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Brasil

Apesar de incertezas, 2ª edição do Atlas do Brasil está otimista com futuro do país

media Capa da 2ª edição do Atlas do Brasil, dos cientistas políticos franceses Olivier Dabène e Frédéric Louault. Divulgação

A 2ª edição do Atlas du Brésil: promesses et défis d'une puissance émergente (Atlas do Brasil: promessas e desafios de uma potência emergente), editado pela Autrement, acaba de chegar às livrarias francesas. A primeira edição da obra foi escrita pelos cientistas políticos franceses Olivier Dabène e Frédéric Louault em 2013, quando o país crescia, redistribuía renda, tirava gente da miséria e brilhava ainda no cenário internacional. Cinco anos depois e diante da grave crise que o país atravessa, a expectativa era que o livro fizesse uma análise um pouco mais pessimista. Mas apesar das incertezas, os dois brasilianistas mantém o otimismo quanto ao futuro e acreditam na capacidade do Brasil dar a volta por cima.

Nessa entrevista à RFI, o professor do Instituto de Ciência Políticas de Paris e presidente do Observatório Político da América Latina e do Caribe (OPALC) diz que a grande diferença nessa segunda edição do Atlas do Brasil é inclusão de uma grande análise sobre os mega escândalos de corrupção revelados no país nos últimos anos. O cientista político defende a candidatura do ex-presidente Lula às eleições de 2018, “uma candidatura necessária para a boa saúde da política brasileira”. Segundo Dabène, se eleito, Lula é provavelmente um dos únicos líderes brasileiros capazes de aprovar a reforma política, única medida capaz de acabar com a corrupção endêmica no país.

RFI: Quais foram as principais mudanças verificadas entre 2013 e 2018?

Olivier Dabène: “É um outro país. Tudo mudou em cinco anos. Quando corrigimos os textos para esta segunda edição, percebemos que em 2013 estávamos, como muita gente na época, otimistas com o Brasil, considerado uma potência emergente. No entanto, levantamos na primeira edição algumas dúvidas e fragilidades, que se manifestaram de maneira espetacular depois. Na segunda edição, estamos menos otimistas, mas continuamos esperançosos. Tentamos não ceder ao clima catastrófico que vive o país e às análises sombrias que são feitas sobre ele. Por isso, não mudamos o subtítulo: ‘Promessas e desafios de uma potência emergente’. Consideramos que o Brasil continua, apesar de muitos obstáculos, uma grande promessa. Em breve, o Brasil vai dar a volta por cima e vamos falar de novo desse país com muito otimismo.”

Então, você não tem a impressão, como a população brasileira, de que o Brasil recuou nos últimos tempos?

“Compreendemos esse clima pessimista e sombrio, com uma opinião pública revoltada, indignada e frustrada. Mas avaliamos que justamente porque essa opinião pública está tão frustrada e conhecendo o potencial desse país, sabemos que o Brasil vai dar a volta por cima. A situação atual é dramática. A campanha eleitoral está tumultuada. Mas historicamente, o Brasil já passou por fases muito difíceis e mostrou uma inacreditável capacidade de se recuperar, reatando com seu otimismo legendário e com crescimento econômico. Não subestimo o retrocesso em relação aos progressos sociais, à crise econômica, política, e a dimensão dos escândalos de corrupção. Analisamos tudo isso no Atlas. Temos consciência que esses problemas são extremamente graves, mas continuamos convencidos que o Brasil vai nos surpreender novamente e que, em alguns anos, teremos um Brasil em franco crescimento e confiante.”

Quais são os indícios que embasam esse otimismo?

“Para começar, o Brasil saiu da fase mais dramática de sua crise econômica. Após uma crise muito grave, vemos a retomada do crescimento, já registrada em 2017 e que será ainda melhor em 2018 e 2019. Não teremos mais taxas importantes como há alguns anos, ou como nos anos 60, com um crescimento de 10%. Mas teremos um Brasil que vai crescer e recuperar sua margem de manobra fiscal para voltar a ter uma política redistributiva. Penso que essa volta do crescimento e a eleição de um novo presidente, ou presidenta, vai “acalmar” um pouco o país. Temos sinais de recuperação, mas não temos certeza, não temos uma bola de cristal. Existem muitas incertezas e é impossível fazer previsões. Muita coisa depende da campanha eleitoral, da eleição presidencial, das condições em que elas vão acontecer, e, claro, de quem será o vencedor. As coisas podem também dar errado. O cenário de recuperação e otimismo não é garantido.”

As incertezas são muitas, a começar pela situação do ex-presidente Lula…

“Há realmente muitos sinais preocupantes. O caso do Lula é um deles porque vemos que a justiça não é imparcial. Vemos o setor econômico que quer impedir, a qualquer custo, que o Lula seja candidato e presidente. Mas para escrever esse Atlas tentamos nos distanciar da atualidade, que é extremamente complicada em 2018. A obra cobre toda a história do Brasil e descreve as grandes tendências tentando dar uma perspectiva mais a longo prazo. Arriscamos um pouco na nossa análise, mas continuamos confiantes.”

Com tantas incertezas, deve ter sido um desafio atualizar o Atlas?

“Foi muito complicado. Mas a publicação tem poucas páginas e temáticas diretamente ligadas à atualidade e que dependem das eleições de 2018. A grande diferença em relação à primeira edição é a inclusão de uma página dupla sobre a corrupção. Esse tema é o grande acontecimento dos últimos anos e tínhamos que falar sobre isso.”

