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Brasil

Bolsonaro pratica “política da paranoia” em país com “patologia histórica profunda”, diz psicanalista

media A campanha do presidente eleito, Jair Bolsonaro, utilizou inúmeras notícias falsas, como a do kit gay. Marcelo Camargo/Agência Brasil

Um mês após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à presidência do Brasil, intelectuais e pesquisadores ainda tentam entender o que levou um povo conhecido internacionalmente por sua cordialidade e alegria a eleger um candidato de extrema direita. Para o psicanalista, ensaísta e professor de Filosofia da Psicanálise na Unifesp Tales Ab’Saber, a própria psicanálise, mas também a filosofia e a literatura podem explicar as contradições de um Brasil em crise de identidade.

“Os brasileiros ficaram loucos?”, perguntou uma conhecida jornalista na rádio France Inter ao entrevistar o fotógrafo Sebastião Salgado após a eleição. Salgado respondeu: “Foi o Brasil que ficou louco” e remontou à destituição de Dilma Rousseff em 2016.

Esta também é a opinião de Ab’Saber, autor do livro “Lulismo, Carisma Pop e Cultura Anticrítica”, entre outros, e vencedor de dois Jabutis (em 2005 e 2012). “O Brasil ficou louco, sim. Uma loucura que diz respeito claramente a romper o pacto democrático ocidental, seus princípios de civilidade e sociabilidade, e até mesmo seus fundamentos legais, já que a velha ética, no nosso caso, já foi dispensada há muito tempo”, dispara.

RFI - Quais os efeitos dessa "loucura"?

Tales Ab’Saber - O Brasil se torna reduzido e provinciano novamente, caipira e inimigo dos valores democráticos globais. Parece mesmo que o Brasil está louco, rompendo os tratos societários da vida contemporânea global. Pelo menos é isso que ouvimos todos os dias da imprensa liberal mundial e de cidadãos democráticos esclarecidos de toda parte. Todo mundo nos diz que estamos loucos, é verdade. E não é de hoje. Não por acaso já diziam isso abertamente durante os 18 meses da crise artificial movida para a derrubada da presidente Dilma Rousseff. Um ano e meio de país parado e bloqueado por si mesmo. E depois diante das práticas de exceção jurídicas de muitas ordens utilizadas para criminalizar e prender o ex-presidente Lula, criando as condições estranhas para a eleição de um Bolsonaro, para muitos juristas, de toda parte, um julgamento sem provas. As elites brasileiras, e o povo brasileiro engajado no populismo autoritário do ex-capitão do Exército, de fato fizeram – ou desfizeram – tudo isso em apenas quatro anos. Uma loucura política única, de efeitos graves, até mesmo para um país como o Brasil.

RFI - Como aconteceu esse processo?

TAB - Hoje existem juristas que dizem simplesmente que a Constituição brasileira de 1988 não legisla mais. Ela é usada, falseada e ultrapassada de acordo com os poderes que estão em jogo, a cada momento do quadro de forças e de interesses. Nossa ordem jurídica seria uma falsificação interessada, pronta para ser negada, como foi em muitos momentos da criminalização da esquerda, ou da liberação geral dos atos de quebra de decoro democrático de Jair Bolsonaro, espantosos, por um pacto social ordenado desde cima, que o desejou e criou como uma alternativa possível. O Brasil tornou a voz de uma posição exterior à democracia democrática. E, de fato, o interesse das elites ditas modernas, que agora se acanham diante do mau humor do mundo com o destino do Brasil, é que o governo de extrema direita no poder destrua de modo livre e definitivo os pactos sociais que foram necessários, acordados na saída da ditadura em 1988, que orientavam a construção da tênue social democracia brasileira, para fazer o ajuste fiscal desejado, tornado hoje como um verdadeiro Santo Graal econômico da vida brasileira e da cabeça de tabela de bolsas de valores de nossas elites. E, como todo mito, pronto para explodir no ar.

RFI - As "fake news" são um sintoma da doença?

TAB - O Brasil está louco, por todos estes critérios de civilidade, cosmopolitismo e de lei que perde a própria legitimidade. E também não. Não, o Brasil não está louco. Porque, apesar da novidade tecnológica espetacular do uso maciço e de forma ilegal de mentiras industriais na internet, deste novo tipo de tomada do poder de nossa elite com tendências antidemocráticas, de fato observamos apenas o retorno de um ciclo de desrespeito democrático de uma nação que foi constituída assim desde suas raízes. Apenas verificamos mais um dos tropeços de nosso trabalho democrático, um grande mal-entendido, como dizia Sérgio Buarque de Holanda, que vai alinhar esta fase perigosa da democracia brasileira com os períodos antissociais ou não democráticos do passado: nosso Império escravocrata do século XIX, nossa República Velha antipopular e racista, a ditadura dos anos 1930 e 1940, de Getúlio, e por fim, mas não por último, a ditadura militar da Guerra Fria de 1964-1985, na qual tem origem o espírito belicoso e de política da paranoia de Jair Bolsonaro.

RFI - Nada de novo, então?

TAB - Não, sobre este aspecto o Brasil apenas reedita os seus tradicionais fundamentos psicopolíticos autoritários e conservadores, cujas origens, as raízes, estão na nossa configuração econômica escravocrata e concentracionária colonial, nosso conservadorismo simbólico católico ibérico e cortesão e nosso atraso satisfeito, nossa burrice ostentada, em relação ao andamento produtivo do mundo moderno. 

RFI - Mas o Brasil parecia ter avançado...

