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“Tudo indica que Bolsonaro terá governo de milícias”, afirma professora da USP

“Tudo indica que Bolsonaro terá governo de milícias”, afirma professora da USP
 
Cibele Rizek participou em Paris de conferência sobre violência em São Paulo e PCC RFI

A violência foi um dos temas mais debatidos durante a campanha eleitoral para a presidência do Brasil em 2018. Todos os candidatos propuseram soluções para o problema crescente no país – e venceu aquele que tinha em seu programa a “flexibilização do porte de armas”. A professora de Sociologia Urbana do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP, Cibele Rizek, e docente convidada do Instituto de Pesquisas para o Desenvolvimento de Paris, participa nesta sexta-feira (19) da conferência “Sociabilidades e violências: a paz partilhada no Estado de São Paulo”, na Maison de Sciences de L’homme. Em entrevista à RFI, a especialista disse que a presença do Primeiro Comando da Capital, o PCC, foi responsável pela queda da taxa de homicídios em São Paulo, demonstrando que a situação é mais complexa do que afirmam os governantes.

Para ouvir a entrevista na íntegra, clique na foto acima.

Com relação ao novo governo de Jair Bolsonaro, Cibele Rizek alerta para um possível aumento da violência. “Se a gente pega alguns analistas brasileiros pós-eleição, percebemos que parece estar se desenhando no Brasil um governo de milícias. Eu acredito que haverá um reforço da ação e da violência policial, o que pode fazer com que o ‘pacto’ [com o PCC] se rompa. Isso pode elevar o número de homicídios enormemente”, alerta.

“O que alguns analistas indicam é que esse será um governo onde as pessoas terão permissão para matar. O slogan e o símbolo do Bolsonaro, com uma arma o tempo todo, aponta nessa direção”, afirma Cibele Rizek. “Então você tem duas ramificações da violência. A policial, que provavelmente vai aumentar, contra todos os supostos inimigos, e a privada, que também pode crescer, como o próprio Bolsonaro anuncia, dizendo que as mulheres podem se defender da violência doméstica se estiverem armadas. Ou seja, matando ou ameaçando quem estiver atacando. É isso que sugere a possibilidade de um governo de milícias, com a violência privada explodindo em todo canto.”

A pesquisadora aponta que houve um aumento nas ações da Taurus Armas quando Bolsonaro começou a ganhar popularidade durante a campanha eleitoral. “Existe muito visivelmente um vínculo entre as empresas que produzem armas e a vitória de Bolsonaro”, analisa.

PCC está por trás de diminuição de homicídios

De acordo com Cibele Rizek, houve uma diminuição de cerca de 73% dos assassinatos a partir dos anos 2000 na cidade de São Paulo. Isso ocorreu “a partir, exatamente, de uma hegemonia do PCC”, afirma a estudiosa. “Na verdade, se a gente comparar com o Rio, a diferença é que [na capital paulista] nós temos somente uma facção criminal, e não três, e ela se territorializa de uma maneira muito diferente das facções do Rio.”

Ela lembra que o PCC nasceu nos anos 1990, com o massacre do Carandiru. Mas, saindo das prisões, a facção “se enraizou nos bairros” – e é nesse momento que ocorreu o que Cibele Rizek e outros pesquisadores chamam de “pacificação partilhada”. “O PCC pacifica porque morte e violência não é bom para ninguém, muito menos para os negócios ilegais. Existe inclusive a construção de um código moral da violência, como aponta Gabriel Feltran”, declara, em referência ao autor do livro “Irmãos: Uma história do PCC”. “É uma sociedade secreta, de natureza criminosa, sem dúvida, mas com seu próprio código moral.”

Para Cibele Rizek, o PCC não é resultado de uma falta de ação do Estado, mas funciona como um “reforço” a certos serviços públicos. “Há uma capilaridade do PCC. Por exemplo, eles apoiam o futebol de Várzea. Eles estão muito próximos de todo o transporte da cidade clandestina de São Paulo. Eles fazem mediações muito importantes com relação à vida da prisão. Toda a violência que os familiares dos presos sofrem, eles acompanham e têm advogados”, ressalta a professora da USP.

O PCC atinge atualmente uma parte dos países da América Latina, África, Europa e até Oriente Médio. E, apesar do termo “pacificação partilhada” sugerir um acordo, Cibele aponta que existe ainda uma forte oposição às forças da ordem. E, como o Brasil é o terceiro país no mundo em número de prisioneiros que aguardam julgamento na prisão, isso alimenta ainda mais o estômago da facção criminosa.

Veja o vídeo da entrevista abaixo:


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