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Projeto com jovens de Recife luta contra a demonização da política

Projeto com jovens de Recife luta contra a demonização da política
 
A estudante de Direito Raíra Cavalcanti, diretora operacional do Politiquê. A. Moyses

Nesse momento em que a política partidária caiu em descrédito no Brasil, o projeto Politiquê?, criado há cinco anos em Pernambuco, incentiva os jovens a discutir política, cidadania e empreendedorismo como vetores de mudança social. A reportagem da RFI ouviu, em Recife, a estudante de Direito Raíra Cavalcanti, de 21 anos, diretora operacional do programa.

O Politiquê? leva educação política a jovens de 15 a 25 anos inseridos em escolas de ensino médio e universidades. Seus voluntários organizam uma série de ações com estudantes, que vão desde a informação sobre o voto facultativo, a partir dos 16 anos, a explicações sobre o modo de funcionamento das instituições brasileiras.

Os jovens têm a possibilidade de organizar uma eleição simulada, estruturar legendas e programas, participar de uma audiência pública e refletir sobre seu papel de agente de responsabilidade social nesse processo, explica Raíra. Eles também são confrontados aos desafios e às dificuldades da gestão pública. Debates dinâmicos e mesas-redondas, organizados por uma rede de voluntários, completam a oferta de ações.

O projeto Politiquê? nasceu de "um incômodo individual muito grande" de sua fundadora, Camilla Borges Costa. A empreendedora social, nascida em uma família de classe média de Pernambuco, conta que teve sua infância marcada pelo sofrimento dos mais pobres, pelas desigualdades e a injustiça social. Adulta, já formada em Relações Internacionais, ela transformou essa vivência no projeto destinado a engajar os jovens na mudança social.

Camilla foi selecionada para participar do programa Young Leaders of the Americas Iniatiative (YLAI), criado pelo ex-presidente americano Barack Obama para ajudar jovens líderes a aumentar o impacto de seu trabalho. No texto de apresentação de seu site, ela declara que seu propósito é criar "um mundo de mais igualdade e menos muros".

Escolas privadas mantêm jovens afastados da educação política

Desde a criação do Politiquê?, em 2013, na sequência das manifestações populares contra o aumento nos preços do transporte público e a corrupção, a Secretaria Estadual da Educação de Pernambuco tem se mostrado aberta e parceira do programa. Não é o caso das escolas particulares.

"A escola privada ainda tem resistência quando se trata do tema política, porque associa a ideia à política partidária", constata Raíra. "Existe uma grande demonização do fazer política no Brasil, uma ideia extremamente associada à corrupção, a estigmas negativos que afastam o cidadão do fazer política", lamenta a diretora operacional. "Mesmo explicando que a iniciativa é suprapartidária, enfrentamos entraves", afirma Raíra.

"Nas escolas da rede pública, nós falamos de política institucional e deixamos os alunos criarem seus próprios partidos e siglas, a fim de estabelecer as regras do jogo. Cabe a eles fazer a comparação do jogo que apresentamos com a realidade em que vivem no dia a dia", explica. "Já tivemos alunos que nos agradeceram por despertá-los para a política, que passaram a assistir aos debates presidenciais e a ouvir o horário eleitoral a fim de formar sua própria opinião", comemora a estudante de Direito.

Raíra estima que em cinco anos de atuação mais de 3 mil jovens de Recife foram sensibilizados por esse trabalho e mais de 100 voluntários estiveram ou estão envolvidos nas atividades do Politiquê?. "É um alcance muito grande, às vezes faltam métricas para dimensionar esse trabalho, por ser subjetivo saber até que ponto a educação política pode ser disseminada e motivar o interesse político de alguém", avalia.

A última atividade pública do Politiquê? antes do primeiro turno das eleições foi no dia 22 de setembro. Durante toda a conversa com Raíra, nenhum partido político, candidato ou personagem público foi mencionado pela estudante. A diretora operacional do Politiquê? zela pela imparcialidade absoluta dessa ação educativa e mantém distância da arena eleitoral. Questionada se tinha projeções, seu único comentário foi: "Consideramos que o trabalho está feito, agora é aguardar o resultado", concluiu Raíra.


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