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Brasil

Movimento Ocupa Funai denuncia genocídio e expulsão de indígenas

media Movimento Ocupa Funai em Brasília ISA

Indígenas de diversas etnias ocuparam nesta quarta-feira (13) diversas sedes da Funai (Fundação Nacional do Índio) pelo Brasil, em protesto contra a indicação do general do Exército Franklimberg Ribeiro de Freitas para a presidência do órgão.

Batizado de Ocupa Funai, o movimento também é motivado pela crescente violência contra os povos indígenas do Brasil, com assassinatos, agressões e expulsão de terras por fazendeiros, o que tem chamado a atenção da comunidade internacional.

"Esse movimento surge de uma grande insegurança e insatisfação das organizações indígenas e dos próprios servidores da Funai pela indefinição do que vai acontecer com o órgão e de quais são as propostas do governo e, principalmente, pela indicação de um militar que está muito distante do ideal para a fundação", disse, em entrevista à RFI, Adriana Ramos, coordenadora-adjunta do programa de política e direito do ISA (Instituto Socioambiental).

Movimento Ocupa Funai, em Brasília ISA

A atriz e militante Andreia Duarte, que acaba de estrear uma peça-denúncia sobre o genocídio de índios no Brasil, considera o movimento "importantíssimo". "Fico entusiasmada com a força e a militância dos povos indígenas, de eles irem lá, de eles fazerem. Mas não sei até que ponto o governo atual vai se incomodar com a Funai ocupada. Já é um órgão sucateado, ao qual não dão atenção", avalia.

Mas ela espera que a luta continue. "O melhor é manter uma pauta única, porque cada etnia tem suas pautas, de acordo com a sua realidade, com o seu contexto. Então o mais importante é focar em objetivos comuns: o fortalecimento da Funai e a luta contra o genocídio", disse em entrevista à RFI.

Os manifestantes pedem a indicação de um representante indígena para a presidência do órgão. Natanael Vilharba, líder dos guarani-kaiowá, diz que o governo tem "desrespeitado os índios". "Nós nos opomos às mudanças feitas na Funai. O governo tem tentado desestruturar o órgão e a nossa luta."

Protestos durante o Ocupa Funai ISA

Em Brasília, os manifestantes levaram ao Ministério da Justiça documentos com denúncias de "genocídio" e "impactos ambientais da usina de Belo monte", além de cobranças de "promessas ainda não cumpridas pelo governo". Estavam presentes as etnias pataxó, jê, xakriabá, javaé, karajá, kamaiurá e guarani-kaiowá - esta uma das mais atacadas no país.

Campanha internacional contra o genocídio

A crescente onda de agressões e de assassinatos de indígenas no Brasil tem ganhado repercussão nas mídias sociais, na imprensa internacional e em organizações no exterior. A ONG Survival International, que defende os povos autóctonos ao redor do mundo, lançou uma campanha para impedir a destruição das tribos brasileiras, aproveitando a atenção do mundo voltada para os Jogos Olímpicos do Rio.

"Povos indígenas têm sido gradualmente aniquilados, por séculos, nas Américas. Isso tem que acabar. Em vez de ver as tribos como obstáculos inconvenientes ao progresso, o Brasil deve reconhecer que elas são uma parte intrínseca de sua nação moderna e merecem ter seus direitos territoriais protegidos para que possam sobreviver e prosperar. Independentemente da crise política, esses são assuntos cruciais que devem ser levados a sério. Todos os olhos estão voltados para o Brasil, que se prepara para sediar as Olimpíadas, e está nas mãos dos brasileiros assegurar que a história olhe favoravelmente para sua geração", afirmou Stephen Corry, diretor da Survival.

Índios guaranis-kaiowas no Mato Grosso do Sul Divulgação

A campanha, batizada de "Pare o Genocídio no Brasil", foca na proteção de tribos isoladas da Amazônia, como os kawahiva, no fim da violência e roubo de terra dos guaranis no Centro-Oeste e no abandono da PEC 215, uma proposta de emenda constitucional que enfraqueceria os direitos territoriais indígenas.

Para Adriana Ramos, do Instituto Socioambiental, "esse tipo de campanha é importante porque o Brasil precisa sentir que isso é motivo de vergonha". "Se a gente não consegue que as autoridades se mobilizem em função das denúncias que já foram feitas e dos fatos estampados diariamentes nos jornais, a comunidade internacional pode colaborar mostrando ao governo brasileiro que a situação é inaceitável".

