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Brasil

Exilados na ditadura analisam risco de “golpe civil” no Brasil

media O comerciante aposentado Hamilton dos Santos questiona o fato de que escândalos envolvendo Aécio Neves foram pouco investigados. Arquivo pessoal

Há 30 ou 40 anos, os rumos do Brasil os afastaram do país natal – escolheram a França, a Alemanha ou outro lugar que os acolhesse como refugiados políticos, em plena ditadura militar. Enquanto uns romperam para sempre os vínculos com o país, outros jamais conseguiram se desconectar das notícias que vêm do outro lado do Atlântico – e é com preocupação que eles acompanham a crise política brasileira, incluindo o reforço da possibilidade de impeachment da presidente Dilma Rousseff, os últimos desdobramentos da operação Lava Jato e o cerco se fechando contra Lula.

As consequências dos ânimos acirrados dos pró e anti governo são um traço em comum apontado pelos ex-exilados na França ouvidos pela RFI Brasil. A pesquisadora Angelina Peralva, socióloga da Universidade de Toulouse, acha que, com tanta “polarização estéril entre petralhas e coxinhas”, a instabilidade política só aumenta e a discussão dos verdadeiros problemas de fundo do país - a crise do sistema político-partidário e a recessão – fica para trás.

A socióloga Angelina Peralva nota que, para poder funcionar, a Justiça se apoia na opinião pública - por isso, promove vazamentos de informações. ifhc.org.br

“A minha impressão é de que estamos diante de um jogo de xadrez, em que poucas das questões de fundo, as mais importantes, são debatidas, e ninguém sabe a solução que vai ser encontrada para essas questões. É como se o simples impeachment da presidente pudesse resolver essa crise de fundo”, observa a ex-militante estudantil, que foi presa e torturada em duas ocasiões na década de 1970, no Brasil e no Chile.

Para ela, chegou-se a um esgotamento do sistema herdado da Constituição de 1988, que resultou na fragmentação desmedida dos partidos - como apontou recentemente o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. “Há uma debilidade extrema do sistema político-partidário brasileiro atual e cada jogador avança uma peça, mas sem se importar com onde as coisas vão dar.”

Tensão atinge até famílias

O psicanalista Luiz Eduardo Prado de Oliveira, diretor de pesquisas da Universidade Paris 7 Denis Diderot, observa que uma amostra dessa polarização é que, na medida em que as investigações da Laja Jato e o movimento de destituição de Dilma avançaram, até as relações familiares e entre os amigos se deterioraram. “As pessoas brigam demais, se xingam demais”, constata. Questionado sobre se identifica semelhanças com o clima pré-golpe militar, Prado de Oliveira relata: “Há uma angústia e uma incerteza muito grandes sobre o que pode acontecer, uma enorme falta de perspectiva sobre como vai se resolver o problema da corrupção crassa no Brasil e das desigualdades na distribuição da renda, que continuam violentíssimas”.

Neste contexto, a menção de uma possibilidade de golpe no Brasil divide os ex-exilados. O ex-comerciante Hamilton dos Santos destaca que, em 2016, as condições para um golpe de Estado como o que ocorreu em 1964 não existem mais – no entanto, ele vê um movimento de força política entre a oposição, a Justiça e a Polícia Federal para “destituir a presidente e retornar ao poder”.

“Não tenho nenhuma dúvida de que o interesse dessas pessoas é derrubar o governo, custe o que custar ao país. Estão obcecados com essa solução”, afirma o hoje aposentado, que, sentindo-se perseguido pelo regime militar, fugiu do país em 1969.

Justiça seletiva

Leitor assíduo dos desdobramentos da crise, Santos tem a impressão de que o único partido investigado é o PT e o único líder na mira da Justiça é o ex-presidente Lula. “Enquanto uma pessoa que lutou pela democracia no Brasil, eu estou preocupado com a aventura que se está tentando fazer no país. Para mim, um presidente eleito que seja destituído sem causa justa é um golpe. É um golpe sob uma forma jurídica, parlamentar, mas é um golpe, ao romper o processo democrático que se vivia no Brasil até agora.”

O psicanalista Luiz Eduardo Prado de Oliveira lembra que, na França, o ex-presidente Nicolas Sarkozy foi detido para depoimento e ninguém reclamou da atuação da Justiça. amazon.fr

Assim como Peralva, Prado de Oliveira defende uma Justiça isenta e saúda os esforços da Lava Jato em combater a corrupção, mas questiona o fato de presidentes anteriores não serem alvos de investigações tão minuciosas. O psicanalista percebe que o PMDB, herdado dos anos da ditadura, “guardou o ranço dessa época”, com práticas de corrupção e autoritarismo que se mantiveram. Ele não descarta a possibilidade de um golpe civil.

Comparações com outros golpes recentes

“Sempre existe uma possibilidade de golpe. Não há nenhuma razão para crer que o destino de Lula poderia ser diferente do destino de outros líderes populistas em grandes países do terceiro mundo, como o que aconteceu com o Egito recentemente, por exemplo”, analisa, referindo-se ao golpe de Estado que derrubou o presidente egípcio Mohamed Mursi, um ano e meio depois de ser eleito pelas urnas.

Santos prefere evocar o que ocorreu em Honduras e no Paraguai, que, respectivamente, tiveram um golpe militar em 2009 e o impeachment-relâmpago do presidente em 2012. “Todo o cerco que está se criando resulta no enfraquecimento do governo, e, com esse enfraquecimento, cada vez mais essas forças da oposição estão avançando”, alerta o aposentado, que deixou o Brasil aos 22 anos. “No processo democrático, se ganha nas eleições. Se alguém força a barra para tirar o governo, depois de ter perdido as eleições, é bastante preocupante, principalmente em um país que mal acabou de viver 25 anos de ditadura, como o Brasil”, sublinha.

O clima de polarização política no Brasil faz a socióloga Angelina Peralva se recordar do período da ditadura. Passados mais de 40 anos, no entanto, a professora avalia que hoje não há um contexto de golpe. “Os ministros militares já fizeram declarações nesse sentido. Quem daria um golpe em um país como o Brasil, hoje, a economia mais importante da América Latina? Na minha cabeça, é uma coisa inimaginável”, afirma. “Mas não dá para continuar nessa crise política e, por causa disso, estar paralisado para enfrentar a crise econômica. Terá de haver uma solução e é isso o mais difícil de se imaginar atualmente.”

“O que me deixa mais triste é que parece que o Brasil nunca sai de alguma crise. O país não consegue se estabilizar em uma posição de desenvolvimento e democracia e, mais uma vez, está perdendo a vez de ocupar o lugar que deveria no cenário mundial”, resume Prado de Oliveira.
 

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