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Américas

Após vitória da oposição, Argentina anuncia restrição cambial para compra de dólares

media Argentino retira pesos em banco no distrito financeiro de Buenos Aires, em 30 de agosto de 2018. REUTERS/Marcos Brindicci

Medida de emergência busca preservar reservas do país, mas praticamente proíbe argentinos de comprarem dólar no mercado oficial, conduzindo a demanda para um mercado paralelo.

Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O Banco Central argentino anunciou um aperto no controle de câmbios que praticamente proíbe as pessoas físicas de comprarem dólares como medida para preservar as reservas internacionais do país.

A partir desta segunda-feira, os particulares só poderão comprar 200 dólares por mês se o fizerem através das suas contas bancárias. Se usarem dinheiro, o limite mensal cai para 100 dólares. Os valores não são cumulativos e a restrição durará até dezembro.

A medida foi anunciada horas depois da confirmação de vitória do opositor Alberto Fernández nas eleições presidenciais deste domingo (27). Historicamente, em períodos de incerteza política, os argentinos refugiam-se no dólar para preservar o valor das suas poupanças.

Incerteza

"Perante o grau de incerteza atual, o Banco Central decidiu tomar uma série de medidas que visam preservar as reservas", explica a entidade, em nota. "O Banco Central estabelece um novo limite de 200 dólares mensais para a compra de dólares para pessoas físicas com conta bancária e de 100 dólares em dinheiro", encerra o anúncio que será motivo de uma coletiva durante a manhã desta segunda-feira.

O objetivo é evitar que a demanda por dólares leve o Banco Central a intervir para conter a desvalorização da moeda argentina. Por essa via, desde o dia 11 de agosto, o Banco Central perdeu US$ 6 bilhões, sem conseguir conter a desvalorização do peso argentino.

"O período que começa agora até o próximo dia 10 de dezembro, quando Alberto Fernández assumirá como presidente, anuncia-se como de turbulência porque os mercados vão querer ver um plano econômico e o nome de quem vai conduzir a economia", explicou à RFI a economista Marina Dal Poggetto, diretora da Consultora EcoGo.

Em 11 de agosto, Alberto Fernández, então candidato da ex-presidente Cristina Kirchner, ganhou as eleições primárias num pré-anúncio da vitória que se confirmaria neste domingo.

Durante esse período, as reservas do Banco Central caíram 35%. No ritmo atual de queda, as reservas não chegariam até o dia 10 de dezembro e o país, sem crédito, correria risco de uma aceleração inflacionária. Alguns economistas chegam mesmo a advertir sobre o risco de hiperinflação.

Reservas

"A parte boa da notícia é que se protegem as reservas do Banco Central. A parte ruim é que isso terá impacto no dólar paralelo. É preciso ficar atento a essa dinâmica num contexto inflacionário complexo", alerta o analista Sergio Berensztein, em referência à inflação de 53,5% acumulada nos últimos 12 meses.

Na semana passada, Alberto Fernández pediu que o presidente Mauricio Macri preservasse as reservas e o valor do peso argentino.

"Ou se contém a subida do dólar, gastando as reservas do Banco Central, ou se preservam as reservas, deixando o dólar encontrar o seu valor livremente. O mercado interpretou que só com um endurecimento das medidas de restrição de compra seria possível conter o aumento do dólar sem gastar as reservas", explica o economista Martín Tetaz.

Corrida cambial

Prevendo este anúncio, na última sexta-feira, empresas e particulares promoveram uma corrida cambial. O peso argentino desvalorizou-se 2,62% em um único dia no câmbio oficial, atingindo 65 pesos por dólar. No mercado paralelo, ao que muitos recorrem para driblar os controles cambiais, a desvalorização do peso argentino foi ainda maior: 8,24%, elevando a 75,50 pesos por dólar.

Desde o dia 12 de agosto, os mercados passaram a considerar a vitória de Fernández, impondo ao peso argentino uma forte desvalorização. De 46,55 pesos por dólar em 9 de agosto a aos atuais 65 pesos, uma desvalorização de 40%.

Em 1° de setembro, para conter a demanda por dólares, o governo tinha anunciado medidas de restrição cambial que impedia empresas de comprarem dólares para entesouramento e particulares de comprarem mais de US$ 10 mil por mês. A medida não afeta as empresas que trabalham com comércio exterior.

A questão é se o anúncio não vai assustar os depositantes que, para evitarem novas surpresas, podem retirar os seus depósitos em dólar. Entre o dia 12 de agosto e o 21 de outubro, os depósitos privados em dólares caíram 37%, saindo do sistema US$ 12 bilhões. Os atuais 20 bilhões que ainda continuam nas contas bancárias representam o nível mais baixo desde 2016.

"A economia não estava bem, mas o presidente Macri tinha credibilidade. Alberto Fernández não tem credibilidade. O mercado desconfia das medidas que Fernández possa tomar", compara Spotorno.

O mercado também avalia que o novo presidente terá de reestruturar a dívida pública com credores privados e com o Fundo Monetário Internacional tanto num alongamento dos prazos quanto numa redução do capital para evitar uma nova moratória da dívida.

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