Ouvir Baixar Podcast
  • 15h27 - 15h30 GMT
    Flash de notícias 12/11 15h27 GMT
  • 15h06 - 15h27 GMT
    Programa 12/11 15h06 GMT
  • 15h00 - 15h06 GMT
    Jornal 12/11 15h00 GMT
  • 09h57 - 10h00 GMT
    Flash de notícias 12/11 09h57 GMT
  • 09h36 - 09h57 GMT
    Programa 12/11 09h36 GMT
  • 09h30 - 09h36 GMT
    Jornal 12/11 09h30 GMT
  • 15h27 - 15h30 GMT
    Flash de notícias 11/11 15h27 GMT
  • 15h06 - 15h27 GMT
    Programa 11/11 15h06 GMT
Para poder acessar todos os conteúdos multimídia, você deve instalar o plugin Flash no seu navegador. Para se conectar, você deve ativar os cookies nas configurações do navegador. O site da RFI é compatível com os seguintes navegadores: Internet Explorer 8 e +, Firefox 10 e +, Safari 3 e +, Chrome 17 e +.
Brasil

Documentário francês sobre crise política no Brasil é exibido em festival de Biarritz

media Em documentário, jornalistas francesas analisam como a destituição de Dilma Rousseff, eleita democraticamente por 54 milhões de brasileiros, pôde se efetivar facilmente. Reprodução de vídeo

O caos político que se instalou no Brasil com o início do processo de destituição da presidente Dilma Rousseff é tema de um documentário das jornalistas francesas Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux. “Brésil – Le Grand Bond en Arrière” (Brasil – O Grande Passo para Trás, tradução livre). A obra retrata as consequências do impeachment da líder petista para a sociedade brasileira e a chegada ao poder de uma classe política conservadora e dedicada a seus próprios interesses. O filme foi exibido no sábado (30), dentro da programação do Festival Biarritz América Latina 2017.

Daniella Franco, enviada especial a Biarritz

O documentário das duas correspondentes do canal de TV franco-alemão Arte começa retratando a emblemática votação na Câmara dos Deputados, em 17 de abril de 2016, pela destituição de Dilma Rousseff. As chocantes imagens dos deputados gritando xingamentos contra a presidente e votando “pela família, pelas esposas e por Deus - jamais em nome do povo ou do país” fizeram a volta do mundo, “apenas um ano e meio após sua eleição, apesar das 54 milhões de pessoas que confiaram nela [Dilma Rousseff] para um segundo mandato”, ressalta a narração do filme.

Em uma hora, Zingaro e Bonnassieux mostram um Brasil em frangalhos, polarizado, desmoralizado, exausto. Como símbolo da resistência ao novo governo, as jornalistas retratam a militância do escritor e humorista Gregório Duvivier, criador do coletivo Porta dos Fundos, cujos vídeos chegam a ultrapassar 20 milhões de visualizações na internet.

No documentário, Duvivier acompanha as jornalistas em boa parte da aventura de decifrar o fenômeno da destituição de uma presidente democraticamente eleita. O próprio ator entrevista Dilma Rousseff, que, lembra o filme, lutou em sua juventude contra a ditadura militar no Brasil e, décadas depois, como presidente, enfrenta forças igualmente perigosas. “Esse golpe tem outras características: é mais obscuro, mais falso, mais sinuoso do que um golpe militar, que é escancarado. Mas ele não é violento em alguns aspectos: ele não tira imediatamente os seus direitos, mas vai, pouco a pouco, tentar diminuí-los”, ressalta a líder petista.

Em seguida, as jornalistas analisam como a destituição de uma presidente “eleita democraticamente” pode se efetivar tão rápida e facilmente. Zingaro e Bonnassieux retratam uma justiça obcecada pela perseguição de políticos do Partido dos Trabalhadores e, principalmente, do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, “apesar de a corrupção se estender a todos os partidos”, diz o documentário. A cobertura parcial da grande imprensa, a ascensão da bancada ruralista e movimentos de resistência que surgiram após o impeachment de Dilma Rousseff, como as ocupações das escolas e grupos de mídia alternativos também são abordados no filme.

Governo Lula tornou a população “mais exigente”

Em entrevista à RFI, Zingaro contou que ela e Bonnassieux chegaram ao Brasil em 2010, para cobrir a primeira eleição de Dilma Rousseff, “no momento em que o país se tornava uma potência econômica graças a Lula”. “Quando chegamos, percebemos as consequências da política do petista, o forte entusiasmo da população com seu governo, que gerou e distribuiu riqueza, um acesso maior à educação e às universidades – programas que foram reforçados durante o governo de Dilma Rousseff. Mas essas mudanças transformaram também o comportamento da população, que se tornou “mais exigente”. E isso deu início às grandes manifestações contra o governo em 2014”, relembra.

Para a jornalista, não há outra forma de interpretar o impeachment de Dilma: “foi um verdadeiro golpe de Estado, voilà!”. A parcialidade da justiça e da imprensa no processo de destituição marcaram a impressão de Zingaro sobre aquele momento no Brasil: “a responsabilidade da crise política, econômica e da corrupção foi atribuída apenas ao PT e, realmente, a grande mídia participou fortemente deste processo” – uma situação que Zingaro classifica como “escandalosa”. “Há uma classe dominante que faz absolutamente tudo o que quer. Ou seja, uma presidente foi destituída para que a corrupção continue, e para que essa classe continue fazendo o que quer”, reitera.

Bancada ruralista mostrou do que é capaz

De tudo o que observou e cobriu no Brasil, o que mais chocou a correspondente da Arte foi a existência e a atuação da bancada ruralista. “Percebemos que esse poderoso grupo não estava pronto para deixar de lado suas regalias. Enquanto eles eram beneficiados durante o governo Lula, tudo estava bem. Mas quando Dilma Rousseff quis baixar as taxas de juros do Banco Central e que eles perceberam que seriam prejudicados, mostraram do que são capazes: fazer tudo o que querem, por seus próprios interesses e não pelo Brasil”, completa.

No documentário, integrantes da bancada ruralista, mesmo diante de câmeras e gravadores, não escondem em nenhum momento das jornalistas que o entrevistam suas verdadeiras intenções no governo. “A agricultura é a base do país, e se você não colocar um ministro que fale a mesma língua que a frente parlamentar, ele não fica muito tempo. Nem o ministro, nem o presidente”, diz, rindo, o deputado federal Nelson Marquezelli (PTB) no filme. “É desta forma que o Brasil é governado!”, se indigna Zingaro.

Para a jornalista, a situação é complexa e não há perspectivas imediatas de melhoras. “O pior é que não existe apenas a bancada ruralista como força dominante, há também os evangélicos que têm muito poder. Grave também é essa espécie de populismo de empresários bilionários que se tornam governantes, à la Donald Trump, como o prefeito de São Paulo [João Dória], por exemplo. E todos esses movimentos mostram que o Brasil não toma o bom caminho”, lamenta.

Nos seis anos que Zingaro e Bonnassieux passaram no Brasil cobrindo as reviravoltas da política, o surgimento de novas vozes de resistência as inspiram e as aliviam, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Teto (MTST), as mídias alternativas de informação e as organizações estudantis. “Essas novas forças políticas começam a aparecer e a se organizar, como o PT fez no início dos anos 80. São eles que podem criar uma verdadeira reação da sociedade e produzir mudanças”, ressalta a jornalista.

"Brésil – Le Grand Bond en Arrière", de Frédérique Zingaro e Mathilde Bonnassieux, pode ser assistido na plataforma YouTube.

Sobre o mesmo assunto
 
O tempo de conexão expirou.