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"Feminismo é um projeto nacional de sociedade”, diz filósofa Djamila Ribeiro

 
A filósofa e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Djamila Ribeiro. pt.org.br

O RFI Convida nesta quinta-feira, 8 de março, a filósofa e mestra em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Djamila Ribeiro. Autora do livro “O que é Lugar de Fala”, lançado no fim de 2017 pelo Grupo Editorial Livramento, Djamila se tornou nos últimos anos uma das principais vozes do movimento feminista brasileiro, multiplicando análises e participações em programas de TV. Ela falou sobre as conquistas do movimento feminista, e sobre a violência e a desigualdade contra mulheres no Brasil.

*Clique na imagem acima para ouvir a entrevista na íntegra

A quinta-feira na França é marcada por uma greve geral convocada pelas mulheres para protestar contra a diferença salarial de 25% entre homens e mulheres no país. Será que existem motivos para comemorar o Dia Internacional [de Luta pelos Direitos] da Mulher? Djamila Ribeiro acredita que “ainda temos muito trabalho pela frente, sobretudo no período de retrocesso em que a gente vive, não só no Brasil, mas também na América Latina e outros países do mundo”.

“O 8 de março ainda precisa ser lembrado como uma data de luta, não uma data só para homenagear as mulheres de maneira simplista. Ser mulher numa sociedade machista ainda significa receber menos. Em média, no Brasil, mulheres brancas recebem 30% a menos do que os homens, uma porcentagem que chega a 70% no caso de mulheres negras”, avalia a filósofa.

Os números da violência contra mulheres no Brasil

Djamila discorre também sobre os impressionantes números da violência contra mulheres no país. “Aqui no Brasil a cada 11 minutos uma mulher é estuprada, a cada cinco uma mulher é agredida pelo companheiro. Infelizmente, não temos muito o que comemorar. É um momento de conscientização, de trabalhar, como temos feito historicamente, de conscientizar as mulheres a pressionar o poder público para considerar as mulheres como sujeitos de direitos de fato”, lembra.

Autora do livro “O que é Lugar de Fala”, a filósofa explica o conceito, aplicado à realidade feminina. “Quando a gente aborda o lugar de fala, estamos nos referindo sobretudo ao lugar que as mulheres ocupam na sociedade. O fato de sermos mulheres no Brasil faz a gente ser colocada em lugar de vulnerabilidade, e combinam-se opressões: se é mulher negra, se é mulher lésbica. São opressões históricas que criam desigualdades e criam barreiras estruturais para que a gente possa existir em determinados espaços”, explica.

“Tivemos políticas importantes nos últimos governos, na área da Educação, sobretudo, para que pudéssemos adentrar determinados espaços. Mas, no atual momento de retrocesso brasileiro, vemos essas conquistas serem minadas”, analisa.

Perspectivas do feminismo contemporâneo

“O movimento de luta não é um movimento homogêneo”, recorda a filósofa. O feminismo é um movimento muito diverso, com várias vertentes e correntes de pensamento. “Não necessariamente as feministas devem concordar entre si o tempo todo, muito pelo contrário. Tudo depende da perspectiva ideológica. Nos últimos anos vem crescendo cada vez mais uma corrente de pensar intersecções, que mulheres não são blocos únicos, mulheres combinam e entrecruzam opressões, e que pensar feminismo é um projeto nacional de fato", afirma.

“Quando pensamos em questões estruturais como raça, classe, gênero, entre outras, estamos discutindo um projeto de sociedade. Nenhum tipo de opressão pode ser validado. Quando pensamos num projeto, pensamos num projeto para todos e todas, não só necessariamente para as mulheres”, aponta Djamila Ribeiro.

“Quando eu discuto raça, eu necessariamente englobo os homens dentro dessa questão. Não dá para lutar contra uma opressão e reforçar outra, porque isso significaria alimentar as mesmas estruturas”, afirma. “Vejo com muita alegria a conclusão dessa nova geração de feministas que reafirma a necessidade de pensar um projeto de fato e parar com a lógica de validar opressões quando convém, ou só lutar contra aquelas que te atingem, pensando de uma maneira mais ampla, de fato”, conclui a filósofa.


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