TAB - Embora o mundo não saiba direito, e nos julgue por liberais, democráticos e criativos, há um Brasil real que sempre foi inimigo desta modernidade que o próprio país representou em algum momento do século XX, a modernidade derivada e expressa em nosso modernismo cultural, uma modernidade que poderíamos chamar de erótica. Sempre existiu um forte Brasil autoritário, antissocial e antierótico, que talvez o mundo desconhecesse em intimidade. Mas nós não. Certamente esta é uma faceta triste de nossa normalidade nacional, de fato a nossa maior loucura, nossa própria história, que insiste em se repetir.

RFI - E qual seria, então, o remédio para esta loucura coletiva?

TAB - Podemos dizer que não estamos mais nas condições de alienação e miséria dos anos de 1960, da nossa última gestão política abertamente autoritária: o país se modernizou, se integrou numa sofisticada rede de comunicações e milhões sentiram a experiência da subjetivação política e da cidadania nos últimos anos, embora o resultado produzido na política seja uma lamentável tendência neofascista, uma real regressão democrática. Há acumulação de experiência e algum debate público, nem sempre isento ou qualificado, que será interessante observarmos o desenvolvimento quando os equívocos anunciados e as violências projetadas do governo da nova direita se revelarem. Como está escrito no túmulo de Marcuse, em Berlim, não temos nenhuma alternativa neste momento, apenas a certeza de que 'o trabalho da civilização continua'.

RFI - O médico e psicanalista Donald Winniccott escreveu que “a democracia pressupõe maturidade para lutar com as contradições”. Neste caso, eleger alguém que diz que as minorias têm de se adequar à maioria é antidemocrático?

TAB - Para Winnicott, como para a psicanálise, nossas capacidades de pensar, de imaginar, de sonhar e de desejar estão assentadas em profundas raízes emocionais, na origem mesmo de nossa relação com a realidade partilhada, da qualidade dos vínculos afetivos com o outro que vivemos e da introjeção da negatividade universal da lei comum. Pensamos e agimos com base no que ordenamos inconscientemente como os vínculos de amor, ódio, respeito ou competição, com nossos objetos internos, os outros que nos constituíram. A norma kantiana de mútuo reconhecimento ético racional não é nem nunca foi inteiramente sustentável pela estrutura de lei particular do desejo humano, nos diz com realismo e algum pesar a psicanálise. Mas haveriam condições emocionais boas, necessárias, de raiz inconsciente, que ele chama de maturidade, para o bom exercício, na medida do possível, da vida de uma democracia. Neste sentido, seria importante uma sociedade democrática evitar a própria patologia, a sua tendência à cisão e ao fascismo, permitindo a chegada ao poder de homens que não têm claro os direitos à existência, à vida e aos direitos, do outro. Enfim, homens que desrespeitem abertamente os direitos humanos e acreditem em soluções mágicas e violentas para as complexidades da vida democrática plural. Pois foi exatamente isso que a paixão política popular, e a astúcia das elites antissociais brasileiras, fizeram: permitiram um semblante antidemocrático chegar ao poder em uma democracia.

RFI - A obra de Machado de Assis traz algum paralelo com o Brasil de hoje?

TAB - Se prestarmos atenção ao círculo de homens grotescos e verdadeiros malandros políticos que cercam Bolsonaro, veremos vários dos tipos irresponsáveis, autoritários e delirantes, com certeza social garantida na sociedade de escravos, parecidos com personagens de Machado de Assis, reeditados agora sob outra roupagem, pós-moderna em época de comunicação degradada na internet. Como já foi dito, a história do Brasil avança, mas não passa. Assim, os de baixo, que votaram no líder autoritário, têm muita vocação para Rubião, o ingênuo e basbaque servo do poder que não tem contrapartida de Quincas Borba, enquanto a elite que sustentou o projeto Bolsonaro, nunca foi tão escancaradamente Brás Cubiana, volátil, esperta e cínica quanto hoje. Machado de Assis realmente entendia de patologias sociais em sociedade de patologia histórica profunda.

RFI - Muitas pessoas adoeceram diante da violência dessa campanha...

TAB - Há um bom tempo que temos, de um lado, luto e desespero, degradação da esperança política comum e sofrimento, e de outro, excitação e passagem ao ato, gozo ilusório e gosto pela violência, nas palavras ou nos atos, no Brasil contemporâneo. De um lado estão aqueles que viram a destruição do projeto e do pacto democrático que funcionou até 2014, do outro os vencedores da violência simbólica e política atual, que gozam com suas novas práticas de predomínio e poder. Se observarmos as toneladas de mentiras veiculadas pelos bolsonaristas na internet para degradar o sentido político de seu adversário, teremos acesso a um verdadeiro museu contemporâneo da perversão bizarra e mórbida, da degradação da linguagem a uma modalidade de fragmentos de pesadelo, grotescos pop, inimaginável em qualquer ordem de direito minimamente mediada por uma lei decente. O pessoal se esmerou na perversão do imaginário bizarro e sádico para efeitos de política democrática, que pressupõe alguma racionalidade pública mínima, mas não era esse o nosso caso, de modo algum. É a forte tendência à difamação, calúnia e delinquência simbólica da nova direita agressiva brasileira. Do outro lado temos o luto e a melancolia degradante, a exaustão e a perda de referências, diante da vitória do que nos parece o pior existente e da perda da presença efetiva e à altura do tempo da esquerda despedaçada. Por isso escrevi em algum momento deste processo cindido, entre dor e excitação: hoje no Brasil quem não está doente, está doente, e, quem está doente, não está doente.

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