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Muito antes de Woody Allen, escritor brasileiro voltou no tempo em Paris

Muito antes de Woody Allen, escritor brasileiro voltou no tempo em Paris
 
O escritor carioca Marco Guimarães foi entrevistado pela RFI, em Paris, nesta quarta-feira, 5 de abril de 2017. RFI

Paris é fundamental na obra do escritor carioca Marco Guimarães. Há dez anos, ele divide a vida entre a cidade maravilhosa e a capital francesa, cenário de três de seus quatro romances. E Paris ainda ajuda o brasileiro a "salvar os dias que vivemos hoje no Brasil, mas não entendemos".

Marco Guimarães, que é professor de medicina aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), começou a escrever crônicas em 1997. Ele tem quatro romances publicados no Brasil. "Um escritor e seu fantasma em Paris", de 2007, "Meu pseudônimo e eu", de 2012, publicado pela Octavo, e "O estranho espelho do Quartier Latin", de 2016, pela Atlântica, são ambientados na capital francesa. Por enquanto, a única exceção é a "A bicha e a fila", romance escrito a quatro mãos com o escritor angolano Manuel Rui e que se passa entre o Rio e Luanda.

Ao invés da questão por que Paris inspira a sua literatura, Marco Guimarães prefere a pergunta por que Paris o escolheu? Para responder, ele cita o italiano Umberto Eco: "Nós autores não somos um fonte inesgotável dos significados que estão dentro de uma obra. Não há uma intencionalidade para escrever aquilo que escrevemos. Eu fiz uma digressão (dessa afirmação do Eco) e acho realmente que também não escolhemos, que não há intencionalidade na escolha da ambiência para escrever o seu romance. É por isso que digo que é a cidade que nos escolhe". Mas a história cultural literária e cultural ajuda: "Cada pedrinha de Paris parecer respirar literatura. Ainda que as coisas tenham mudado um pouco, aquela história dos séculos 19 e 20, dos grandes escritores, ainda persiste."

E entre todos os bairros de Paris, Marco Guimarães prefere o histórico Quartier Latin, onde os personagens criados pelo carioca vivem e perambulam, entre vivos e mortos. "Eu moro no Quartier Latin. Realmente, há muitas histórias no bairro, inclusive a de uma bruxa que lá viveu no século 17, parece. Talvez seja por isso que meus livros estejam muito ambientados dentro do realismo fantástico."

Realismo fantástico em Paris

Nos romances parisienses de Marco Guimarães o real e irreal estão sempre presentes, levando o leitor a hesitar entre realidade e fantasia. Em uma história, um jornalista racional vê três imagens de seu rosto no espelho e começa uma investigação que o leva a uma trajetória inesperada. Em outra, um escritor vê seu romance sendo lançado por um impostor e cruza com os personagens que inventou na fila de autógrafos.

O primeiro livro, "Um escritor e seu fantasma em Paris", que foi lançado inicialmente com o título “De escritores, fantasmas e mortos” e assinado por um pseudônimo, tem uma história que lembra o filme Meia-Noite em Paris de Woody Allen: um aprendiz de escritor cruza com Proust, Joyce, Gertrude Stein, Fitsgerald ou Ezra Pound, nos jardins ou ruas da cidade. O romance é anterior ao filme, mas Marco Guimarães descarta, rindo, qualquer plágio: "Coitado! Com certeza, ele nem conseguiu ler meu livro. Seria a teoria da sincronicidade. As pessoas pensam algumas coisas semelhantes em épocas distintas".

Ainda não traduzido para o francês

Apesar de estar na França, de ter sua obra reconhecida por especialistas, de já ter dado palestras na Sorbonne, nenhum dos romances de Marco Guimarães foi publicado em francês. Apenas o livro "Meu pseudônimo e eu" foi lançado na Croácia e outros livros publicados em países africanos. "Acredito que as editoras francesas querem mais autores brasileiros que falam sobre o Brasil", analisa o escritor.

Paris e Rio, por qual cidade o coração do carioca bate mais forte? "Tenho laços no Rio de Janeiro, nasci lá e estou muito preso à cidade. Mas tenho que reconhecer que aqui me faz esquecer um pouco os problemas de lá. Clarice Lispector disse uma coisa que gosto muito. Ela diz que quando você escreve, você salva a alma perdida, salva o dia que vive e que não entende. Acho que aqui em Paris, talvez, eu esteja salvando esse dia que eu nunca entendo. Porque o que mais se vê no Brasil hoje são dias que a gente vive e não entende, não é mesmo? Eu consigo aqui salvar um pouco essa história, junto com a literatura".


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