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Eleição de Bolsonaro: a oposição vai poder se opor?

Eleição de Bolsonaro: a oposição vai poder se opor?
 
Jair Bolsonaro, capitão da reserva do Exército, candidato pelo PSL, teve 57,7 milhões de votos (55,18%) contra 46,8 milhões de seu adversário REUTERS/Pilar Olivares

No frigir dos ovos e apesar da extrema polarização, quem ganhou foi o processo democrático. O vencedor venceu bem, como anunciavam as sondagens. O perdedor perdeu bem, mas não foi humilhado. A democracia falou. Só que o país continua dividido e sem rumo. A questão agora é saber se o governo vai poder governar e se a oposição vai poder se opor.

Não houve adesão dos brasileiros. A maioria dos eleitores de Bolsonaro votaram contra Lula e o PT. E boa parte dos que escolheram Fernando Haddad, inclusive antipetistas convictos, votaram contra Bolsonaro.

Cada um votou com medo de um regime autoritário: Venezuela versus ditadura militar de 1964. Como se o poder executivo federal fosse todo poderoso. Pura fantasmagoria num país com um Legislativo e um Judiciário bastante independentes, um apego muito forte da população aos valores democráticos, grupos de interesse influentes e diversificados (de direita e de esquerda) e uma população urbana, hiperconectada, mobilizada e informada.

E as Forças Armadas que deixaram claro que não tinham a mínima intenção de apoiar aventuras deste tipo. Mas com tanto voto contra, governo e oposição vão ter pouca legitimidade para se sustentar se não houver um esforço de reconciliação honesto dos dois lados.         

Ainda por cima, os programas dos dois candidatos – quando existiam – não convenciam. Como enfrentar os desafios imediatos da falência do Estado, da explosão do desemprego, da obsolescência e falta de competitividade da indústria e da crônica falta de investimentos nas infraestruturas? Sem falar nas catástrofes que são a educação, a saúde e a segurança públicas. E nas reformas urgentes como a da Previdência e do regime eleitoral.

Acabou a farra

O PT defendeu seu programa de sempre, só que mais radical. Esquecendo a sua responsabilidade pela maior crise moral, econômica e política da história do país: um Estado todo poderoso distribuindo subsídios para pobres e ricos, e comprando a pequena classe média com consumo financiado pelos cofres públicos. O problema é que acabou o dinheiro, e que a dívida do Estado bateu no fundo do poço.

Acabou a farra do endividamento sem limites e a ilusão de viver só de exportação de matérias-primas. A credibilidade desse programa é zero. Do outro lado, Bolsonaro não apresentou nenhuma fórmula coerente – fora alguns ajustes de cunho liberal aqui e acolá.

Na verdade, esta eleição é só o último episódio da crise de civilização que o Brasil atravessa. O velho sistema social clientelista, rentista e corporativista, fundado numa imensa desigualdade social e na exploração de poucas “commodities”, não tem mais condições de sobreviver.

A ojeriza ao mercado – da esquerda e da direita – bate de frente com a revolução mundial das novas tecnologias e maneiras de produzir. A nossa democracia vai ter que aprender a se virar num ambiente muito mais competitivo e aberto. E Haddad e Bolsonaro ainda são avatares populistas do mundo de ontem. Porém há boas notícias.

Negociação com os fisiologistas e a oposição

A renovação do Congresso e dos governos estaduais foram espetaculares. Para governar, o novo presidente vai ter que negociar permanentemente com um Legislativo novo e extremamente fragmentado. Não vai conseguir funcionar sem acordos pontuais com o fisiologismo e a oposição. Esta por sua vez, vai ter que sair do “Nós contra Eles” e aprender a propor soluções responsáveis. Criticar e fiscalizar o governo é seu papel, mas também apoiá-lo quando acerta.

Mas nada será possível sem muita autocrítica dos dirigentes petistas e muita concertação com os outros partidos de oposição. Não pode haver oposição democrática responsável se o PT insistir em ser dono da bola. Prepotências autoritárias, tanto do novo presidente quanto do petismo, seriam prolongar a nossa crise civilizatória, mergulhando o país no atraso.

Num rasgo de lucidez, Michel Temer definiu perfeitamente o funcionamento de uma democracia: “O eleito hoje é uma autoridade constituída, não um titular do poder”. É melhor ser otimista: os otimistas só sofrem no fim, os pessimistas sofrem o tempo inteiro.

 


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