Despejo de terras ancestrais

Recentemente, a Survival divulgou um vídeo que mostra casas de uma comunidade indígena no Mato Grosso do Sul, estado com alto índice de violência contra os índios, sendo destruídas por um trator. A expulsão empurrou os guaranis apy kay, cujas terras ancestrais foram destruídas pela agricultura em escala industrial, para a beira de uma rodovia. Quase 100 policiais fortemente armados despejaram a comunidade.

Índios são expulsos de suas terras no Mato Grosso do Sul

A líder indígena Damiana Cavanha denuncia o despejo, insistindo no direito de seu povo em defender suas vidas, proteger suas terras e determinar seu próprio futuro. "Ninguém aceita isso. Eu vou ficar aqui, é meu direito. Nós também temos direitos. Não é só branco que tem direito, os índios também têm direitos. Quantas pessoas já morreram? Quantas que a usina de São Fernando e os pistoleiros mataram? Deixe-nos ficar aqui, nós temos nossa tekoha (terra ancestral), e eu vou voltar à minha tekoha."

Adriana Ramos acha que houve um recrudescimento da violência "pela total ausência do estado em garantir os direitos dessas comunidades e por ele não se colocar como defensor da Constituição". "Alguns parlamentares, inclusive, estimulam os fazendeiros a se armarem para defender seus territórios contra a demanda dos povos indígenas. O Brasil é campeão do triste ranking de assassinatos de defensores do meio ambiente e de territórios, e a morte dos povos indígenas faz parte desse ranking", completa.

Jovem índio baleado na segunda-feira no MS Cimi

Ela lembra outro caso de violência no Mato Grosso do Sul, na segunda-feira (11), quando homens armados em quatro caminhonetes e um trator atacaram violentamente os indígenas guarani-kaiowá acampados na terra demarcada Dourados-Amambaipeguá, no município de Caarapó (MS), mesmo local onde foi assassinado o agente de saúde Clodiodi de Souza no mês passado.

Três pessoas foram atingidas por tiros de armas de fogo: um adulto de 32 anos e dois jovens, um de 15 e outro de 17 anos. Um deles está em estado grave. "Como o governo não repudia esses ataques e não toma as atitudes devidas, ele permite que os ataques se repitam. E o que aconteceu foi isso: uma mesma comunidade, que já havia sido atacada, que supostamente deveria estar sob vigilância da Força Nacional, foi atacada novamente", lamenta Adriana.

Para ela, o termo genocídio é o mais adequado para definir a situação. "Não temos como reconhecer de outra forma o tipo de violência propositalmente direcionado aos povos indígenas e que tem o claro objetivo de limpá-los do mapa por interesses econômicos e de apropriação de terras. Vivemos hoje o que vivemos nos anos de colonização do país", afirma a coordenadora do ISA.

Arte como denúncia

A atriz e militante Andreia Duarte, que morou durante cinco anos na comunidade indígena kamayura, no Alto Xingu (MT), estreou recentemente em São Paulo a peça "Gavião de Duas Cabeças", que denuncia o genocídio e a situação deplorável dos povos autóctonos brasileiros.

"A obra é a síntese da minha experiência de militante da causa indígena há 16 anos e da minha convivência com os kamayuras. Meu desejo principal era falar sobre a alteridade, da relação com o outro e das questões políticas relacionadas com a  realidade indؙígena, que são, ao mesmo tempo, atuais e antigas", explica a artista à RFI.

Cena da peça "Gavião de Duas Cabeças" Divulgação

Para ela, "as pessoas nao enxergam nem conhecem as etnias indígenas no Brasil". "Quero mostrar também a questão da terra, dos discursos antagônicos da bancada ruralista e dos indígenas."

A inspiração da obra é o mito indígena do gavião de duas cabeças. Se a ave mata o espírito do morto, ele é esquecido. Essa metáfora norteia a montagem, na qual a atriz empresta seu corpo como um documento oral-visual de resistência poética.

Em cena aparecem as figuras opostas de uma representante do agronegócio e de uma mulher indígena, com a atriz questionando a sua própria experiência de vida. O público é convidado a refletir sobre um genocídio validado por discursos hegemônicos e por leis que infringem os direitos adquiridos dos povos indígenas.

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