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Brasil

Baía de Guanabara: poluição endêmica ameaça os Jogos Olímpicos do Rio

media Eterno cartão postal do Rio de Janeiro, a poluição da Baía de Guanabara atinge níveis ameaçadores às vésperas dos Jogos Olímpicos. Getty Images

Problema enfrentado pela cidade do Rio de Janeiro há mais de seis décadas, a poluição concentrada da Baía de Guanabara ameaça agora não apenas os habitantes da cidade, mas também centenas de atletas que competirão em suas águas durante os Jogos Olímpicos, cuja abertura oficial acontecerá no próximo dia 5 de agosto na Cidade Maravilhosa.

Annie Gasnier, jornalista da RFI

Nem mesmo o investimento de capital estrangeiro parece ter contribuído para uma solução definitiva do problema: em 1991, o Japão chegou a participar com U$ 800 milhões por meio do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), destinados aos trabalhos de despoluição do local, encorajados por governos cariocas de todos os partidos, mas sem resultado.

“Até a poluição é rentável por aqui”, reclama o chofer de táxi Wallace Ribeiro. “A baía foi oficialmente despoluída umas dez vezes! Eles prometeram que ela estaria limpa para os Jogos Olímpicos, mas eu não sei se serão as Olimpíadas de 2016, 2020 ou 2024, ironiza. Mesmo se as praias cariocas mais famosas, como Copacabana e Ipanema, encontram-se do lado do Atlântico, cujas marés ajudam a limitar a retenção da poluição, a Baía de Guanabara perpetua-se como uma vítima endêmica seja do descaso dos governantes, seja da falta de consciência da população.

As consequências da omissão

“A baía de Guanabara já agoniza há mais de 60 anos, e de uma forma generalizada, nos últimos 20 anos. Investiram centenas de milhões de dólares e efetivamente isso não reverte em nenhuma melhoria. Além disso, a baía de Guanabara degradada é um grande negócio, porque de tempos em tempos o governo brasileiro pega dinheiro lá fora para fazer uma recuperação que nunca acontece. Os bancos internacionais continuam financiando e a baía continua podre. Parece que a sociedade, ou boa parcela dela, está satisfeita”, ataca Mário Moscatelli, biólogo, mestre em Ecologia e especialista em recuperar áreas degradadas. “Os políticos na verdade são um reflexo da sociedade. Se a sociedade é omissa, o político também será", completa.

Para Marco Antônio, responsável pelo Clube de Regatas de Niterói, a solução do problema deve passar essencialmente por um processo de educação da população. “Além do meu grupo de canoagem, faço parte de um grupo chamado Baía Viva. Tínhamos a faca e o queijo na mão, mas as promessas políticas não foram cumpridas e hoje temos apenas 20% da baía limpa. Morei em países que também sediaram Olimpíadas, como o Canadá, e o legado foi incrível. É muito lixo, óleo de navio devido à lavagem dos tanques... Colocar barcos para limpar resíduos superficiais da água é fácil, difícil é educar as novas gerações para o futuro”, afirma.

Contribuem também para o agravamento da situação os mais de 45 rios e córregos que descem da Serra do Mar, trazendo todo tipo de sujeira e detritos, domésticos ou industriais. Além disso, uma série inacreditável de objetos e móveis é constantemente encontrada na baía: sandálias, pneus, garrafas Pet, privadas, cães mortos, e a descoberta mais sinistra dos últimos tempos: um braço humano. “As canalizações separam o esgoto das águas da chuva apenas em teoria”, explica David Lee, professor e pesquisador responsável pelo departamento oceânico da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ). “Tudo acaba se misturando, sobretudo em dias de tempestade”, destaca.

Soluções mais baratas e menos ortodoxas

“Até agora, os programas de remoção de resíduos poluentes foram um fracasso, inadequados. Enormes gastos para poucos resultados”, ataca a engenheira química Fátima Guadalupe Meniconi, um dos 77 pesquisadores universitários que assinam um estudo publicado recentemente sobre a Baía de Guanabara. David Lee concorda com a engenheira: “O programa de despoluição da baía, que já custou até agora cerca de U$ 1 bilhão, não deu certo porque tem se baseado em soluções ortodoxas, que preconizavam uma cidade formal e o Rio de Janeiro é, em grande parte, cerca de 70%, uma cidade informal, composta de comunidades de baixa renda, ou instaladas em cima de morros ou baixadas que não possuem rebaixamento para o esgoto correr. Precisamos de soluções inovadoras, para aprender com os erros”, detalha.

Para o pesquisador, limpar os rios seria altamente benéfico e traria inclusive mudanças visuais perceptíveis. “O processo demoraria em torno de dois a três anos e custaria cerca de R$ 8 milhões, uma quantia relativamente pequena se comparada ao que já foi gasto para limpar a Baía de Guanabara. Seria eficiente porque estaríamos aproveitando a concentração dessa sujeira nos rios e tratando-a localmente, antes mesmo de chegar à baía. Estaríamos instalando verdadeiros filtros na boca dos rios e isso seria perceptível na maneira como a sociedade mede a eficácia das infraestruturas urbanas de saneamento básico”, finaliza Lee.

A decepção dos moradores

Além de um problema de saúde pública e de economia ambiental, a poluição de um dos principais cartões postais do Rio de Janeiro vem afetando diretamente a autoestima dos moradores da cidade antes maravilhosa.

“Tivemos esperança durante alguns anos de ver a Baía de Guanabara limpa de novo. Hoje a situação está triste. Fico triste de não poder levar meus alunos para um lugar que poderia ser igual ao Caribe. O descaso e a roubalheira fizeram com que o local se pareça com um esgoto. Muitos clientes do meu negócio de canoagem já sentiram mal-estar, micoses de pele e doenças intestinais, entre outros problemas”, afirma o professor de canoagem Marco Antônio, de Niterói. “Para mim o pior é o óleo, não há como desviar dele, porque fica impregnado na água”, explica.

Carlos Jarma, morador de Botafogo, chegou a acreditar que o problema seria minimizado com a chegada dos Jogos Olímpicos. “A gente se agarra a qualquer expectativa. Nossas autoridades não são competentes. Até posso acreditar que se tenha tentado realizar alguma melhoria aqui, mas nada se mostrou eficaz. A verdade é que não há uma responsabilidade cidadã. Na conta de água que pagamos, vem embutida a taxa de esgoto e posso lhe dizer que é caríssimo”, finaliza.

"Meu conselho para os atletas que disputarão os Jogos Olímpicos do Rio é se vacinarem contra hepatite do tipo A e usarem máscara durante a competição, devido ao risco de contraírem doenças como hepatite, conjuntivite, otite, gastroenterite e infecções generalizadas provenientes de bactérias, vírus e protozoários de veiculação hídrica", explica o biólogo Mário Moscatelli.

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