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Brasil

Única sobrevivente do atentado à Marielle Franco, Fernanda Chavez fala sobre mudança de vida após o crime

media Fernanda Chavez falou do quanto sua vida mudou após assassinato de Marielle Franco Rafael Belincanta

Fernanda Chavez, ex-assessora de imprensa de Marielle Franco, é a única sobrevivente do atentado que tirou a vida de Marielle Franco e Anderson Silva na noite do dia 14 de março e que até hoje não foi desvendado. Nove meses após o crime, pela primeira vez Fernanda falou abertamente sobre sua vida depois do trauma. Nesta entrevista exclusiva à RFI gravada em Roma, onde participou de atos na última semana ao lado da viúva de Marielle, Mônica Benício, ela conta como foi a acolhida na Espanha, do medo de ser testemunha e vítima, do potencial político que Marielle tinha, da crise no Rio de Janeiro e do novo governo.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

Como foi sua acolhida na Espanha?
Eu fui acolhida na Espanha imediatamente após os assassinatos, num programa da Anistia Internacional de Madri que, em articulação com a Anistia do Brasil, me recebeu por dois meses. Foi fundamental para eu poder voltar à tona, foi uma situação muito traumática, muito violenta, muito difícil. Ter saído do Rio de Janeiro naquele momento foi crucial para a minha recuperação, para minha saúde mental, para a minha família que foi comigo, que me acompanhou. Por outro lado, ter que largar tudo para trás, não participar dos ritos de despedida, do funeral – porque, de alguma forma, isso é muito importante para encerrar um ciclo –, não conseguir se despedir, não vivenciar o luto... É um rompimento com as redes sociais que de alguma forma são um vínculo, um elo que você tem para conseguir se conectar com as pessoas. Eu também não podia me manifestar pelas redes para evitar que minha localização fosse descoberta, a minha família não sabia bem onde eu estava. Mas eu não podia trocar informações por telefone, a minha filha não pode sequer se despedir da escola porque quando tudo aconteceu já era noite, ela já tinha chegado, estava se preparando para o dia seguinte e nunca mais foi à aula naquela escola. Eu era uma das coordenadoras do mandato da Marielle e tinha um senso meio maternal com os meus companheiros, porque havia uma juventude muito presente no mandato, eu tinha uma coisa de acolhê-los enquanto coordenadora. Não pude lidar com as notícias falsas que surgiram em relação a mim, de que eu teria presenciado [o crime] porque vazavam informações do meu depoimento. Então, as pessoas acreditavam que eu teria visto alguma coisa, sempre tinha uma esperança de que eu teria visto alguma coisa, uma pista, um sinal, e isso me colocava num lugar de risco que eu tive que lutar muito para sair. Foi bem complicado e ter sido recebida pela Anistia em Madri foi fundamental para eu superar um pouco esse momento.

A partir desse momento se estabeleceu um vínculo com a Anistia e outras organizações internacionais que hoje têm na imagem de Marielle um foco de luta.

Certamente, eu sempre atuei em espaços de Direitos Humanos, sou jornalista e assessora de imprensa, que é um trabalho técnico, mas eu sempre dediquei meu trabalho em espaços dos Direitos Humanos, sobretudo com parlamentares. Eu conhecia o trabalho da Anistia, já tinha de alguma forma me relacionado com pessoas da Anistia e outras entidades. A União Europeia, por exemplo, me ajudou com um subsídio porque com essa minha saída do Brasil foi difícil me relacionar com o Estado na questão da minha segurança, porque não me ofereceram absolutamente nada. Tive que ir atrás disso e a União Europeia me favoreceu nesse sentido, me ajudou. Quando eu já estava aqui na Itália houve um seminário sobre quem protege os defensores dos Direitos Humanos e meu caso foi discutido. Haviam diversas entidades de Direitos Humanos que vieram a mim e me ajudaram com uma série de questões. O fato da Marielle ter se tornado um símbolo é muito “louco”: você trabalha uma vida inteira com as questões dos Direitos Humanos, sempre dando visibilidade aos casos que estão acontecendo no mundo inteiro, sobretudo no Brasil, que é um país que detém o recorde de assassinatos de defensores Direitos Humanos e, de repente, você se vê naquela situação, colocando a Marielle, que foi uma pessoa que sempre esteve na luta, como um símbolo, como uma pessoa que sofreu o que ela sofreu, que foi vítima. E você também se encontra meio que numa situação de vítima, de testemunha, de sobrevivente, é muito esquisito estar do outro lado. Mas foi fundamental esse acolhimento das inúmeras entidades no mundo inteiro. É estranho, você tem uma figura do teu campo privado, pessoal e, de repente, você chega, como quando eu cheguei em Paris, e se depara com uma imagem enorme da Marielle na praça diante da prefeitura; foi arrebatador. É muito estranho você estar de um lado e depois passar para o outro lado desse “balcão” de relacionamento entre entidades e vítimas.

