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Brasil

Le Monde vê manobra de Temer em decisão sobre intervenção militar no Rio

media Operação policial contra traficantes de drogas na Cidade de Deus, dia 1° de fevereiro de 2018, no Rio de Janeiro. REUTERS/Ricardo Moraes

Ao relatar a intervenção militar para restabelecer a segurança no Rio de Janeiro, o jornal francês Le Monde diz que a decisão de Michel Temer, "presidente de impopularidade histórica", causa "perplexidade e medo".

A menos de um ano do término do mandato, alguns veem essa escolha como "uma manobra visando apagar a incapacidade do governo de votar a reforma da Previdência, um elemento crucial" da gestão Temer. "Outros criticam uma medida condenada ao fracasso num estado falido, onde a violência extrema compete com a indigência dos serviços públicos", informa Le Monde.

A correspondente em São Paulo, Claire Gatinois, questiona se o Carnaval extremamente politizado este ano não teve influência sobre a decisão de Temer. "O desfile da Beija-Flor, campeã de 2018, retratou a tragédia que se abate sobre a antiga capital do país, fazendo desfilar a corrupção, a morte, os policiais assassinados e a indecência dos políticos."

Na opinião do cientista político Mathias Alencastro, ouvido pela publicação, "esse Carnaval de conteúdo político reforçou a ideia de que o Rio de Janeiro estava em uma situação de anarquia".

Depois de apresentar um breve resumo com os números da violência no Rio, Le Monde elenca críticas feitas à intervenção do Exército.

"Apenas em 2017, o estado registrou 6.731 mortes violentas, duas a cada três horas. Diariamente, os jornais brasileiros relatam tiroteios e tragédias absurdas de famílias atingidas por balas perdidas ou vítimas de agressões. Em 6 de fevereiro, a população se emocionou com a morte de uma garota de 3 anos, Emily, atingida no carro de seus pais por ladrões em pânico. No mesmo dia, Jeremias, 13, morreu com uma bala no peito quando jogava futebol na favela Complexo da Maré. De acordo com a organização não governamental Rio de Paz, 44 crianças morreram de balas perdidas desde 2007."

"Este decreto não atende às necessidades do Rio. Não conseguimos paz militarizando a polícia. O resultado será uma escalada de violência", adverte Adilson Paes de Souza, ex-tenente-coronel do Exército e autor de um livro sobre o mal-estar da polícia brasileira.

"Construamos escolas e fecharemos prisões", diz Francisco Chao, diretor do Sindicato da Polícia Civil do Rio de Janeiro, parafraseando o escritor francês Victor Hugo."

Lembranças da ditadura

Em um país onde a memória da ditadura militar (1964-1985) permanece nas mentes, a demonstração de firmeza de Temer causa arrepios, explica Le Monde, acrescentando que o ministro da Defesa tentou atenuar os temores. "A democracia exige ordem. Esta medida visa fortalecer a democracia. Não haverá restrição de direitos", tentou tranquilizar na sexta-feira Raul Jungmann, o ministro da Defesa.

O diário francês conta que "as redes sociais foram invadidas por memes de Temer imitando o marechal Castelo Branco, principal arquiteto do golpe de 1964". Na avaliação de Mathias de Alencastro, "o governo sabe que não deixará marcas e, numa última tentativa de golpe, busca satisfazer o eleitorado mais extremista, que vê a salvação apenas na intervenção militar", resume o especialista.

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