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Brasil

Bolsonaro criou "uma bolha de interesses conservadores e liberais" no sul do país, avalia sociólogo

media Eleitores pró-Bolsonaro em Curitiba (PR) 06/04/18 Heuler Andrey / AFP

Eles contam com cidades com os maiores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil e suas capitais lideram os rankings das melhores infraestruturas educacionais do país. Ao mesmo tempo, vêm se tornando o reduto do conservadorismo brasileiro. Não é à toa que Santa Catarina e Paraná são os Estados onde o candidato do PSL à presidência, Jair Bolsonaro, tem apoio quase unânime.

Se dependesse de Santa Catarina e do Paraná, Bolsonaro seria presidente já no primeiro turno. Em 223 das 295 cidades catarinenses, o candidato do PSL recebeu mais de 50% dos votos. No Paraná, 309 dos 399 municípios optaram pelo ex-capitão da reserva.

No resultado geral por Estado, Bolsonaro recebeu 57% dos votos no Paraná (62% em Curitiba). Em Santa Catarina, ele conquistou 66% do eleitorado (53% em Florianópolis). Em algumas cidades catarinenses, o candidato do PSL chega a ser quase unanimidade, a exemplo de Treze de Maio, município de cerca de 7 mil habitantes, onde 83% dos eleitores optaram pelo pesselista.

O que justifica esse apoio colossal dos catarinenses e paranaenses a Bolsonaro? Para Nelson Garcia Santos, professor de Sociologia na Universidade Regional de Blumenau (SC), vários fatores podem explicar esse fenômeno que segue a tendência da ascensão da extrema direita no mundo. Um dele é o forte antipetismo, além da existência de movimentos ultraconservadores como “O Sul é Meu País”, que reivindica a emancipação política e administrativa dos três Estados sulistas.

“Bolsonaro criou uma bolha que representa interesses conservadores e liberais”, uma característica de longa data nos Estados do Sul, segundo Santos. “Esses valores fortes da tradição e da família já estavam muito presentes no nosso bojo do regime militar. Mesmo depois que o processo de redemocratização se efetivou no Brasil e tivemos a Assembleia Nacional Constituinte, muitas pessoas ainda continuaram defendendo a ideia de que o melhor período do Brasil foi o da ditadura. Há gente que ainda espera até hoje que esse movimento retorne”, afirma.

No caso específico de Santa Catarina, o cientista político Sérgio Saturnino Januário, diretor da Êxitus Comunicação e Pesquisa, lembra a formação histórica do Estado, com pequenas colônias de imigrantes entre duas regiões montanhosas, no Norte e Sul. “Como uma tentativa de autopreservação, essas colônias acabaram se tornando conservadoras, seja no comportamento, no âmbito político ou religioso. Até mesmo na questão da língua. Por muito tempo, na região de Blumenau, as crianças eram educadas em alemão, como uma prática de preservação.”

Por isso, a “onda Bolsonaro” que, segundo o professor, “não passou de um símbolo da fadiga política”, se caracterizou com mais força no Estado. “Até mesmo pela fragilidade histórica de outros partidos em Santa Catarina, onde o PT sempre registrou seus piores resultados. Além disso, não tivemos a Coluna Prestes, Getúlio Vargas, ou seja, nenhum grande movimento que pudesse caracterizar os catarinenses como revolucionários ou progressistas”, reitera.

Conservadora, liberal e machista

Além de conservadora e liberal, Santos ressalta que a população de Santa Catarina é, em geral, machista. “Nestas últimas eleições de 2018, elegemos apenas cinco mulheres como deputadas estaduais e apenas quatro mulheres como deputadas federais. Em Blumenau, onde estou baseado, não temos nenhuma mulher vereadora e isso se repete em vários outros municípios de Santa Catarina. Ou seja, aqui há uma perspectiva muito machista de que o lugar da mulher não é na política”, enfatiza.

Para o professor, o machismo age em favor da “bolha Bolsonaro”. “Acabam vendo nele um representante dos interesses da família tradicional, dos bons costumes. Uma situação contraditória, já que ele se casou três vezes, tem filhos com diferentes esposas, e defende que é o símbolo da família cristã. Enquanto o outro candidato, casado há trinta anos com a mesma mulher, não é visto como um potencial representante desses valores exigidos pelos conservadores e liberais”, diz.

Tsunami eleitoral

Para o professor Nildo Domingos Ouriques, do departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), há certas particularidades desses dois Estados do Sul do Brasil que podem justificar o que chama de “tsunami eleitoral” que o candidato causou não apenas em Santa Catarina e no Paraná, mas no Brasil inteiro.

“A composição social de Santa Catarina é o contrário do que se vende, de que é um Estado diferente do resto do Brasil, de que seria uma espécie de Europa, de que haveria uma certa igualdade. Isso não é verdade. O que existe é uma pequena burguesia proprietária e assalariada que tem peso eleitoral importante”, avalia.

