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Terra de exílio para brasileiros, França também foi próxima do Regime Militar

Terra de exílio para brasileiros, França também foi próxima do Regime Militar
 
General de Gaulle, presidente da França à época do golpe no Brasil Getty Images

A França foi destino de exílio brasileiro logo no início da República, com Dom Pedro II escolhendo Paris para passar seus últimos anos de vida depois de deposto. A ditadura inaugurada pelo Golpe de 1964, que nesta semana completa 50 anos, tornou novamente a capital francesa uma terra atraente para perseguidos políticos. O que não impediu o governo francês de manter relações com o Regime Militar.

Uma análise da postura de governo e sociedade franceses em relação aos brasileiros que começaram a chegar em 1964 revela uma situação ambígua. Se, por um lado, estes exilados encontram uma ampla colaboração dentro de setores da sociedade local – principalmente os ligados a movimentos de esquerda –, por outro, precisaram lidar com a vigilância do governo Charles de Gaulle e seus sucessores da década de 70. A relação com a ditadura, que começou tímida sob De Gaulle, chegaria anos depois ao ponto de militares franceses serem acusados de dar aulas de tortura aos seus pares brasileiros, ensinando técnicas desenvolvidas durante a Guerra da Argélia (1954 – 1962).

“É um total paradoxo”, afirma Rodrigo Nabuco de Araújo, pesquisador da Universidade de Toulouse Le Mirail e especialista em diplomacia militar Brasil/França. Segundo ele, a escolha da França como local de exílio por brasileiros era muito mais inspirada em referências intelectuais dos jovens militantes – como Sartre e o existencialismo – do que na realidade. “Uma coisa era política da França, outra coisa era a imagem do país. Na metáfora do lobo, seria como esconder-se na toca do lobo. Isso mostra que de fato a relação entre militares brasileiros e franceses era muito discreta, o suficiente para não ser entendida como tal pelos militantes revolucionários brasileiros de esquerda”, resume o pesquisador.

JK na primeira onda de exilados

A influência da teoria militar francesa nos brasileiros é anterior ao golpe. A Doutrina da Guerra Revolucionária e as guerras coloniais tiveram forte repercussão no meio dos oficiais de alto e médio escalão do país. Um grupo de militares da Escola Superior de Guerra que viria a constituir o núcleo inicial do regime, de gente como o marechal Castelo Branco, era inclusive chamado de “Grupo da Sorbonne”.

A França não manifesta apoio ao novo governo brasileiro de imediato, como fez os Estados Unidos, mas leva apenas uma semana para fazê-lo. Uma viagem oficial de De Gaulle ao Brasil, agendada ainda sob o governo Jango, foi mantida para outubro. A consequência foi uma relação próxima, nos meses subsequentes ao golpe e precedentes à visita, entre adidos militares franceses no Brasil e alguns órgãos de segurança que viriam a se tornar os principais aparatos de repressão da ditadura, como o SNI. O mundo vivia sob o espectro do assassinato de Kennedy e a visita de De Gaulle inspirava cuidados com a segurança.

Ao mesmo tempo, a primeira onda de exilados brasileiros começava a desembarcar em Paris, a maioria políticos que tiveram seus direitos políticos cassados, como Juscelino Kubitschek. Vigiado e espionado por autoridades francesas, o ex-presidente vive um cotidiano “infernal”, nas palavras de seu biógrafo Ronaldo Costa Couto, ao ponto de JK jamais ter retornado à França, país pelo qual era “apaixonado” antes do exílio.

Aulas francesas de tortura

A segunda leva de exilados brasileiros vem na sequência do AI-5, em 1968, esta com perfil mais heterogêneo, de pessoas que não necessariamente exerciam cargos políticos, mas com boa formação intelectual. Este seria o grupo que sofreria maiores dificuldades financeiras, precisando recorrer a trabalho menos qualificados para se sustentar. É neste momento que começam os dilemas franceses entre honrar a tradição de terra de exílio e manter boas relações econômicas com os militares brasileiros e o seu promissor “milagre econômico”. O país recebe os exilados, embora viva o clima da Guerra Fria. Ser comunista, aos olhos do ministério francês do Interior, “não era lá uma boa coisa”, segundo o historiador francês Denis Rolland.

