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Brasil

Muitos brasileiros não compreendem perspectiva de solidariedade dos médicos cubanos, diz supervisora do Mais Médicos

media A médica Sarah Segalla, supervisora acadêmica do programa Mais Médicos em áreas de difícil acesso. Arquivo pessoal

A médica Sarah Segalla é supervisora acadêmica em áreas de difícil acesso do programa Mais Médicos e trabalha no Estado do Amazonas. Ela conversou com a RFI nesta segunda-feira (26) sobre como o atendimento nestas regiões mais longínquas será prejudicado com o fim da parceria entre Brasil e Cuba e expressou sua indignação com a falta de valorização destes profissionais.

Cuba anunciou, no último 14 de novembro, que rejeitava as modificações estabelecidas pelo presidente eleito Jair Bolsonaro no programa Mais Médicos, suspendendo a participação de seus profissionais nesta iniciativa criada em 2013, durante o governo da presidente Dilma Rousseff.

“Cerca de 18 mil médicos integram o programa Mais Médicos no Brasil. Destes, quase 9 mil eram médicos cubanos. Ou seja, metade do programa era suprido por médicos cubanos”, salienta Sarah.

75% das áreas indígenas vão ficar sem médicos

Para ela, um dos pontos mais preocupantes do fim da parceria entre Brasil e Cuba é a futura ausência de médicos em diversas cidades e regiões brasileiras. “Os médicos cubanos chegavam sem escolher o lugar onde iriam trabalhar. Então, eles iam justamente para aqueles lugares onde nem os médicos brasileiros ou brasileiros e estrangeiros formados no exterior queriam ir. Essas categorias têm a possibilidade de escolher o local. A maior parte acaba ficando nas capitais, em áreas que também são de difícil provimento, mas com menos vulnerabilidade. As regiões para onde ninguém quis ir, as vagas para as quais ninguém se inscreveu, é que eram supridas pelos médicos cubanos”, diz.  

Sarah Segalla diz que no município onde trabalha, na região do Alto Solimões, no Amazonas, não há nenhum médico brasileiro, só os profissionais cubanos, além de três peruanos. “Ninguém quer ir trabalhar em São Paulo de Olivença. É por isso que 75% das áreas indígenas vão ficar sem médicos. Porque são locais para os quais nenhuma das categorias de médicos do programa quiseram ir”, salienta.

Sarah Segalla, ao lado do médico cubano Jorge Pena. Arquivo pessoal

Mais de 96% das vagas preenchidas em poucos dias

No domingo (25), o Ministério da Saúde divulgou que preencheu 96,6% das vagas do Mais Médicos. Segundo um balanço do governo, das 8.517 vagas disponíveis, 8.230 haviam sido alocadas para atuação imediata. No entanto, o documento não precisa se os candidatos escolheram locais específicos para trabalhar ou se os aprovados já foram notificados sobre a localidade para a qual foram selecionados.

À RFI, a supervisora do Mais Médicos explicou que o preenchimento das vagas nos cadastros, no entanto, não garante a atuação dos profissionais. “Muitos médicos se inscrevem, entram e deixam o programa logo em seguida porque eles não dão conta de trabalhar nestas áreas de muita vulnerabilidade. Não estou criticando esses profissionais, são locais muito difíceis mesmo. Outra coisa que acontece é que estamos em novembro e alguns médicos entram no programa para trabalhar apenas alguns meses porque, em fevereiro, saem os resultados dos programas de residência no Brasil. Então, a maior parte dos médicos brasileiros, recém-formados, que entra [para o Mais Médicos] acaba saindo poucos meses depois para fazer sua residência”, observa.

Por isso, Sarah Segalla não está otimista sobre este aparente sucesso do programa, após o anúncio do fim da parceria entre Brasil e Cuba. “Mesmo que a gente conseguisse preencher 100% destas vagas que foram oferecidas, dificilmente essas áreas vão conseguir um provimento constante, de vínculo longitudinal, que é o que a gente espera. Gostaríamos que essas pessoas conseguissem permanecer nessas locais por no mínimo um ano ou pelos três anos previstos no edital”, reitera.

As áreas para onde ninguém quis ir, as vagas para as quais ninguém se inscreveu, é que são supridas pelos médicos cubanos

Além disso, a médica lamenta o fato destas regiões não poderem mais contar com profissionais com formação especializada e experiência em áreas de alta vulnerabilidade. “Os médicos cubanos vinham com uma missão, e a maior parte deles têm uma história importante. Os profissionais que eu supervisiono já estiveram no Timor Leste, no Paquistão, na Venezuela, trabalharam no Haiti durante a epidemia de cólera. Eles têm resiliência e formação voltada para áreas de epidemias, de catástrofes, onde as condições de vida são muito mais difíceis. Eles vêm com essa disposição de ir para qualquer lugar para servir o povo”, salienta.