Já sobre o Paraná, Ouriques aponta outra particularidade. “O Paraná tem uma presença do latifúndio muito grande e um setor industrial que foi muito prejudicado com a crise. O latifúndio apoia completamente Bolsonaro porque ele quer fazer do Brasil uma economia exportadora. Por outro lado, o setor industrial decaiu absurdamente desde os anos 90 e hoje quer compensação”, diz.

O professor da UFSC acredita que mais forte do que as particularidades desses dois Estados é o antipetismo, que se tornou uma tendência nacional. “A questão mais relevante é a redução da política amoral e o ataque à corrupção, como se Bolsonaro pudesse resolver esse problema, o que sabemos que não vai acontecer. Afinal, com ele, já estão ascendendo corruptos notórios e ainda vai ascender uma classe política que deve se corromper rapidamente”, analisa.

Eleitorado desiludido

As teorias do forte antipetismo no Sul do país devido à ideia de que a corrupção no Brasil está vinculada principalmente a um partido são verificadas, na prática, junto aos eleitores.

O jornalista catarinense Douglas Nazário aponta que, de fato, esse é o maior motivo de decepção do eleitorado do Estado. “O PT tinha uma bandeira muito bacana dos trabalhadores, do cuidado com o social, com a repartição mais justa de divisas, de não se envolver em falcatruas. Mas o fato é que não aconteceu assim nos últimos anos.”

Nazário faz parte dos desiludidos com o partido. “Eu votei quatro vezes no PT. O período que eu mais cresci como profissional foi durante os governos em que o PT administrava, mas havia algo nos bastidores que não estava legal, que é toda essa corrupção que estamos vendo ser desvendada através de investigações”, afirma.

O jornalista, que desenvolve atividades profissionais junto ao empresariado catarinense, diz que o setor “sempre foi contra os governos do PT”. O principal motivo seria a ideia que é consenso entre a população de “injustiça fiscal”: a receita tributária do Estado alcançou R$ 22,6 bilhões em 2017, mas o retorno não está à altura do que se espera. “Cada vez menos há o repasse de recursos de acordo com o que se gera para a União. Santa Catarina gera muito e recebe pouco. Sempre foi assim, mas, nos últimos anos, piorou. Como é um Estado muito mais desenvolvido e que tem um empresariado forte, esse sistema faz com o que os governos do PT sempre tenham uma votação mais baixa aqui”, observa.

A gerente financeira curitibana Luciana Romani não se considera conservadora e afirma que vota Bolsonaro “100% pela necessidade das mudanças”. “O PT destruiu a economia brasileira. Eu tenho empresa e sofremos muito com as oscilações da economia.”

No entanto, ela não esconde que se incomoda um pouco com o perfil radical do candidato do PSL. “Ele deveria medir mais as palavras, mas também as pessoas estão muito sensacionalistas. O bom senso precisa voltar a fazer parte da vida das pessoas, do povo e dos políticos. A gestão de um país tão carente de soluções deve ser o foco dele, e eu acredito que vai ser”, afirma.

Política de enfrentamento

A esperança da eleitora faz parte da teoria que Januário intitula de “política de enfrentamento”, que, segundo ele, coloca o PT de um lado e Bolsonaro de outro. Isso se deve, segundo o cientista político, às promessas não cumpridas por representantes eleitos, perpetuando por décadas problemas graves na saúde, educação, segurança pública e saneamento básico. “O eleitorado está indignado com eleições sem solução e as pessoas estão enfrentando o sistema através do voto, mostrando que não acreditam mais nos planos dos governos, nas promessas e na palavra dos candidatos. Então, elas votam em alguém que possa, ao menos, mudar essa forma de governar o país”, avalia.

Por isso, para ele, o voto em Bolsonaro “não se traduz em um comportamento de vinculação orgânica ou de defesa sem limites do candidato. Mas é uma atitude de enfrentamento em relação às irregularidades e à falta de soluções no país. Um dos símbolos desse enfrentamento é o PT, mas não foi só ele que perdeu nessas eleições, vários candidatos de partidos tradicionais que ocupavam cargos de deputados e senadores não se reelegeram: uma das maiores mudanças que já tínhamos visto até hoje”, completa o professor.

Ouriques compartilha da mesma ideia, ressaltando que “os partidos tradicionais foram varridos do mapa nesta eleição”. Segundo ele, a pecha da corrupção se aderiu ao PT porque “não foram cinco, nem sete, nem dez, foram longos 13 anos em que o Partido dos Trabalhadores não atacou a corrupção seriamente como atitude de governo”, salienta.

Em contrapartida, para o professor da UFSC, o programa ultraliberal e o discurso “proto-fascista” de Bolsonaro também não tem o poder de mudança que o povo espera. “Nessas circunstâncias, qualquer pessoa com o mínimo de juízo votaria em Haddad, não porque ele possa representar alguma coisa, mas para não dar uma vitória acachapante para a extrema direita”, conclui.

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