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Brasil

Le Monde: ódio ao PT impulsiona extrema-direita no Brasil

media Le Monde traz análise da campanha eleitoral no Brasil. RFI

Uma reportagem de página inteira da correspondente do jornal francês tenta explicar aos leitores, na edição deste final de semana, um pouco das particularidades da eleição presidencial no Brasil, principalmente em relação ao favoritismo de Jair Bolsonaro.

A matéria começa com o depoimento de “um típico representante da pequena burguesia paulista hermética às ideias de esquerda”, um cabeleireiro em Higienópolis, bairro chique de São Paulo. Para ele, Lula e o PT “criaram um bando de vagabundos que não querem trabalhar”, ao distribuir o Bolsa Família.

A princípio, o entrevistado prefere João Amoedo, do Partido Novo, mas diante da possiblidade de o petista Fernando Haddad passar para o segundo turno, ele se diz preparado para votar em Bolsonaro, apesar de não concordar com todas as suas ideias. Mas tudo vale para bloquear o Partido dos Trabalhadores, observa Le Monde.

O Brasil passa por uma recessão histórica e muitos eleitores como o cabeleireiro estão tentados a exercer o voto útil e apoiar o candidato com mais chances de derrotar a esquerda, o que explica a ascensão de Bolsonaro, até então um político sem expressão.

“Fuzilar petralhas”

Outros conservadores, como Geraldo Alckmin, do PSDB, acabam ficando para trás diante das promessas como “fuzilar os petralhas”, proferidas em campanha por Bolsonaro, que também está otimizando as repercussões do recente ataque a faca do qual foi vítima.

 “Jair Bolsonaro fala a língua do povo, seu discurso é agressivo – os brasileiros estão furiosos”, explica ao jornal francês Ricardo Ismael, professor de Ciências Políticas da PUC-RJ.

Se a ideia de Jair Bolsonaro como presidente dá medo, as propostas de possível golpe de Estado com apoio do exército em caso de anarquia, feitas pelo candidato a vice Hamilton Mourão, são inquietantes para Le Monde, principalmente num país marcado pela ditadura.

Rancor à esquerda

Mesmo se quase nenhum partido sai incólume do escândalo Lava Jato, o PT e Lula viraram símbolos da corrupção, alimentando o rancor em relação ao partido de esquerda. A crise econômica também aumenta o desgosto da pequena burguesia, explica ao Monde, Daniel Pereira, professor de sociologia da FGV-SP.

Os anos Lula reduziram a extrema pobreza, mas a classe média alta não teve avanços comparáveis. Para o especialista, a flexibilização do mercado de trabalho, o aumento dos preços de serviço (escolas particulares, restaurantes, viagens, custos com diaristas e babás) afetaram diretamente profissionais liberais e pequenos empresários.

Burguesia humilhada

“A pequena burguesia, adepta dos shopping centers e viagens a Miami, se sentiu humilhada pela chegada ao poder de Lula, que ela considera como um analfabeto”, diz a socióloga e cientista política Ruda Ricci.

Outro fator que atrai essa classe “humilhada” é o conselheiro econômico de Bolsonaro, o liberal Paulo Guedes, que promete privatizar para reduzir o déficit público.

A duas semanas do primeiro turno, Le Monde vê um provável duelo de Haddad e Bolsonaro para o segundo turno. Para a diretora do Ibope, Marcia Cavallari, vai ser uma “guerra de rejeições”.

 

 

 

 

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