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Oxfam: aumento da desigualdade leva à instabilidade política e econômica no Brasil

Oxfam: aumento da desigualdade leva à instabilidade política e econômica no Brasil
 
A diretora da Oxfam no Brasil, Kátia Maia. Foto: Divulgação

A diretora-executiva da afiliada brasileira da Oxfam, Kátia Maia, foi uma das painelistas na Conferência Internacional sobre desigualdades rurais promovida entre 2 e 3 de maio pelo Fundo Internacional das Nações Unidas para o Desenvolvimento Agrário (FIDA), em Roma.

Rafael Belincanta, correspondente da RFI em Roma

Em entrevista exclusiva à RFI, a diretora assegurou que a instabilidade política e econômica vivida pelo Brasil está diretamente ligada ao crescimento da desigualdade social.

“Quando você vê um país em que os jovens negros estão sendo exterminados – os números são terríveis – você fala, mas que sociedade é essa? O que você espera dos moradores, das moradoras de periferia, quando estão sendo exterminados? Há uma relação muito grande entre o aprofundamento das desigualdades e a instabilidade política e econômica do país”, afirmou.
 
Maia assegurou que é preciso pôr fim à discriminação de “cidadão de primeira e segunda categoria” para superar as polarizações que agravam ainda mais os desequilíbrios sociais.
 
“A desigualdade sempre vai existir. Não existe como você ter um mundo totalmente igual. Não é disso que nós estamos falando. Mas nós estamos falando de desigualdade que nega direitos. A desigualdade que nega direitos, que nega a possibilidade das pessoas progredirem, essa desigualdade é cruel, é inaceitável, e a sociedade tem que enfrentá-la”.
 
Concentração de renda
 
O Brasil faz parte da lista de países onde a concentração das riquezas está na mãos de poucos. Mas é possível reverter um quadro em que 10 pessoas detêm a mesma riqueza da metade da população mais pobre?
 
“Não é utopia. Nós não estamos falando que o mundo tem que ser totalmente igual. Estamos falando que existem políticas concretas, decisões políticas, decisões econômicas, escolhas, que podem sim reduzir o tamanho da desigualdade que a gente enfrenta hoje”, afirmou.
 
Agricultura sustentável

 
Dentre as Metas de Desenvolvimento Sustentável definidas pelas Nações Unidas até 2030 está o desafio de alimentar 9 bilhões de pessoas – estimativa da população mundial dentro de 12 anos. Atualmente, de acordo com o último relatório sobre a Fome no Mundo da FAO, mais de 815 milhões de pessoas passam fome. Será possível alimentar tantas pessoas sem uma agricultura em escala industrial?
 
“O desafio de alimentar 9 bilhões de pessoas não passa só pela produtividade e pela eficiência, mas pela redistribuição de bens e pela distribuição de recursos naturais e financeiros. Se você pensa no futuro, é claro que você tem que aumentar a produção, mas não é o modelo de concentração que vai solucionar o problema da fome porque hoje o mundo produz alimento suficiente, acontece que existem pessoas que não têm como ter acesso a esse alimento”, explicou.
 
Novo modelo agrário no Brasil
 
Em 2016, a Oxfam publicou um relatório intitulado “Terrenos de Desigualdade” no qual faz série de recomendações para diminuir a desigualdade e cita os principais motivos de desigualdade e conflito no campo no Brasil. Ao recordar que a “Reforma Agrária é uma pendência histórica e precisa ser politicamente e economicamente enfrentada”, Maia afirmou que na atual conjuntura política “a questão da Reforma Agrária já foi jogada ao último plano”.
 
Ainda assim, a diretora da Oxfam Brasil recordou que uma das principais recomendações do relatório foi que se aumentassem os incentivos à agricultura familiar. “Isso depende de um Congresso que entenda mais o papel da agricultura familiar, da produção da agricultura familiar. O Brasil é um país onde a agricultura familiar tem uma grande responsabilidade no alimento que vai para a mesa dos brasileiros. A nossa grande produção agrícola, do chamado grande agronegócio, ou é para a exportação ou é para alimentar gado, ela não é para alimentar o povo”.
 
Conflito e discriminação

 
Por fim, Maia recordou que “o Brasil é um dos países que mais mata por conflito agrário” e que “a discriminação de gênero é muito grande no campo. O número de mulheres proprietárias de terras é irrisório. É fundamental o empoderamento das mulheres ao que lhes é de direito”. E concluiu: “A importância de cuidar desse mundo rural está colocada para qualquer um que venha a assumir a Presidência”.
 
Clique na foto acima para ouvir a entrevista completa.


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