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Tarifas sobre produtos mexicanos podem aumentar fluxo de migrantes nos EUA

Tarifas sobre produtos mexicanos podem aumentar fluxo de migrantes nos EUA
 
Caravana de migrantes da América Central em Tijuana, na fronteira do México com os Estados Unidos. REUTERS/Kim Kyung-Hoon

O ministro mexicano das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, se reúne, nesta quarta-feira (5), em Washington, com o secretário de Estado americano, Mike Pompeo. O objetivo é tentar convencer o presidente Donald Trump a não ir adiante nos planos de impor uma tarifa de 5% sobre todos os produtos importados do México. Uma instabilidade financeira pode dificultar ainda mais o combate à imigração ilegal na fronteira.

Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

A tarifa pegou Washington de surpresa quando, na última quinta-feira (30), Trump anunciou o imposto de 5% sobre todos os produtos mexicanos - uma medida que deve entrar em vigor partir de 10 de junho. O imposto será aumentado gradualmente até 1º de outubro, quando atingirá 25%. O objetivo do presidente americano é pressional o México a interromper o fluxo de imigrantes ilegais que chegam à fronteira dos Estados Unidos, mas pode ter o efeito contrário.

Como já foi observado no caso das tarifas comerciais à China, Trump gosta de se valer de taxas como um instrumento de negociação. Dessa vez, no entanto, a medida está tendo pouca receptividade em Washington.

Os cidadãos americanos sabem que isso pode acabar afetando o seu bolso, já que o consumo de produtos de empresas mexicanas é alto nos Estados Unidos. Portanto, não falta apoio para que o ministro das Relações Exteriores do México consiga um acordo com a Casa Branca. Até mesmo deputados e senadores republicanos estão se opondo à medida polêmica para conter a imigração ilegal na fronteira entre os dois países.

Na terça, um grupo de senadores republicanos se reuniu com funcionários da Casa Branca para discutir a medida, e nenhum deles se mostrou favorável ao projeto de Trump. Os senadores pediram para que o presidente americano pare de ameaçar o vizinho do sul, pelo menos até que o presidente possa apresentar seus planos detalhadamente. No entanto, o prazo a nova taxa entra em vigor na próxima segunda-feira (10).

Mercados reagem

Se for mesmo aplicada, a nova tarifa pode abalar significativamente os mercados. Mas, apesar da incerteza na véspera do encontro de Ebrard com Pompeo, as bolsas americanas tiveram um bom desempenho na terça-feira (4). 

Segundo Jerome Powell, presidente do Banco Central americano (Fed) -, Jerome Powell, estão sendo avaliadas as consequências da medida para a economia dos Estados Unidos. Powell garantiu que o Fed tomaria as medidas necessárias para que a expansão econômica, que já completou uma década, não fosse interrompida. 

Isso animou o mercado acionário americano que entendeu que haveria um corte na taxa de juros, caso o novo imposto se torne um desafio para a economia. No entanto, o peso mexicano sofreu em relação ao dólar e teve uma queda nos mercados globais. Se a ameaça de Trump realmente sair do papel, o comércio pode desacelerar drasticamente, gerando uma alta dos preços, tanto nos Estados Unidos quanto no México. 

Efeito negativo

Uma instabilidade financeira pode também ter efeito negativo na capacidade do México de conter o fluxo de imigrantes ilegais na fronteira. Mas, mesmo com todos esses riscos, Trump, fiel ao seu estilo de negociador durão, diz que é “provável” que a taxa entre em vigor na semana que vem e continue mesmo enquanto os dois países dialogam sobre possíveis soluções para o fluxo migratório ilegal. 

Trump é o rei das taxas e acredita que tudo pode ser solucionado com isso. Não há dúvida de que a imposição de uma tarifa é uma medida inovadora para lidar com a imigração ilegal. Talvez seja mesmo necessário usar a criatividade, já que os políticos em Washington parecem ser incapazes de realizar qualquer plano que dê resultados concretos, o que frustra demais os americanos. Aumenta cada vez mais a antipatia dos cidadãos pelo Congresso, independentemente de afiliação partidária. 

Questão complexa

A questão da chegada dos imigrantes ilegais aos Estados Unidos – que vêm principalmente de El Salvador, Guatemala e Honduras – é muito complexa. É improvável que o governo do México possa facilmente conter o fluxo migratório, mesmo se quiser evitar esse imposto. Afinal, a presença dos cartéis de tráfico de drogas na região é forte, e pode até mesmo ser que o crime organizado tenha mais poder na fronteira do que o próprio governo mexicano.

O problema exige mais do que uma solução simplista para forçar o governo mexicano a rapidamente resolver o problema. Além disso, segundo Ebrard, o México já faz bastante. O ministro afirmou que, apenas neste ano, cerca de 250 mil migrantes não chegaram aos Estados Unidos graças aos esforços do seu governo, que incluem permitir que milhares de migrantes esperem por suas audiências de asilo em território mexicano e fazer o processamento dos pedidos de dezenas de milhares de refugiados.

No entanto, se nos próximos dias o México de fato se comprometer a interromper o fluxo migratório, isso será uma grande vitória para Trump. O presidente americano está mesmo precisando de um resultado que comprove sua autodeclarada fama de excelente negociador. Afinal, no momento, os Estados Unidos não têm nenhum acordo comercial de peso realmente firmado, apesar das muitas negociações com a China, Canadá e México.


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