Você pretende voltar a viver no Rio de Janeiro?

No Rio de Janeiro não. Eu gosto do Rio, a cidade é maravilhosa, é uma cidade linda, mas é uma cidade que não é boa para os seus cidadãos. Eu não posso voltar para o Rio. Eu vivo no Brasil hoje, mas não no Rio. Eu estou submetida a um programa de proteção de defensores e não posso ir ao Rio, sequer pude ir para votar nas últimas eleições, porque não é considerado seguro que eu retorne ao Rio. Até porque são 9 meses e até agora você não tem nenhum resultado das investigações e quando você não sabe de onde veio você não sabe do que você tem que se proteger. Até isso me foi tirado, o direito de viver na minha cidade.

Como você encara essa mudança de paradigma no governo, qual é a nova dimensão da oposição?

Estamos num momento bem complexo. Eu não sei o que nos aguarda, mas é um pouco amedrontador diante da vida que o presidente eleito teve até aqui enquanto parlamentar. São quase 30 anos de parlamento e ele não fez absolutamente nada de relevante. Eu, como assessora de imprensa dentro do parlamento, acompanhei muito o que acontece lá dentro. O presidente eleito nunca participou de uma comissão, nunca participou de uma discussão mais profunda sobre os rumos do Rio de Janeiro. O Rio afundou em corrupção e ele nunca esboçou uma palavra sobre a situação do Rio de Janeiro. Ele agora sai como ‘baluarte da anti-corrupção’ nessas últimas eleições, mas ele atuou uma vida inteira ao lado do Maluf que é o maior corrupto do Brasil, o maior corrupto do mundo, procurado pela Interpol. Ele nunca falou nada sobre o correligionário, trocou de partido para poder se livrar dessa situação, desse constrangimento de ter que falar sobre isso. Então, é alguém que nunca fez absolutamente nada e, não fazendo nada, ele ainda conseguia cometer bizarrices, e se tornou presidente da República. É alguém que quando a Marielle foi assassinada, num crime claramente político, num Estado que estava sob intervenção federal militarizada, onde todo mundo se pronunciou – até o papa falou do assassinato da Marielle – ele foi questionado e disse: não tenho nada a dizer, não vou me pronunciar. Tudo que ele faz, ele desmente, ele se comunica com a população através do Twitter e depois se desmente. Na primeira fala dele em público após a confirmação da eleição no segundo turno, ele faz uma reza, uma oração, cercado de homens corruptos que respondem processos. É um tanto amedrontador o que a gente vai enfrentar. Fora as nomeações que ele tem feito para os ministérios. Ele acabou de nomear uma mulher para a Comissão da Família que fala barbaridades do tipo: “O Brasil vivencia uma ditadura gay”. O Brasil é um dos países que mais mata pessoas LGBT no mundo. Quer dizer, quando você tem uma autoridade ministerial que fala que a gente vive numa ditadura gay, é amedrontador. Não sei o que vamos enfrentar, mas vamos enfrentar pacificamente, e acho que nesse campo do enfrentamento a força vem das mulheres, porque os homens até agora não conseguiram, acho que a gente vive uma virada de chave e eu acho que o avanço virá pelas mãos das mulheres.

Até porque muitas mulheres foram eleitas…

Sim, mas também elegemos muitos cretinos. O deputado estadual mais votado no Rio de Janeiro foi um daqueles que organizou uma manifestação em que pessoas em cima de um carro quebraram placas em homenagem a Marielle com muito ódio. Em compensação, o pessoal elegeu três mulheres que eram do mandato da Marielle. Há toda uma discussão de que o assassinato da Marielle, essa violência toda, iria causar uma espécie de paralisia, um medo, um retrocesso nas lutas que a Marielle liderava. Eu acho que existe medo, mas vamos adiante mesmo com medo, até porque há muito senso de justiça, muita vontade de levar adiante o legado, as lutas. A Marielle se transformou em uma coisa muito maior. Essa frase que é muito dita no Brasil explica muito: ela é semente. Ela se transformou em múltiplas sementes com potencial de semeadura surreal e seremos muitas Marielles, nascerão muitas Marielles. É isso: houve uma virada de chave, de paradigma, a gente vai ter que fazer alguma coisa e é agora.

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