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Mídia brasileira mostra Lula como "pessoa que não lê"

Mídia brasileira mostra Lula como
 
A professora de Linguística Luzmara Curcino. RFI

O filósofo francês Michel Foucault dizia que os discursos atuam sob a forma de dispositivos de poder. Um poder que pode legitimar, ignorar ou até mesmo desqualificar os sujeitos representados, como nos explica a convidada desta quarta-feira (10) do RFI Convida, Luzmara Curcino, professora associada ao Departamento de Letras e no Programa de Pós-Graduação em Linguística da Universidade Federal de São Carlos e coordenadora do LIRE – Laboratório Interdisciplinar de estudos das Representações do leitor brasileiro contemporâneo.

Luzmara Curcino apresenta nesta quarta-feira (10) um painel chamado “Discursos sobre a leitura na mídia brasileira: uma análise das representações dos presidentes FHC, Lula e Dilma”, durante o Seminário Lire Le Brésil, no Instituto de Altos Estudos da América Latina, em Paris.

“O nosso objetivo é analisar esses discursos [da mídia brasileira] sobre a leitura. São os discursos que circulam no Brasil sobre o leitor brasileiro. Em nossas fontes de levantamento, jornais e revistas impressos, de grande circulação, constatamos a frequência com que apareciam referências ao perfil leitor de políticos brasileiros, particularmente dos ex-presidentes Fernando Henrique, Lula e Dilma”, conta a pesquisadora.

Segundo Luzmara, “Fernando Henrique Cardoso é representado como ‘leitor ideal’. Ele corresponde a esse discurso que temos sobre o que é ser leitor: quem lê livros, quem lê sempre, quem lê aquilo que se deve ler, do modo como se deve ler. FHC é representado tanto por imagens quanto por textos verbais exatamente como essa figura ideal dessa memória coletiva que a gente tem sobre o que é ser leitor”.

Recortes de classe social e de gênero evidentes

“O Lula será apresentado como ‘não-leitor’”, expõe a pesquisadora. “Uma das formas dessa representação, por meio de imagens, é a caricatura dele como analfabeto. A gente vai ter uma série de charges e fotomontagens que vão mostrá-lo, por exemplo, segurando um livro de cabeça para baixo. E quando se fala de Lula, é sempre pela lógica da negação, às vezes até pela dupla negação: ‘ele não é leitor, e também não pode ser leitor’”, relata a professora de Linguística.

Em relação à Dilma, “é curioso o modo como ela é representada”, diz Curcino. “Embora ela tenha a mesma formação institucional e acadêmica que Fernando Henrique Cardoso, ela é menos representada que ele, não tão positivamente quanto ele, e em geral de maneira bastante dissimulada. Uma outra especificidade na representação da Dilma são os estereótipos que já conhecíamos como a ‘mulher leitora’, um componente de gênero bastante importante. Os termos que a classificam como leitora são ambíguos: ‘detalhista', ‘lê linha por linha’, ‘devora livros’, ‘lê tudo que cai na mão’, ‘lê sem parar’, “sua leitura é frenética’, ‘ela lê como um vício’, vemos o eco da forma de descrição estigmatizada do perfil feminino de mulheres leitoras de romances”, explica a pesquisadora.

“Sem dúvida alguma existem componentes de classe social e de gênero na representação política destes três ex-presidentes na mídia brasileira. Essa é uma questão importante do funcionamento dos discursos na sociedade: entender como converter estes discursos a favor de um processo que combata a desigualdade social e não a promova. A ideia de apresentar, de discutir e de falar desses discursos, de analisá-los, no modo como se manifestam, seus enunciados em textos da mídia, têm uma ressonância importante na formação da opinião pública brasileira”, conclui Curcino.

Veja na íntegra a entrevista com a professora de Linguística Luzmara Curcino no link abaixo:


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