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Futuro da Venezuela cada vez mais nas mãos da Rússia, EUA e China

Futuro da Venezuela cada vez mais nas mãos da Rússia, EUA e China
 
Protesto pró-governo nas ruas de Caracas em 06/04/19 REUTERS/Fausto Torrealba

O drama venezuelano está pouco a pouco cuspindo os países da América do Sul. O  futuro da ditadura bolivariana e do movimento de oposição está cada vez mais nas mãos das grandes potências fora do subcontinente: os Estados Unidos, a Rússia e a China. Os vizinhos regionais parecem torcidas de arquibancada, aplaudindo ou xingando os protagonistas.

A tradição diplomática dos Estados da região com altos e baixos foi sempre a de tentar evitar qualquer ingerência externa na América do Sul. A ideia central é que roupa suja se lava em casa, respeitando as soberanias nacionais e promovendo saídas negociadas.

Aliás, tanto os governos que apoiam o opositor Juan Guaidó uma vasta maioria quanto os poucos que continuam fiéis a Nicolás Maduro, já se pronunciaram contra uma intervenção militar e a favor de uma solução democrática pela negociação. Mas como passar da retórica principista para os resultados concretos? Isso também vale para a União Europeia – cuja maioria dos membros já reconheceu Guaidó que também quer intermediar uma saída sem violência.

Tudo muito certo. Nada pior do que uma situação caótica e sangrenta na Venezuela, com repercussões muito negativas e imediatas para a vizinhança. Só que o espaço para negociar está sumindo. O único objetivo do pequeno grupo de dirigentes bolivarianos é manter-se no poder a qualquer custo. Maduro fala em negociações e pede ajuda de intermediários como o México ou o Uruguai.

Mas a ideia é protelar qualquer decisão para tentar cansar e estancar a dinâmica da oposição. E mesmo se tiver de aceitar um novo processo eleitoral para tentar escapar das sanções internacionais, só se puder controlar tudo graças ao comando total da máquina administrativa e jurídica, e sem deixar nenhum espaço às forças opositoras. Uma oposição constantemente ameaçada pela repressão física.

Disputa interna desigual

A queda de braço interna é profundamente desigual. A pequena elite bolivariana (civil e militar), com a ajuda dos serviços de inteligência cubanos, ainda comanda todos os instrumentos de força: o Exército, a polícia e as temíveis milícias armadas – os colectivos. Guaidó e a oposição só podem contar com as manifestações de massa e os apelos para que os militares abandonem o governo. Mas qualquer negociação só é possível com uma mistura de hard power e vontade de chegar a um compromisso.

Por enquanto, o poder bolivariano possui o monopólio do poder bruto e, portanto, não está disposto a qualquer compromisso que não seja a sua própria manutenção no poder. A oposição não tem outro remédio senão apelar para uma ajuda externa. Uma ajuda “com dentes”, senão não serve para nada.

EUA x Rússia

Foi nessa que Washington entrou, com uma política de sanções cada vez mais duras e até ameaçando uma intervenção militar para pressionar Maduro. Mas o regime bolivariano demonstrou que não vai ceder, apesar das sanções econômicas e do desmoronamento incompetente dos serviços públicos e da produção de petróleo, e o desabastecimento alimentar e farmacêutico.

Só que agora a administração Trump decidiu pressionar diretamente Havana – o maior sustento de Maduro – sancionando o transporte marítimo de petróleo venezuelano para Cuba. Mas o apoio americano a Guaidó também abriu caminho para uma intervenção russa.

Putin mandou para Caracas uma centena de militares com armamentos pesados e mais um número de mercenários que vão constituir uma espécie de guarda pretoriana do regime caso o exército local acabe balançando. Portanto, a Rússia inaugura uma intervenção militar estrangeira na América do Sul, sob os mesmos pretextos que o envio de tropas para a Síria.

A questão venezuelana virou confronto geopolítico global. E é muito possível que possa evoluir para uma negociação bilateral entre Moscou e Washington. Enquanto isso, uma América do Sul impotente, incapaz de oferecer um apoio sério à oposição venezuelana, fica chupando o dedo angustiada diante do pesadelo de ter de aceitar que as grandes potências decidam o futuro do maior problema estratégico regional.


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