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Brasil

No jornal Libération, filósofo não descarta uma “solução trágica” para o Brasil e a volta da ditadura militar

media Artigo sobre o Brasil no jornal Libéração desta sexta-feira (13). Liberation

Em artigo publicado nesta sexta-feira (13) no jornal francês de tendência progressista Libération, o filósofo Diogo Sardinha faz uma análise virulenta da prisão de Lula e do ódio da “elite branca” dirigido a ele e ao PT e de como ele se materializa em casos de agressão, como os tiros à caravana de Lula e a execução da vereadora (do PSOL) Marielle Franco.

Português e ex-presidente do Colégio Internacional de Filosofia, o autor do artigo escreveu que “não foi apenas a eleição de um ex-operário e sindicalista que a elite branca brasileira não pôde suportar, mas também a eleição de uma mulher, ex-prisioneira da ditadura”.

Para exemplificar o que ele chama de golpe, ele cita a seletividade da Justiça e o tweet do general do Exército às vésperas do julgamento do habeas corpus de Lula pelo STF e diz que “os militares se sentem livres para tomar posição publicamente sobre questões políticas e judiciárias, o que Temer colocou na conta da ‘liberdade de expressão’”.

“A igualdade é uma noção inexistente”

“Para quem quer saber se Lula é verdadeiramente o corrupto que os tribunais condenaram, nós deveríamos observar que, num país como o Brasil, a Justiça, infelizmente, não é apenas uma. Da mesma forma que os brasileiros não são iguais no acesso à saúde, à educação e à habitação, eles não são iguais perante a lei. A igualdade é uma noção inexistente”, afirma o filósofo.

O filósofo continua fazendo uma análise do Brasil em que diz que “as divisões de raça, de classe e de gênero (são) ainda muito profundas para permitir a imparcialidade das instituições”. Ele cita que até mesmo “um dos editorialistas de direita mais virulentos contra o PT”, Reinaldo Azevedo, disse que Lula “é vítima de um processo de exceção”.

O articulista português disse que, como Lula, Dilma foi tornada alvo da grande mídia brasileira, sobretudo a Rede Globo, “que, no momento de instauração da ditadura militar, há 54 anos, saudou o golpe de Estado como (sendo) a restauração da ordem e da democracia”. “Como resultado de tudo isso, o Brasil é um país rasgado”, acrescenta.

Ataques à caravana de Lula

Ele cita os recentes ataques de manifestantes contra a caravana de Lula, na qual Dilma esteve presente, pelos Estados do sul do Brasil, primeiro com ovos e pedras, depois com tiros, “muitas vezes sob os olhares complacentes da Polícia”.
Ele cita a declaração do então governador de São Paulo Geraldo Alckmin, logo após os tiros à caravana de Lula, em que Alckmin disse que “o PT está colhendo o que plantou”. No dia seguinte, o (ex-)governador se retratou, mas, segundo o filósofo, seu pensamento ficou claro.

Retratações, no entanto, não são vistas nos discursos de ódio espalhados pela internet, observa.

Marielle Franco

“O ódio político e de classe, raça e gênero faz vítimas”, disse. “A vítima mais conhecida é, sem dúvida a vereadora Marielle Franco, mulher de 38 anos, negra, originária de favela, esperança da política popular, executada no mês passado em um Estado (do Rio de Janeiro) sob intervenção militar”.

Sua execução, “cuja responsabilidade talvez não seja jamais verificada”, foi a primeira a ter repercussão internacional, diz o filósofo.

Impasse

O filósofo afirma que o Brasil vive um impasse. “E se sabemos como sair (desta situação) com dignidade – pelo respeito às regras da democracia participativa, já degradada – , ninguém sabe se esta via ainda se encontra aberta”.

“Mesmo pelo buraco da fechadura, a influência de Lula continuará sendo uma ameaça a estas elites corruptas e tendo um peso considerável nas eleições”, analisa o filósofo.

Ele termina o texto dizendo que não vê como impensável “uma solução trágica” para esta história, “como o assassinato puro e simples de Lula e a restauração de uma ditadura militar que colocaria ‘cada um em seu lugar’”.

“Se o bando de malfeitores no poder chegar a este extremo, o Brasil se reconectaria com o pior de sua história e seria toda a América Latina que entraria num longo inverno”, conclui.

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