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Brasil

Eleições 2018: iniciativas cidadãs incentivam o voto em candidatos negros

media 43% das candidaturas das eleições 2018 no Brasil são de mulheres negras e homens negros. Reprodução/Facebook

O primeiro parlamentar negro do Brasil foi o jornalista e militar Eduardo Gonçalves Ribeiro, eleito para o cargo de deputado federal em 1897. Mais de um século depois, a eleição de candidatos negros pouco evoluiu no país: em 2014, quase 80% da composição do Congresso era de brancos. Com o objetivo de lutar contra essa discrepância, grupos se organizam na sociedade civil e nas redes para eleger mais negras e negros.

Nas redes sociais, a campanha dos candidatos negros é acompanhada de uma hashtag: #VoteEmPreto. O movimento tem o objetivo de eleger mais candidatos negros e aumentar a participação desta parcela da população na política brasileira.

Nas eleições de 2014, dos 513 deputados eleitos para a Câmara, 410 eram brancos declarados, ou seja, 79,9% do Congresso que atua até hoje é branco, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Paradoxalmente, de acordo com os dados de 2016 do IBGE, 54,9% da população brasileira é negra (46,7% são pardos e 8,2% são negros). Mas apenas 20% dos parlamentares são negros.

Evento supra-partidário, realizado nesta quarta-feira (3) em São Paulo, tem o objetivo de incentivar o voto em mulheres negras. Divulgação

Nas redes, representantes do movimento negro se mobilizam. Linda Marxs, blogueira do Efigenias, criou no Facebook o grupo “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos”. O objetivo é divulgar a candidatura de mulheres e homens negros com a meta de convencer um milhão de eleitores brancos a votar em candidatos negros.

Em entrevista à RFI, Linda Marxs explicou que a iniciativa se inspira no intelectual e militante negro Abdias do Nascimento, criador do Teatro Experimental do Negro. Quando se candidatou a vereador no Rio de Janeiro, em 1954, seu lema de campanha era: “Não vote em branco. Vote no Preto Abdias do Nascimento”.

“O 1 Milhão de Brancos é uma reverberação do movimento Vote em Preto, com o objetivo de brincar e provocar, usando a linguagem do meme, para fazer emergir ideias e incentivar que as pessoas abandonem os clichês, como quem diz que não considera o voto ‘por cor’ porque dá prioridade para a competência dos candidatos. Só que esse eleitor só vota em candidatos brancos e, ao mesmo tempo, diz que todas as pessoas são iguais. Então, essa provocação tem um tom de humor, mas também é uma forma real de angariar votos para os candidatos pretos”, diz.

A iniciativa de Linda Marxs deu certo. O grupo tem quase 3 mil participantes e divulga diariamente a candidatura de dezenas de mulheres e homens negros. “Obviamente, o ideal não seria que uma pessoa escolhesse um candidato apenas por ser preto. Mas não é apenas por ser preto, mas pelo que ele representa, é o incentivo da democracia, é a luta antifascimo, e é também uma forma de os brancos se posicionarem contra o racismo”, salienta.

A militante destaca que, apesar da grande polarização política no Brasil, o “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos” não faz distinção entre os partidos políticos, embora a maioria dos candidatos negros sejam de partidos de esquerda. Linda Marxs se inspira no lema “Nem Direita, Nem Esquerda. Preto”, do Frente Favela Brasil, movimento que reúne e apoia vários candidatos negros e das periferias. “Eu parto do princípio que eu sou uma mulher de esquerda. Porém, antes de tudo, eu sou preta. Isso significa que eu vou divulgar qualquer candidatura de pretos antes de priorizar minha orientação política”, diz.

Iniciativas fundamentais

Nilza Camillo, do Frente Favela Brasil, é candidata a um mandato coletivo no Senado pela Rede Sustentabilidade em São Paulo. Ela é um dos perfis divulgados no “1 Milhão de Brancos Votando em Candidatos Pretos”. Para a candidata, o apoio das redes sociais e do movimento negro tem sido fundamental, especialmente para as mulheres negras, “que não são representadas em nada”. Nilza é uma das organizadoras da campanha “Vote Nelas!”, em prol da candidatura de mulheres negras.