Qual análise você faz sobre o envolvimento do PT, que, quando estava no poder, foi justamente o partido que criou os instrumentos para facilitar a investigação dos casos de corrupção?

“Essa é uma história paradoxal. Foi o PT que deu muitos meios à Justiça e permitiu que ela funcionasse de maneira relativamente, mas não completamente, independente. Essa arma se voltou contra o PT. Ela permitiu a revelação de esquemas de corrupção importantes e inéditos no país. A análise que fazemos é que a corrupção é evidentemente um câncer para o país. Mas esse é um problema político que mostra a incapacidade do país em se reformar. A corrupção é um instrumento em um sistema político que não funciona mais e que, ao mesmo tempo, é muito difícil de ser reformado. As mesmas pessoas que se aproveitam dessa corrupção, votam as leis que devem reformar o sistema. Estamos numa espécie de círculo vicioso. Difícil ver como o Brasil poderá fazer essa famosa reforma política, da qual falamos há tantos anos, e que nunca foi para frente.

Então, você não está tão otimista assim?

“Nesse campo da corrupção e da reforma política, não estamos nada otimistas. A esperança vem da cresça na capacidade da sociedade brasileira de dar a volta por cima, de se reconstruir, mesmo se o sistema político é corrompido e está completamente paralisado. Mas há um outro Brasil. Tem a sociedade civil, as coletividades locais, as prefeituras, e a população brasileira, que não se interessa mais por política, mas é empreendedora. A sociedade civil demostrou ser extremamente ativa e criativa. Esse outro Brasil, muito distante de Brasília e da corrupção dos parlamentares, é dinâmico e fascinante de se observar."

Mas a corrupção não ameaça a governabilidade do país?

"Ameaça sim. Tem um grande número de projetos de lei que estão bloqueados ou nas mãos de lobbys poderosos, como a bancada ruralista, o famoso BBB (Boi, Bala, Bíblia), que tem muita influência no poder legislativo. Mas, insisto, o Brasil é um país imenso, com um sistema federativo que dá autonomia às prefeituras e aos Estados. Temos que ver o conjunto e relativizar o poder de nocividade dos homens políticos. Esse poder é grande no Brasil, mas o país não se resume a esses parlamentares corrompidos."

Como pôr fim a esse sistema de corrupção?

"É complicado. É o sistema político que deve ser reformado, e o modo de eleição dos parlamentares, em particular. Penso que a única solução é que uma eleição presidencial traga ao poder um nome novo, que disponha de um forte apoio da população e do parlamento. O novo dirigente poderia aproveitar de uma espécie de lua-de-mel para fazer reformas rapidamente, logo no início do mandato quando ainda tem bastante popularidade e apoio.

Pôr fim ao esquema de corrupção é complicado porque nesse sistema político um presidente nunca tem uma maioria clara na Assembleia e deve formar coalizões. É isso que explica o primeiro escândalo do Mensalão. Curiosamente, nos últimos anos, o único presidente que conseguiu aprovar reformas um pouco radicais é Michel Temer, que não foi eleito e não tem nenhuma legitimidade democrática. Mas ele tem uma maioria importante, formada pelos deputados que votaram o impeachment de Dilma. É um caso raro que, espero, possa se repetir em 2019, com um novo presidente que tenha uma grande legitimidade democrática. Por enquanto, não vemos quem poderia ser essa pessoa no cenário político brasileiro atual."

A candidatura de Lula é importante? Em caso de vitória, ele seria capaz de governar de novo o país?

“Penso que sim. Primeiro, a acusação que foi feita contra ele para o impedir de ser candidato não é muito séria, quando vemos o nível de corrupção do restante da classe política. Não há razões suficientes. Evidentemente, há outras suspeitas contra ele. Mas quase nada foi provado. Para a boa saúde da democracia brasileira, o Lula tem que ser candidato. Mas e se ele ganhar? Isso é outra coisa. Ele continua sendo um dos homens políticos mais populares do Brasil, mas também é detestado por muita gente. O ex-presidente já provou sua capacidade de formar coalizões e governar. No estado atual do Brasil, não há muitos políticos capazes de assumir essa ambição. Sim, Lula presidente não seria essa catástrofe que dizem. É impressionante ver como a opinião pública evoluiu em relação ao Lula. Os setores privados e o empresariado, em particular, o apresentam hoje como um perigoso radical de esquerda, enquanto que, durante seus dois mandatos, eles se favoreceram com o clima positivo nos negócios que reinava no Brasil. A opinião pública ficou mais conservadora nesses últimos anos, tanto que Lula aparece como um radical populista. Mas considero que, se ele for eleito, ele seja talvez o único capaz de bancar a reforma política."

A imagem do Brasil na França ficou muito arranhada com esses escândalos e crises?

A primeira edição do Atlas do Brasil, em 2013, teve uma boa recepção do público, impulsionada pelos grandes eventos esportivos que o Brasil sediou, com sucesso. Aliás, é interessante lembrar os discursos alarmistas sobre a incapacidade do país em organizar esses eventos. Hoje, o país vive um momento completamente diferente. A curiosidade do público francês continua. As pessoas têm dificuldade em imaginar a que ponto a crise é grave. Mesmo se a imagem do país se deteriorou, sua reputação de um país festivo, alegre, do futuro e com um forte potencial, persiste. Nós não tentamos nem passar uma imagem singular nem corrigir algumas percepções. Tentamos simplesmente dar algumas pistas objetivas para entender o país.”

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