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Impeachment de Trump é um cálculo complicado para os democratas

Impeachment de Trump é um cálculo complicado para os democratas
 
O presidente americano, Donald Trump, declarou guerra aberta aos democratas nesta semana. REUTERS/Carlos Barria

Desde que Donald Trump foi eleito, em novembro de 2016, a animosidade em Washington só tem aumentado. Era de se pensar que, com o tempo, as coisas se acalmariam entre democratas e republicanos. Mas isso não tem acontecido: boa parte da oposição insiste no impeachment do presidente, mesmo que esse discurso seja desgastante e possa resultar no afastamento dos eleitores.

Ligia Hougland, correspondente da RFI em Washington

A notícia de que Trump havia se recusado a participar de uma reunião na Casa Branca já acertada com os democratas surpreendeu a todos, particularmente porque trataria de um projeto vantajoso para todos os lados e apoiado pelos americanos, independentemente de afiliação partidária. Afinal, o país realmente precisa de um grande aprimoramento em termos de aeroportos, rodovias e infraestrutura geral. No entanto, em vez de cancelar a reunião, Trump decidiu, no que pareceu ter sido um rompante, aparecer só para avisar que não conversaria com os democratas sobre infraestrutura enquanto eles o acusassem de tentar acobertar ilegalidades.

A partir daí, o clima que já estava salgado, desandou para o teatro dramático. Trump chamou a presidente da Câmara dos Deputados, Nancy Pelosi, de “maluca”. Pelosi respondeu na mesma moeda, fazendo um apelo emocionado em frente às câmeras para que a família de Trump interviesse quanto ao comportamento errático do presidente, "para o bem do país".

Na noite de quinta-feira (23), mais um episódio contribuiu com o clima tenso na capital americana, com Trump ordenando a divulgação de informações relacionadas à origem das investigações pelo FBI sobre sua campanha presidencial. Isso faz com que a possibilidade de uma trégua seja ainda mais remota.

Os defensores de Trump dizem que ele fez certo ao se recusar a trabalhar com os democratas, pois acreditam que o presidente já aguentou por muito tempo o que consideram ser uma perseguição injusta dos democratas. Por um lado, o ponto de vista deles faz sentido, pois, depois de dois anos de intensas investigações, um custo de US$ 25 milhões, além de milhares de intimações e inquéritos, a equipe do investigador independente Robert Mueller, não conseguiu provar uma parceria indevida da campanha de Trump com o governo russo.

Desde então, os democratas pararam de focar na suposta cooperação indevida com os russos, preferindo apostar em obstrução de justiça por parte de Trump. Uma grande parte dos americanos - que inclui democratas e pessoas que simplesmente não aprovam o presidente - acha que a atitude do bilionário republicano é narcisista e egocêntrica.

Para esse grupo, não importa se o presidente gosta ou não da agenda dos seus inimigos políticos e que ele deveria colocar suas preferências pessoais de lado, para seguir com o plano de aprimoramento da infraestrutura americana. De fato, não há dúvida de que o governo deveria ser capaz de fazer mais que uma coisa ao mesmo tempo, apesar de Trump alegar não ser possível focar concomitantemente nos dois tópicos, se referindo às investigações e à reforma da infraestrutura.

Dúvidas sobre o impeachment

Praticamente todos os candidatos democratas às eleições primárias para a Casa Branca dizem que seguir com impeachment é o passo certo. Mas esse discurso não está sendo usado somente para alertar os eleitores de que Trump não é adequado para servir nem seu primeiro mandato, muito menos para ser reeleito.

No entanto, os líderes do Partido Democrata - é o caso da própria Pelosi - preferem se distanciar da ideia de impeachment, pois sabem que isso pode causar muito desgaste e afastar eleitores.

Os líderes republicanos, por outro lado, enfatizam que seguir com impeachment seria um desastre para os democratas, pois garantiria a reeleição de Trump. Se isso é verdade ou não, fica difícil de saber.

A verdade é que não há razões para os republicanos estarem preocupados em alertar seus rivais sobre o perigo de derrota. Isso mostra que, talvez, eles não acreditem que um processo de impeachment seja realmente mais arriscado para os democratas do que para o presidente.

Já Trump parece não estar muito preocupado com a possibilidade de impeachment. Não seria surpresa se o presidente americano achasse que um impeachment pudesse até mesmo ser vantajoso para ele, pois ele é da linha que acredita que “quanto mais exposição, melhor”, não importa de que tipo.

Virada de mesa

O fato de Trump ter dado ordem que as informações sobre o que deu início à investigação de sua campanha fossem divulgadas parece ter um tom de retaliação às acusações de comportamento ilegal e ameaças de impeachment por parte dos democratas. É possível que Trump queira virar a mesa, investigando e expondo os democratas e, mais especificamente, o governo de Barack Obama e a campanha de Hillary Clinton.

Os republicanos alegam que, na verdade, foi Hillary quem contou com a ajuda de estrangeiros para influenciar a eleição presidencial de 2016. A base dessa acusação é que o FBI teria se baseado em um dossiê encomendado pela campanha de Hillary a Christopher Steele, ex-espião britânico e prestador de serviços para o FBI, cujas fontes eram russas.

O dossiê foi também promovido por Steele junto à imprensa americana. Ele é, de fato, problemático, pois muitas das informações fornecidas por suas fontes nunca foram comprovadas. É o caso da alegação de pagamentos sendo feitos pelos russos a colaboradores em hacking e recrutamento por meio do consulado russo em Miami, quando, na verdade, o consulado não existe.

As acusações dos republicanos são graves e, se comprovadas, podem implicar o governo de Obama e a campanha de Hillary em um grande escândalo. Não é um bom sinal que os democratas, e especialmente os diretores dos serviços de inteligência de Obama, como o ex-diretor da CIA, John Brennan, sejam contra a divulgação desses documentos.

No entanto, muitos americanos desconfiam que tudo isso apenas faça parte do grande teatro costumeiro - mas hoje exacerbado - da política de Washington, usando truques para distrair e manipular o eleitorado. Entretanto, no ponto em que a situação chegou, com constantes e sérias acusações de todos os lados, talvez a única solução para tentar desinfetar a capital americana seja expor o comportamento de todos os seus atores.


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