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Brasil

Posse de Bolsonaro é marcada por discurso ultraconservador e mal-estar com jornalistas

media O novo presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, Brasília, 1° de janeiro de 2019. REUTERS/Sergio Moraes

Recebido pelas centenas de apoiadores aos gritos de “mito” e “o capitão chegou” em frente ao Palácio do Planalto, em Brasília, o novo presidente Jair Bolsonaro pronunciou um discurso com referências a Deus, à família e ao “direito à propriedade”. A posse também foi marcada pelo mal-estar com jornalistas, muitos deles estrangeiros, que chegaram a deixar a sala de imprensa pelas “más condições” de trabalho reservadas à imprensa. Mais de 3.500 homens participaram do esquema de segurança da posse do 38° presidente da República brasileira.

Quebrando o protocolo habitual, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, realizou um discurso no Parlatório antes de seu marido, o presidente recém-empossado Jair Bolsonaro, na linguagem de libras. A nova primeira-dama do Brasil é defensora da causa dos surdos e mudos, sendo ela mesma intérprete da língua de sinais. Durante seu pronunciamento, ela agradeceu a oportunidade de “trabalhar pelos mais necessitados” e realizou um agradecimento especial a seu “enteado Carlos Bolsonaro”, pelos “23 dias passados no hospital”, após o episódio da facada no então candidato, em Juiz de Fora.

Pela primeira vez em uma posse presidencial, os jornalistas não puderam transitar livremente pela Esplanada dos Ministérios e não puderam realizar entrevistas junto à população. Com acesso restrito a uma sala, de onde não puderam sair, alguns repórteres decidiram abandonar a posse de Jair Bolsonaro, entre eles três jornalistas do canal de TV francês France24, um profissional da agência de notícias chinesa Xinhua e um jornalista brasileiro.

De acordo com os organizadores da cerimônia, os jornalistas deveriam permanecer dentro de um comitê de imprensa fechado, podendo circular pelo prédio apenas para ir ao banheiro. Os profissionais que decidiram ficar assistiram à posse por meio de quatro telões, instalados dentro da sala. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, a jornalista Mônica Bergamo se referiu à posse como “um dia de cão” e relatou que os fotógrafos foram orientados a não “erguer suas máquinas”. “Qualquer movimento suspeito poderia levar um sniper a ‘abater o alvo’”, conta Bergamo, citando instruções da comunicação de Bolsonaro.

De acordo com Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília, "não foi fácil a cobertura para a imprensa". Mesmo com a cerimônia marcada para às 15h, para acessar os eventos no Congresso, no Palácio do Planalto e mesmo na Praça dos Três Poderes, os repórteres foram convocados a estar às 7h da manhã no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), de onde partiram ônibus oficiais para transportar os jornalistas.

Miura conta que os profissionais passaram por detector de metais no próprio CCBB e depois nos locais de chegada. Alguns tiveram de se desfazer de frutas, porque só era permitido levá-las fatiadas. Em qualquer local não era possível entrar com garrafas de água. "Mas no Congresso, por exemplo, houve problema na disponibilização de água como havia sido prometido. No salão verde o carrinho com água e café chegou perto das 11h, duas horas depois da chegada da imprensa. No local também não havia cadeiras e o jeito se acomodar no chão, numa longa espera, atrás de uma tomada, de um encosto e das fontes, que levaram algumas horas para chegar", afirmou a correspondente..

Ainda nesta terça-feira, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) emitiu uma nota sobre as condições impostas a jornalistas que cobriram a posse presidencial. O texto do documento criticou as condições de trabalho reservadas aos jornalistas: “Confinados desde as 7h, alguns com acesso limitado a água e a banheiros, eles não puderam interagir com autoridades e fontes, algo corriqueiro em todas as cerimônias de início de governo desde a redemocratização do país. A Abraji protesta contra este tratamento desrespeitoso aos profissionais que estão lá para fazer o registro histórico deste momento."

Frases de efeito e alvos bem-definidos

Após receber a faixa de Michel Temer, Jair Bolsonaro pronunciou um discurso ultraconservador, cheio de frases de efeito e alvos bem-definidos. O novo presidente do Brasil citou um “momento que não tem preço”: “Deus preservou a minha vida e vocês acreditaram em mim. Este é o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, do politicamente correto e do gigantismo estatal”, declarou Bolsonaro.

O novo chefe de Estado afirmou que a “voz das ruas e das urnas foi muito clara. Esta foi a campanha mais barata da história. Junto com vocês, vamos acabar com ideologias nefastas que destroem a família, alicerce de nossa sociedade”, disse. Jair Bolsonaro ainda apostou na retórica anticorrupção, que marcou sua campanha presidencial e defendeu os “interesses brasileiros em primeiro lugar”, numa possível versão brasileira do “America First” de Trump. Falou também em meritocracia e combateu o que chama de “ideologização de nossas crianças”.

Bolsonaro falou ainda contra a “ideologia que defende bandidos e criminaliza policiais” e defendeu a “garantia de direito da propriedade e da legítima defesa”. O novo presidente deu também o tom da diplomacia brasileira, falando em “retirar o viés ideológico de nossas relações internacionais”.

Ao final, brandindo uma bandeira brasileira, declarou, em tom dramático, que "esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela".

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