Isso explica os interrogatórios em que estavam presentes, lado a lado, as polícias brasileira e francesa. Segundo Nabuco de Araújo, em território francês, a colaboração não ia além dos interrogatórios. “Mas no Brasil, ia muito além disso”, afirma o pesquisador. “A presença militar francesa no Brasil não só aumentou, como os laços se estreitaram por iniciativa do governo brasileiro, que queria aproveitar o conhecimento francês sobre guerra revolucionária, que era um dos pontos-chave do golpe de Estado no Brasil”.

A colaboração atingira seu auge no governo Valéry Giscard d'Estaing, nos anos 70, quando especialistas franceses que tinham aplicado a tortura na Guerra da Argélia teriam sido encarregados de instruir oficiais brasileiros. O general do exército francês Paul Aussaresses, acusado de comandar a tortura na Argélia, é nomeado adido militar no Brasil em 1973 e se torna bastante próximo do general João Baptista Figueiredo. Em seguida, começa a dar aulas no Centro de Instrução de Guerra na Selva, em Manaus.

Atendimento clandestino a torturados

Um dos brasileiros a passar pelo interrogatório das duas polícias em Paris foi o psicanalista Luiz Eduardo Prado de Oliveira, um dos poucos exilados que está até hoje radicado na França. Secretário da organização de esquerda Dissidência Universitária, Oliveira foi professor de teoria marxista de parte do grupo que sequestrou o embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick. Ele foi contrário à operação, mas sabia que o seu codinome Camilo viria à tona nos porões da ditadura após o grupo ter sido capturado. Tratou de sair do Brasil em 1969, passou por Inglaterra e Argélia, até se estabelecer em Paris, no momento da terceira onda de exilados, principalmente devido ao golpe no Chile, em 1973.

Enquanto o Partido Comunista italiano, por exemplo, era hostil aos exilados brasileiros – considerados radicais e “guevaristas” –, na França, grupos como a Liga Comunista e a Esquerda Proletária se dispunham a dar suporte aos recém-chegados.

Segundo Prado de Oliveira, apesar dos interrogatórios, sempre contou com a solidariedade francesa. “Aqui na França, eles sempre consideraram terrível o que se passava no Brasil, inclusive a direita local. Passei por dois interrogatórios longos, de 10, 12 horas, pela polícia francesa, na presença de policiais brasileiros. Eles tinham relações íntimas, o que não quer dizer que estavam de acordo. Faziam o que a diplomacia mandava fazer, mas os policiais franceses diziam que o que acontecia no Brasil era uma deturpação do papel da polícia, do papel dos militares. Nunca houve nenhuma ilusão por aqui.”

Na época, o hoje professor da Université Paris Diderot participou da criação de uma rede internacional para receber e tratar vítimas da tortura, cada vez mais numerosos, chegando do Brasil e do Chile. “A coordenação internacional do MR8 na Argélia me indicava o que eles precisavam, como passaporte ou dinheiro, e me dizia em qual voo vindo de Cuba ou Santiago chegaria a pessoa. Eu ia ao aeroporto de Orly, fazia algum gesto combinado, com o jornal aberto, por exemplo, a pessoa me dizia uma senha e eu a levava”.

Oliveira se aproximou principalmente dos casos psicológicos, mesmo se alguns baleados chegavam para ser tratados. “Fiquei fixado no sentimento de perseguição, a paranoia do exilado político, a conduta suicida. O traumatismo adquiria um sentimento de perseguição e depressão graves. Muita gente que estava na preocupação paranoica ou se suicidava ou resolvia voltar para o Brasil a todo preço. O que custou a vida de muitos”.

A rede de atendimento contou com o apoio de médicos franceses solidários à causa. “Eles conseguiam fazer entrar pacientes brasileiros no seu hospital e tratá-los semi-clandestinamente”, afirma. “Pediam para a administração fechar os olhos, e a pessoa acabava sendo tratada pela assistência médica gratuita francesa”.

Retorno ao Brasil

Ao contrário de Prado de Oliveira, que seguiu seus estudos e acabou se radicando na França, a maior parte dos brasileiros retornou no início dos anos 80, após a anistia, levando consigo a produção intelectual e a reflexão daqueles anos em Paris. Muitos se formaram em universidades francesas e se expressavam em uma publicação fundada na época, a revista Debate, criada em Paris em 1970 por um dirigente da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e que seria editada até 1982.

O período de exílio em Paris, segundo o então exilado e hoje professor da Universidade Federal Fluminense Daniel Aarão dos Reis, contribuiu para uma “metamorfose” das esquerdas brasileiras na sua percepção de democracia. Em artigo publicado na França, ele afirma que essa mudança viria “sem dúvida a ter um impacto na construção da democracia brasileira”.


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