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Cineasta se veste de padre para filmar documentário na Venezuela

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Cineasta se veste de padre para filmar documentário na Venezuela
 
O cineasta baiano Dado Galvão com a Bandeira do Mercosul Foto Elianah Jorge

Após anos de planejamento, o cineasta baiano Dado Galvão conseguiu visitar a Venezuela. A meta era captar in loco material para o documentário “Missão Ushuaia”, nome inspirado na declaração que reafirmou o compromisso democrático dos países do Mercosul e que causou a suspensão da Venezuela, em 2017. 

Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil na Venezuela

“Quando começamos a missão, em 2015, a gente pretendia conhecer, através do cinema documentário, o que estava acontecendo no país. Mas as coisas foram piorando até acontecer a suspensão da Venezuela”, conta Dado Galão.

Mesmo sem o visto concedido pelo governo bolivariano, Galvão decidiu continuar o projeto e planejou sua entrada na Venezuela por terra, pela fronteira brasileira. Para facilitar a entrada, decidiu se fantasiar de padre: “Eu uso uma camisa clerical, uma camisa de padre. Entrei assim no país levando também alguns acessórios para compor o disfarce”, revela o cineasta.

Em sua jornada, Dado Galvão contou com a ajuda de um jornalista venezuelano, que o auxiliou com as entrevistas, inclusive uma feita com o autoproclamado presidente interino Juan Guaidó.

Apesar do risco de ser deportado caso fosse descoberto, Dado se arriscou para ver tudo de perto. Mas, ainda na capital do estado brasileiro de Roraima, a situação de alguns venezuelanos o impactou. “Em Boa Vista eu vi uma família, com crianças, disputando comida no lixo com um cachorro”, lamenta.

Com o agravamento da crise, o interesse se manteve. Porém “com o olhar centrado nos refugiados, na questão democrática e no que diz respeito ao protocolo de Ushuaia”. O bloco comum vem se revigorando, sobretudo após o acordo feito com a União Europeia após 20 anos de negociações.

Mas, para Galvão, as dimensões de ações do bloco vão além das político-econômicas: “O Mercosul não é só negócios entre países. Vai além. Existe um estatuto do Mercosul, existe o Parlasul, onde estivemos entregando cartas escritas por refugiados venezuelanos que estão em Pacaraima e em Boa Vista, em Roraima, o estado brasileiro que mais recebe pessoas que fogem da Venezuela”.

Cartas da esperança

É através do cinema documentário com as ações com a bandeira do Mercosul e com a entrega de mensagens dos refugiados, chamadas de “cartas da esperança”, que Galvão espera contribuir com a sociedade venezuelana.

Essas cartas foram escritas por venezuelanos e entregues a autoridades e a integrantes da sociedade civil no Brasil. Mas também houve o movimento inverso: brasileiros que escreveram mensagens de motivação aos venezuelanos.

Mais de 400 venezuelanos passam todos os dias pelos postos de triagem em Pacaraima, a primeira cidade brasileira na fronteira com a Venezuela. A estimativa é de que mais de 96 mil venezuelanos estejam no Brasil.

Além da câmera, na mala ele trouxe a bandeira do bloco comum, batizada de Abaixo-Assinado do Mercosul, e que conta com assinaturas de cidadãos e de personalidades como, por exemplo, a do político Leopoldo López, e mais recentemente a de Juan Guaidó. A peça foi exposta em vários lugares, inclusive na fronteira Brasil-Venezuela.

Inflação deve chegar a 10 milhões por cento

Dado se questionava sobre por que as pessoas preferem estar até em estado de mendicância no Brasil em vez de continuar em suas casas na Venezuela. Foi na hora da refeição, na casa de uma família venezuelana, que ele entendeu: “O prato era interessante. Era uma montanha de macarrão e um pedacinho de frango - que tinha mais osso que carne. Isso me marcou muito e me deu mais combustível para continuar na caminhada”.

Ao contrário do que vinha acontecendo em anos anteriores, a escassez de alimentos parece ter chegado ao fim. Mas agora o problema é outro, explica Galvão: “O que me chamou a atenção aqui em Caracas é que os mercados estão abastecidos. Você encontra os produtos, mas as pessoas não têm dinheiro para adquirir estes produtos”.

Ele se refere às consequências da altíssima inflação, que deve chegar a 10 milhões por cento este ano, de acordo com o Fundo Monetário Internacional. O salário mínimo, de 65 mil bolívares, não permite o acesso a uma adequada alimentação. Um quilo de carne custa cerca de 20 mil bolívares.

O baixo orçamento de uma residência venezuelana contrasta com os investimentos estatais. “Uma coisa que me chamou atenção foi ver que ao mesmo tempo que a gente vê muita pobreza, a gente vê o pessoal das diversas forças policiais totalmente equipados, com armas modernas, muito bem vestidos com fardas novas”, explica Galvão.

De acordo com o FMI, o Produto Interno Bruto venezuelano deve sofrer uma contração de 35% este ano.

O documentário ainda não tem data de estreia, mas Dado Galvão acredita que ele representa um passo importante na luta por dias melhores aqui na Venezuela: “A gente acredita que através da ferramenta audiovisual, mais as nossas ações de ativismo, culturais e humanitárias, a gente está provocando uma discussão para que as pessoas vejam. E no futuro, tomara que seja bem próximo, a gente tenha uma solução democrática para o que está acontecendo aqui”.


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