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Venezuela: crise econômica faz homicídios caírem porque armas custam caro demais

Venezuela: crise econômica faz homicídios caírem porque armas custam caro demais
 
O sociólogo e diretor do Observatório Venezuelano de Conflito Social, Roberto Briceño-León, um dos autores do livro “Os novos rostos da violência: empobrecimento e letalidade policial” E. Jorge

Dados recentes divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) apontam que a Venezuela se mantém no ranking dos países mais violentos do continente sul-americano. A forte crise econômica teve reflexos diretos nos crimes cometidos no país comandado por Nicolás Maduro, onde armas custam muito caro.

Por Elianah Jorge, correspondente da RFI Brasil na Venezuela

O aumento da criminalidade é mostrado no livro “Os novos rostos da violência, empobrecimento e letalidade policial” (tradução livre), lançado este ano em Caracas. Um dos autores da obra, o sociólogo e diretor do Observatório Venezuelano de Conflito Social, Roberto Briceño-León, destaca que crianças e adolescentes contribuíram para o aumento das estatísticas da criminalidade, seja como vítimas ou algozes. A fome causada pela queda do poder aquisitivo dos país é um dos principais fatores para a entrada dos menores de idade no crime.

“Muitas crianças vão para as ruas porque as famílias não têm como oferecer alimentos dentro de casa. Então eles saem ou, em outros casos, são mandados (às ruas) pelos próprios pais. Os menores se unem a grupos nas ruas buscando o que comer", afirma Briceño. Em alguns casos, acontece a incorporação de crianças ou de jovens em gangues criminosas compostas por adultos. Eles são seduzidos pela oferta de alimentos ou de artigos básicos como um refrigerante, uma coca-cola, coisas deste tipo que a família, que sequer tem o que comer, pode comprar”, diz o especialista.

De acordo com o sociólogo, os menores de idade também são atraídos por facções criminosas sem líderes –muitos imigraram para outros países. É o caso do Trem de Aragua, um dos grupos mais perigosos do país e que agora tem células no Peru e na Colômbia. A violência nos lares também aumentou. Há denúncias de agressões ou mesmo de assassinatos cometidos sob a justificativa de que um familiar comeu a porção racionada reservada para outra pessoa.

Bancos viram locais seguros

A Venezuela tem a maior inflação do mundo e o bolívar, a moeda nacional, perdeu o poder de compra causando a dolarização da economia local. A desaceleração econômica também impactou a criminalidade.  Os homicídios caíram em até 20% nos últimos três anos. Uma arma de fogo custa cerca de U$ 3.000 mil, valor muito superior aos cinco dólares que valem, de acordo com o câmbio, o salário mínimo venezuelano.

A falta de dinheiro em espécie tornou os bancos locais seguros. Com isso, houve a redução dos sequestros relâmpagos, aqueles de rápida duração em que os criminosos obrigam a vítima a sacar dinheiro dos caixas eletrônicos. No entanto, os criminosos, que agora atuam de dia, preferem assaltar residências, onde as pessoas guardam artigos de valor. Entre os bens mais buscados estão moedas estrangeiras e até alimentos.

Caracas era uma das metrópoles mais violentas da Venezuela. Porém agora os índices apontam que é nas pequenas cidades que acontecem o maior número dos assassinatos.

Violência policial

As novas formas de violência também incluem as forças de segurança do Estado. Segundo Briceño-León, a ação policial é um dos fatores que mantém em alta o número de mortes. “Nos últimos dois anos, o que aumentou de maneira importante no país foram os assassinatos cometidos pelos corpos policiais. A mortalidade aumenta mais pela ação policial que pelos próprios criminosos.”

O sociólogo cita o caso do estado Aragua, na região central da Venezuela, onde a maior parte dos assassinatos são cometidos por policiais. Muitos casos aconteceram durante a chamada Operação para Libertação do Povo (OLP), organizada pelo Estado para conter a criminalidade.

No relatório divulgado pela ONU Direitos Humanos, após a visita da alta comissária Michelle Bachelet à Venezuela, foi solicitada a dissolução das FAES, um braço da polícia nacional bolivariana, considerada um grupo de extermínio.

Além disso, alguns policiais recorrem à venda de artigos de trabalho, como, por exemplo, as munições para aumentar a renda. Eles também estão sendo acusados de organizar blitz para extorquir cidadãos. Ao mesmo tempo, agentes de segurança também integram os dados sobre as vítimas. Em 2018, só na capital Caracas, foram assassinados 63 policiais.

Fábrica incendiada

A maioria das vítimas dos crimes são crianças, idosos e mulheres. Outro grupo que engrossa as estatísticas é o dos comerciantes, sobretudo os que trabalham com alimentos. Eles sofrem extorsões para se livrar de outros tipos de crimes. Caso não paguem, podem sofrer sérias represálias. Foi o caso da centenária fábrica de biscoitos Puig, que há poucos dias foi incendiada porque seus proprietários se recusaram a pagar propina aos criminosos.

Foi lançado este ano em Caracas o livro “Os novos rostos da violência. Empobrecimento e letalidade policial” (tradução livre) Editora Alfa

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