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Cristina Kirchner depõe na "Lava Jato" argentina

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Cristina Kirchner depõe na
 
A senadora e ex-presidente argentina Cristina Fernandez de Kirchner depõe hoje em Buenos Aires. REUTERS/Martin Acosta

A ex-presidente e atual senadora, Cristina Kirchner, depõe na manhã desta segunda-feira (13) no processo chamado "Cadernos da Corrupção", uma investigação que já é considerada a maior e mais abrangente na história da Argentina e que tem paralelos com a Lava Jato. Cristina Kirchner é suspeita de liderar uma quadrilha com membros do governo e empresários da construção civil para desviar milhões de dólares das obras públicas.

Marcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires
 
O ponto de partida foram os cadernos com anotações de arrecadação e de entrega de subornos durante dez anos, mas, em apenas uma semana, o processo ganhou uma magnitude inimaginável a partir da confissão de empresários.

O depoimento que a ex-presidente prestará nesta segunda-feira não promete grandes novidades. Tudo indica que ela apresentará uma declaração escrita na qual deve negar as acusações, sem aceitar responder nenhuma pergunta do juiz.
 
Este depoimento encerra a primeira rodada de interrogatórios, que contou com mais de 20 depoimentos. O primeiro foi o do motorista Oscar Centeno, autor dos cadernos, e a rodada termina com Cristina Kirchner, acusada de liderar uma quadrilha, denominada "Associação Ilícita". Ela seria a destinatária final de subornos.
 
A expectativa é de que haja um forte esquema policial para o depoimento. A ex-presidente pediu para seus militantes não irem aos tribunais, mas essa seria apenas uma estratégia para abafar a sua falta de apoio popular.

Esta é a quarta vez que ela vai depor, em processos diferentes. Nas últimas vezes, o número de militantes foi escasso ou nulo. Cristina Kirchner não corre o risco de ser presa porque possui foro privilegiado por ser senadora.
 
A situação de Kirchner é considerada complicada porque há exatamente uma semana, Ángelo Calcaterra, primo do atual presidente, Mauricio Macri, e ex-dono da construtora IECSA, inaugurou um novo capítulo nas investigações sobre corrupção na Argentina: foi o primeiro empresário a admitir ter pago subornos durante os governos Kirchner. Vale ressaltar que essa construtora aparece também na Lava Jato brasileira.

Depois dessa tomar essa atitude, ele influenciou os demais empresários implicados. Ao longo da semana, vários já aderiram à delação premiada. O ex-chefe do gabinete de ministros, Juan Manuel Abal Medina, também confessou ter recebido dinheiro ilegal de empresários. Mas tanto empresários quanto esse alto membro do governo Kirchner alegaram que era dinheiro para financiamento ilegal de campanha, um delito mais leve.
 
Na última sexta-feira (10), Carlos Wagner, ex-presidente da Câmara Argentina da Construção, apontou diretamente Cristina Kirchner como chefe do sistema de arrecadação ilegal que ele mesmo ajudou a montar e disse que empresários pagavam até 20% do custo de todas as obras públicas no país. Ele diz que era ele mesmo, dono de uma construtora, era quem organizava o esquema entre os empresários e o governo.
 
Os cadernos da corrupção
 
Durante dez anos, entre 2005 e 2015, Oscar Centeno, motorista de Roberto Baratta, braço direito do ministro do Planejamento, Julio de Vido, registrou o sistema de recepção e de entrega de malas de dinheiro que tinham como destino final a residência presidencial e a casa particular dos Kirchner. Nessa espécie de diário da corrupção, Centeno anotou cada movimento com riqueza de detalhes: datas, horários, placas de carros, nomes, endereços e montantes. Algumas vezes fotografou e filmou. O dinheiro era recolhido semanalmente e entregue aos Kirchner em mãos.
 
Esses oito cadernos da corrupção apresentam o mapa completo do delito, da origem ao destino. Mais de vinte empresas participaram do circuito que teria movimentado mais de US$ 160 milhões de dólares. Mas esse montante e os próprios cadernos são agora passado. O pacto de silêncio foi quebrado e foi revelado um esquema muito mais amplo que envolve todas as obras públicas.
 
Lava Jato argentina
 
A comparação com a operação brasileira Lava Jato tem sido usada pelos argentinos cada vez mais porque as investigações, com apenas 10 dias de duração, já chegaram a um nível inédito na história da corrupção argentina. Já são 13 presos, dez delatores premiados, sendo nove deles empresários e um fugitivo. Pela própria dinâmica da investigação, pelo tipo de esquema com obras públicas e pela dimensão, poderíamos dizer que a Argentina tem agora a sua própria Lava Jato.
 
Ainda é cedo para sabermos se o desenlace será o mesmo e existem algumas diferenças com a metodologia do suborno. No Brasil, havia muita transferência bancária. Aqui são sempre malas de dinheiro vivo que não deixam rastros. No Brasil, o montante ia para todos os partidos aliados. Aqui, para os Kirchner.
 
No Brasil, a Lava Jato atingiu em cheio membros do então governo de Dilma Rousseff e continuou no atual. Aqui, nenhum membro governo de Mauricio Macri está envolvido. A grande preocupação da atual administração é com a consequência de um freio na economia a partir de empresas construtoras envolvidas e dos investimentos que ficam à espera de saber o que vai acontecer.

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