A supervisora não percebe a mesma disposição nos médicos brasileiros. Sarah Segalla fala com base em sua própria experiência de médica de família em comunidade, com interesse em saúde indígena, com desejo de servir e trabalhar nessas áreas longínquas. “Ainda assim, eu mesma sinto muito as dificuldades ao me fixar nesses locais. Os médicos brasileiros não têm esse tipo de formação ou de cultura mesmo - solidária e internacionalista - dentro da qual Cuba forma seus profissionais.”

Os médicos cubanos têm formação voltada para áreas de epidemias, de catástrofes, onde as condições de vida são muito mais difíceis. Eles vêm com essa disposição de ir para qualquer lugar para servir o povo

Por isso, para Sarah, por mais que as vagas sejam preenchidas, a perda para a saúde no Brasil será grande com a partida dos médicos cubanos. “A verdade é por mais que eles sejam substituídos por brasileiros, a gente tem menos habilidade para lidar com algumas circunstâncias do que eles. De qualquer forma, vamos perder ótimos profissionais, extremamente capacitados para fazer este trabalho”, afirma.

Paciente da Aldeia Kumenê, em Oiapoque (AP), sendo atendido por um médico cubano. Captura de vídeo

Falta de valorização dos médicos cubanos

A médica não esconde a insatisfação com a falta de valorização dos médicos cubanos no Brasil. Ela também desaprova a propagação de falsas notícias sobre o trabalho que realizaram nos últimos cinco anos no país e o tratamento desses profissionais pelo presidente eleito Jair Bolsonaro.

“Eu lamento muito que essa decisão tenha sido tomada pelo governo cubano por causa de depoimentos e declarações que acontecem há anos por parte de Jair Bolsonaro. Ao mesmo tempo, acho que a decisão de Cuba foi extremamente legítima, tanto diplomaticamente quanto para garantir a segurança de seus profissionais. Até porque essas áreas onde eles trabalham estão sendo ameaçadas hoje: as áreas indígenas, quilombolas, de garimpo, de conflito no campo, periferias com alto grau de violência. Eles estariam correndo risco se permanecessem nestas regiões em meio a essa onda de agressões e intolerâncias”, avalia.

Segundo ela, a maior parte das críticas aos médicos cubanos está baseada no desconhecimento do trabalho que eles desempenharam e na concepção de solidariedade dentro da qual eles foram formados e trabalham. “Eles optaram por vir trabalhar no Brasil, ninguém foi obrigado a vir”, salienta.

“Bolsonaro chegou a duvidar da formação destes profissionais. Isso é de um desconhecimento brutal sobre o programa Mais Médicos. Antes de viajar, esses médicos passam por um curso em Cuba, depois fazem curso aqui com médicos brasileiros. Para vir, eles realizam testes e, quem não é aprovado, não vem. Fazem formação em língua portuguesa e passam pela supervisão que fazemos constantemente. Então, é de um desconhecimento e de uma falta diplomacia sem tamanho tratar esses profissionais desta forma, com tantas mentiras e tantos absurdos”, completa.

Os médicos brasileiros não têm esse tipo de formação ou de cultura mesmo, solidária e internacionalista, dentro da qual Cuba forma seus profissionais

Segundo a supervisora, todos os médicos cubanos com quem já teve contato e com quem trabalhou estão conscientes de que o trabalho no Brasil não é feito por dinheiro, mas faz parte de uma missão. ““Do mesmo jeito que eles foram tratar pacientes durante a epidemia de cólera no Haiti, que foram ao Paquistão cuidar de vítimas do terremoto, eles vieram ao Brasil atender a população que nunca esteve diante de um médico. Os médicos cubanos não vieram por causa de R$ 3 mil, R$ 10 mil ou R$ 11 mil. Obviamente esse dinheiro ajuda porque os salários em Cuba são mais baixos e, com esse dinheiro, eles conseguem ampliar um pouco o poder de consumo na ilha, mas eles têm outras motivações”, diz.

No entanto, Sarah Segalla percebe o quanto é difícil para os brasileiros, “criados dentro deste sistema de meritocracia e de individualismo”, compreender o trabalho e a perspectiva de solidariedade destes profissionais. “Os cubanos que vieram para cá cresceram na época da Revolução, com essa lógica e cultura social de servir o país, de ajudar os latino-americanos e a humanidade. É difícil para parte dos brasileiros conseguir enxergar isso porque esse discurso que os médicos cubanos são escravos, que eles foram obrigados pela ditadura cubana a vir para o Brasil, também é um discurso que discorda ideologicamente desta visão de mundo”, conclui.

Profissionais do programa Mais Médicos na Casa de Saúde do Índio - CASAI/DF. 06/09/13 Karina Zambrana - ASCOM/MS
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