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Opinião: Venezuela está virando a bola da vez de um novo tipo de Guerra Fria

Opinião: Venezuela está virando a bola da vez de um novo tipo de Guerra Fria
 
Juan Guaidó, Nicolás Maduro, dois presidentes venezuelanos para um só lugar. Yuri CORTEZ / AFP

Um dia o governo bolivariano da Venezuela vai ter que cair de maduro. Ninguém sabe se vai ser agora ou não. Mas a situação apodreceu tanto que o país tornou-se inviável. Mais de três milhões de venezuelanos já preferiram se exilar nos países vizinhos do que ficar o dia inteiro procurando comida, remédios e o mínimo de serviços públicos.

A economia derreteu: a inflação está chegando a dez milhões por cento, salários – e até o soldo dos soldados – está sendo pago numa criptomoeda eletrônica sem valor, e boa parte das empresas estão praticamente falidas.

A produção de petróleo, a única riqueza que sobrou, baixou 70% por incompetência do governo. Os poucos que se dão bem são os membros da pequena camarilha no poder – quase todos militares ou ex-militares – que controlam a estatal petroleira e se locupletam com a importação de produtos básicos e o tráfico de drogas.

Além dos integrantes das milícias de bairro, constituídas e armadas pelo Estado para vigilar e delatar a população.

Só que o país não aguenta mais tanta inépcia e tanta repressão. Durante muito tempo, as oposições – divididas e incapazes de adotar uma visão comum – não ajudaram. Mas pelo visto, estão começando a tomar jeito. Junto com manifestações multitudinárias, o presidente da Assembleia legislativa, Juan Guaidó, foi proclamado presidente interino do país, com a missão de organizar rapidamente novas eleições para restaurar um regime democrático.

Claro, Nicolás Maduro e seus amigos, domésticos e externos, denunciam um “golpe” antidemocrático, esquecendo o golpe que eles mesmo deram nas instituições venezuelanas. Em 2016, a lista da oposição ganhou o pleito legislativo.

A reação de Maduro foi entregar o Supremo Tribunal de Justiça para juízes amigos e nomear, por meio de eleições fajutas, uma Assembleia Constituinte totalmente controlada pelo governo.

Retirando todos os poderes do Legislativo eleito. E trancou tudo com uma eleição presidencial na qual os líderes da oposição não puderam participar. Não é por nada que boa parte dos países democráticos latino-americanos, norte-americanos e europeus consideram que Maduro e o poder bolivariano em geral, não podem ser considerados “legítimos”.

Queda de braço brutal

Só que a queda de braço entre Guaidó e a oposição de um lado, e Maduro e seu governo do outro, vai ser brutal. E não se trata mais só de uma questão interna.

Os Estados Unidos, o Canadá e os principais governos latino-americanos e europeus já reconheceram Guaidò como presidente legítimo – ou estão em vias de fazê-lo. Do outro lado, os governos autoritários da Rússia, China, Iran, Turquia, Síria, Cuba e Nicarágua decidiram apoiar Maduro.

A Venezuela está virando a bola da vez de um novo tipo de Guerra Fria. Qual pode ser a saída? Tudo depende de duas variáveis: o dinheiro e o papel das forças armadas bolivarianas. O reconhecimento internacional de Guaidó significa que todos os ativos e rendas do Estado venezuelano no exterior poderão ser transferidos para o governo interino.

E Washington já está pressionando para que o resto do mundo corte suas relações financeiras com o governo bolivariano. Sem fundos, Maduro e seu governo não terão condições de sobreviver por muito tempo. Nem a Rússia, nem a China poderão segurar o rojão.

Os altos mandos das Forças Armadas deram um show de solidariedade a Maduro. Mas sem meios para continuar pagando os oficiais intermediários e os soldados, vai ser difícil manter a coesão dos militares. E para acelerar o processo, Guaidó está falando em anistia para quem virar a farda.

A tragédia anunciada é que, pouco a pouco, para Maduro e sua camarilha só resta uma solução: apelar rapidamente para a mais brutal repressão possível contra a oposição e eventuais militares dissidentes para liquidar qualquer possibilidade de solução pacífica que entregaria o poder para os opositores.

Nisso, a atitude dos vizinhos sul-americanos vai ser decisiva. Queiram ou não, esse fruto podre vai cair no colo deles.

Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris faz uma crônia de geopolítica às segundas-feiras para a RFI


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