“O espaço para os homens negros e as mulheres negras na política é zero”, afirma. Segundo a candidata, a falta de inclusão social gera o desinteresse desta população pela política. “Não somos considerados nas tomadas de decisões. Por isso, é preciso intensificar nossa luta pelo protagonismo e pela igualdade de oportunidades. Afinal, nós somos a maioria dos brasileiros”, ressalta.

Nilza Camillo, do Frente Favela Brasil, é candidata a um mandato coletivo no Senado pela Rede em São Paulo Divulgação

Candidato a deputado estadual pelo PSTU-SC, Daniel DeKilograma também elogia as iniciativas, mas ressalta o paradoxo da necessidade de movimentos em prol da maior representatividade dos negros no Brasil, “130 anos após o fim da escravidão e sem nenhuma reparação”. “O racismo é institucional e velado no Brasil”, diz.

Daniel DeKilograma denuncia a falta de representantes negros em Santa Catarina, um dos Estados do sul do país colonizado por imigrantes europeus no século XIX. O candidato conta que, ao visitar recentemente a Assembleia Legislativa catarinense, há algumas semanas, observou que no mural onde são exibidas as fotos dos legisladores, não há nenhum negro ou negra. “Como podemos ser representados desta forma?”, questiona.

Daniel DKG DeKilograma é candidato a deputado estadual pelo PSTU em Santa Catarina Divulgação

Resquícios de séculos de escravidão

O que explica um número tão pequeno de representantes negros na esfera política brasileira? Para José Henrique Artigas de Godoy, doutor em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP) e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), a principal explicação são “os longos séculos de escravidão”.

“A escravidão acabou imputando à História Brasileira uma série de desigualdades que jamais foram superadas plenamente porque o processo de abolição não incorporou meios de criação de oportunidades de integração social dessa camada da população egressa das senzalas. Isso acabou refletindo em uma trajetória de segregação, de hierarquia, de preconceito, de estigma e discriminação para as pessoas que vêm desta trajetória. Então, até hoje, os negros são a parte da população que tem menos oportunidades econômicas, sociais e políticas”, diz.

Para Artigas de Godoy, a participação dos negros no ambiente parlamentar é “absolutamente incompatível” com a proporção de negros na população. Ao mesmo tempo, eles são os que têm os menores salários, menos acesso ao Ensino Médio e Superior. Além disso, a maioria dos negros indiciados no Brasil são condenados e compõem mais de 70% da população carcerária brasileira. “Isso acaba se reproduzindo como um padrão social discriminatório, que se reflete no aspecto político”, reitera.

Um exemplo é a falta de investimentos nas candidaturas de negros, que é quase uma regra para os partidos no Brasil. Nas eleições de 2014, apenas o PCdoB e o PCB destinaram uma verba maior às candidaduras de deputados negros. No mesmo ano, os candidatos brancos receberam um investimento três vezes maior, em média, nas outras legendas.

Para as eleições de 2018, segundo informações do TSE, o PT é a legenda com o maior percentual de candidaturas de negros: 50% do total. No entanto, em proporção, quem ganha é o PSTU, no qual 42% dos candidatos se autodeclararam pretos. Já o Novo é a legenda com o maior número de candidatos brancos: 85% e menor quantidade de candidatos pretos: 1,2%. Os outros partidos com menos candidatos pretos são PSL (4,7%), PSDB (6%) e PSD (6%).

Eleitorado brasileiro é preconceituoso

Neste ano, as candidaturas de negras e negros aumentaram. Do total de 28,1 mil pessoas inscritas para concorrer aos cargos de deputado estadual, deputado federal, senador, governador e presidente, 46% são negros. Os brancos representam 53%, os amarelos (com descendência asiática) são 0,6% e os indígenas são 0,5%.

Apesar do aumento de candidaturas negras, poucos passarão a integrar a esfera política brasileira. Para Artigas de Godoy, não há outra explicação para este fenômeno: o eleitorado brasileiro é tradicionalmente conservador e preconceituoso. “Essa é uma confirmação estatística. Uma coisa é a candidatura, outra é a ocupação de cadeiras parlamentares, onde as desigualdades ainda são brutais em relação ao que observamos sobre o perfil geral da população brasileira”, completa.

Nas eleições de 2014, menos de 4% de negros foram eleitos.

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