os alunos. O MEC também afirmou que a gravação seria eventualmente utilizada em vídeos institucionais do governo. Além disso, o slogan de Bolsonaro foi retirado da mensagem de Vélez Rodríguez.

Opositores denunciam ilegalidade da iniciativa

A medida, apesar de retificada, continua causando polêmica no Brasil. Nas redes sociais, professores se manifestam contra a iniciativa, alegando que o ensino no país tem outras prioridades. Já sindicatos e o movimento estudantil ressaltam a ilegalidade do projeto do ministro da Educação.

“A carta é completamente absurda porque fere o ECA, o Estatuto da Criança do Adolescente, quando ordena que gravem os estudantes. Além disso, fere a própria laicidade do Estado e o funcionamento da rede de educação. Porque quem tem jurisdição e comanda as escolas estaduais e municipais não é o Ministério da Educação, mas o Consed, o Conselho Nacional de Secretários de Educação, que tem a tarefa de coordenar o trabalho nas escolas”, diz Pedro Gorki, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes).

Para Celso Napolitano, presidente da Federação dos Professores do Estado de São Paulo (Fepesp), a medida de Ricardo Vélez Rodríguez é “uma idiotice”. “Esse grupo que foi eleito para governar o país está confundindo o partido e suas ideologias com o Estado. Eles estão contrapondo as posições de apoio ao governo com a concepção de pátria”, avalia.

Napolitano acredita que a medida tem o objetivo de agradar o eleitorado do presidente Jair Bolsonaro, “que está se comportando como se estivesse no palanque, ao invés de governar para a nação inteira e promover o espírito pacifista”. Segundo ele, a ordem do MEC teve uma conotação autoritária e que remete ao período ditatorial no Brasil, desagradando parte da opinião pública.

“Ao que me parece, este governo não está deixando morrer esse caráter beligerante que houve durante a campanha eleitoral do ano passado entre grupos mais à esquerda e mais à direita. Então, toma atitudes frequentes para que esse espírito revanchista não esmoreça”, diz.

Bandeiras em todas as salas de aula

A França é palco de uma polêmica similar, igualmente classificada de ultranacionalista. Na semana passada, a Assembleia do país aprovou em primeira leitura uma emenda, proposta pelo deputado de direita Eric Ciotti, ao projeto de lei “escola da confiança”. O texto determina que a bandeira francesa deve estar exposta em todas as classes do país, bem como a letra da “Marselhesa”, como é chamado o hino nacional.

Frédérique Rolet, secretária-geral do Sindicato Nacional das Escolas de Segundo Grau (SNES-FSU) lembra que todas as escolas francesas já exibem as bandeiras da França e da União Europeia hasteadas em suas entradas e que o estudo do hino nacional também é feito em sala de aula. “De toda a forma, não é exibindo símbolos da pátria que vamos ensinar os alunos a adotar valores republicanos. É mostrando para eles que trabalhamos dentro da igualdade, da liberdade e da fraternidade”, afirma.

Segundo Rolet, por trás da emenda aprovada, as autoridades têm a intenção de reforçar o nacionalismo, no momento em que se multiplicam as críticas ao governo francês. “É uma forma um tanto artificial para tentar passar a ideia de que a França ainda é uma grande potência e deve exaltar seus valores”, avalia.

“Formar republicanos não se resume em mostrar símbolos”

A medida também não agradou as mães e pais franceses. A presidente da Associação de Pais de Alunos (FCPE), Carla Dugault, classifica a emenda de ineficaz. “O que a escola republicana deve às crianças e às famílias são professores presentes a cada dia em cada sala de aula, de forma que os programas pedagógicos possam ser seguidos, principalmente durante o ensino da educação moral e cívica. Formar republicanos não se resume a mostrar símbolos. Formar republicanos é debater, compreender e transformar jovens em cidadãos”, diz.

De acordo com Dugault, mais do que o patriotismo, “reforçar o ensino da cidadania no sistema escolar seria mais útil”. A ideia é compartilhada pelo presidente da Fepesp, para quem o amor à pátria deve ser tão prioritário quanto outros valores a serem transmitidos dentro do sistema educacional.

“Os professores e os projetos pedagógicos situam, tentam incutir e discutir com os jovens brasileiros os valores de cidadania e civilidade para que eles sejam cidadãos do mundo. É óbvio que eles têm que ter respeito e o devido amor a seu país. Mas quando você fala em termos de patriotismo e de um amor exacerbado à nação, como quer esse governo, vemos muito mais a valorização exagerada de uma ideologia do que a do próprio Brasil”, reitera Celso Napolitano.

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