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Julgamento de Lula "tem base mais política do que judiciária", diz historiadora francesa

Julgamento de Lula
 
Juliette Dumont, professora de História do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal) e presidente da Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa (Arbre). Arquivo Pessoal

No RFI Convida desta terça-feira (23), conversamos com Juliette Dumont, professora de História do Instituto de Altos Estudos da América Latina (Iheal) e presidente da Associação para a Pesquisa sobre o Brasil na Europa (Arbre). Ela comenta como os brasilianistas franceses veem o julgamento em segunda instância do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ocorre na quarta-feira (24) em Porto Alegre.

Para Juliette Dumont, não há dúvidas: "há uma consciência de que esse julgamento tem uma base mais política do que judiciária". A professora e pesquisadora preside a Arbre, associação sediada em Paris que reúne brasilianistas de toda a Europa e promove a pesquisa em ciências humanas através de seminários e simpósios.

Segundo ela, a associação acompanha os acontecimentos políticos do Brasil "para tentar compreender essa crise que não é só política, mas também é econômica, social e moral". Um dos objetivos dos debates que promove é analisar o papel do Poder Judiciário no Brasil, que segundo ela, "teatralizou sua atuação". "Seu papel está sendo de um protagonismo muito forte. O Judiciário se tornou o poder que assumiu o destino do Brasil", reitera.

Por isso, para a historiadora, o combate à corrupção - bandeira assumida pelo Judiciário brasileiro -, mostra que também há um "lado obscuro". "Estamos tentando explicar que esse combate à corrupção não é algo exatamente positivo e reflete uma decomposição do sistema político brasileiro."

Semipresidencialismo é "semi-solução"

Juliette Dumont acredita que uma prova da necessidade de uma reforma “profunda” do sistema político brasileiro é, segundo ela, a tentativa de desviar a atenção da opinião pública em um delicado momento no país com propostas como a do semipresidencialismo. A ideia vem sendo defendida pelo presidente Michel Temer e pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes.

"O semipresidencialismo é uma semi-solução. É uma resposta do PMDB e da direita brasileira que, por enquanto, não têm um verdadeiro candidato [para as eleições de outubro]. Então seria uma maneira de conservar o poder, sem dizer que se está negando a democracia e as eleições presidenciais", afirma.

De acordo com a historiadora, a crise das democracias representativas, protagonizada por boa parte dos países ocidentais atualmente, dificulta as projeções dos brasilianistas para o futuro. "Mas como são dinâmicas globais, as soluções também vão emergir globalmente", prevê. Como exemplo de fenômenos vividos em conjunto, ela cita a ascensão nas Américas e na Europa de movimentos conservadores e da extrema-direita - no Brasil, representada pela figura de Jair Bolsonaro.

Juliette Dumont destaca os encontros promovidos por movimentos e lideranças da esquerda brasileira, latinoamericana, norte-americana e europeia. "É ampliando esse diálogo que poderemos avaliar de maneira global os desafios deste século 21, tanto politicamente como economicamente. Se há uma expectativa é a de diálogo, para podermos enxergar um futuro e sair deste impasse", finaliza.


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