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Américas

Peritos estrangeiros concluem que Neruda não morreu de câncer

media O médico espanhol Aurelio Luna Maldonado (centro) durante coletiva de imprensa em Santiago (20). REUTERS/Rodrigo Garrido

O grupo de especialistas internacionais que analisa documentos médicos e amostras retiradas do corpo do poeta chileno Pablo Neruda concluiu nesta sexta-feira (20) que ele não morreu de câncer, como consta em sua certidão de óbito. Mas ainda não foi possível confirmar se o Nobel de Literatura foi assassinado por agentes da ditadura de Augusto Pinochet, em 1973.

Após cinco dias de análises, o painel de especialistas convocado pela justiça chilena excluiu com unanimidade a existência de um quadro de "caquexia cancerosa", em consequência do câncer de próstata que o poeta sofria. A "caquexia" é uma espécie de desnutrição, que atinge pacientes em estado terminal, e se manifesta pela perda de peso e atrofia muscular. Quando Neruda morreu, em uma clínica da capital chilena, em 23 de setembro de 1973, doze dias depois do golpe militar, a versão oficial apontou a existência desta síndrome.

De acordo com o médico Aurelio Luna Maldonado, da Universidade de Murcia, coordenador da equipe de peritos, "é 100% certo que a certidão [de óbito] não reflete a realidade do falecimento". Os especialistas não conseguiram, porém, determinar as reais causas da morte de um dos escritores mais populares do mundo.

Os peritos encontraram nos restos de Neruda traços de uma nova bactéria alheia ao câncer. O germe está sendo analisado em laboratórios do Canadá e da Dinamarca, a fim de dar mais esclarecimentos sobre as causas da morte do escritor chileno.

Neruda morreu aos 69 anos. Sua saúde se deteriorou quando ele estava prestes a deixar o Chile, após o golpe, para se exilar no México, onde seria um articulador importante da resistência à ditadura de Pinochet.

O grupo de especialistas do Canadá, Dinamarca, Estados Unidos, Espanha e Chile busca confirmar ou excluir a hipótese de que existiu uma intoxicação voluntária e deliberada para matar o autor mediante a administração de germes ou toxinas bacterianas, explicaram os peritos na segunda-feira (16) no início dos trabalhos.

Rodolfo Reyes, advogado e sobrinho do poeta, diz ter certeza que a história sobre a morte de Neruda será revista. de um dos poetas mais populares do mundo.

Deterioração de provas

Apesar das dúvidas geradas por sua morte repentina, foi necessário esperar quatro décadas para que a versão do assassinato ganhasse força. Isso aconteceu em 2011, com a publicação de declarações do motorista e assistente pessoal de Neruda, Manuel Araya, que afirmou que o poeta piorou depois que lhe aplicaram uma injeção no abdome.

Sobre esta injeção, "há documentação de testemunhos e declarações, mas não há documentação clínica nem dados exatos que nos permitam confirmar ou descartar a existência da infecção", afirmou Luna nesta sexta.

Outras declarações alimentaram a versão do assassinato. Pessoas próximas ao poeta afirmaram que o opositor chileno estava bem antes de receber a suposta injeção no hospital em Santiago.

Outro detalhe é que a clínica Santa María, onde Neruda faleceu, carrega outra morte duvidosa, a do ex-presidente Eduardo Frei Montalva, que teria sido envenenado por agentes da ditadura em 1982.

O juiz encarregado do caso, Mario Carroza, ordenou em abril de 2013 uma nova exumação do corpo do escritor, para elucidar se o regime de Pinochet, que provocou mais de 3.200 mortes, eliminou também o escritor.

O desafio dos cientistas é utilizar os avanços da ciência para encontrar respostas, mas com a passagem do tempo a tarefa pode se transformar em uma missão impossível.

"É preciso ser muito prudentes e pensar que estamos analisando amostras degradadas com uma antiguidade significativa, e que isso sempre vai significar uma limitação às possíveis conclusões obtidas", advertiu Luna durante a abertura do painel. O especialista considera que há entre 20% e 25% de chance de resolver o mistério e poder afirmar, com base científica, se o prêmio Nobel de Literatura de 1971 foi assassinado.

As primeiras perícias, em novembro de 2013, concluíram que, devido à passagem dos anos, não era possível estabelecer a presença de algum veneno. Mas o juiz prosseguiu com o caso e ampliou as perícias, que após uma nova exumação encontraram um estafilococo dourado (Staphylococcus aureus) nos restos, uma bactéria altamente infecciosa e letal.

Esta descoberta continua sendo central na investigação, mas ainda não há provas contundentes de que a bactéria tenha sido a causa da morte do escritor.

Com informações da AFP

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